Não sei se m'engana Helena,

Se Maria, se Joanna;

Não sei qual dellas m'engana.

_Voltas._

Huma diz que me quer bem,

Outra jura que me quer;

Mas em jura de mulher

Quem crerá, se ellas não crem?

Não posso não crer a Helena,

A Maria, nem Joanna;

Mas não sei qual mais m'engana.

Huma faz-me juramentos

Que só meu amor estima,

A outra diz que se fina,

Joanna, que bebe os ventos.

Se cuido que mente Helena,

Tambem mentirá Joanna;

Mas quem mente não m'engana.

* * * * *

A HUMA DAMA MAL EMPREGADA.

_Mote._

Menina, não sei dizer,

Vendo-vos tão acabada,

Quão triste estou por vos ver

Formosa e mal empregada.

_Voltas._

Quem tão mal vos empregou,

Pouco de mi se dohia,

Pois não vio o quanto me hia

Em tirar-me o que tirou.

Obriga o primor que tem

Lindeza tão extremada

Que digão quantos a vem,

Formosa e mal empregada!

Tomastes da formosura

Quanto della desejastes,

E com ella me guardastes

Para tão triste ventura.

Mataveis sendo solteira,

Matais agora em casada;

Matais de toda a maneira,

Formosa e mal empregada.

* * * * *

A HUMA Foãa Gonçalves.

_Mote._

Com vossos olhos, Gonçalves,

Senhora, captivo tendes

Este meu coração Mendes.

_Volta._

Eu sou boa testimunha,

Que Amor tem por cousa má,

Que olhos, que são homens ja,

Se nomeiem sem alcunha;

Pois o coração apunha,

E diz, olhos, pois vós tendes,

Chamae-me coração Mendes.

* * * * *

OUTRO

De que me serve fugir

De morte, dor e perigo,

Se me eu levo comigo?

_Voltas._

Tenho-me persuadido,

Por razão conveniente,

Que não posso ser contente,

Pois que pude ser nascido.

Anda sempre tão unido

O meu tormento comigo,

Qu'eu mesmo sou meu perigo.

E se de mi me livrasse,

Nenhum gôsto me sería:

Quem, senão eu, não teria

Mal, que esse bem me tirasse?

Fôrça he logo que assi passe,

Ou com desgôsto comigo,

Ou sem gôsto e sem perigo.

* * * * *

A HUMA DAMA, QUE JURAVA PELOS SEUS OLHOS.

Quando me quer enganar

A minha bella perjura,

Para mais me confirmar

O que quer certificar,

Polos seus olhos me jura.

Como meu contentamento

Todo se rege por elles,

Imagina o pensamento,

Que se faz aggravo a elles

Não crer tão grão juramento.

Porém como em casos tais

Ando ja visto e corrente,

Sem outros certos sinais,

Quanto me ella jura mais,

Tanto mais cuido que mente.

Então vendo-lhe offender

Huns taes olhos como aquelles,

Deixo-me antes tudo crer,

Só pola não constranger

A jurar falso por elles.

* * * * *

MOTE ALHEIO.

Ha hum bem, que chega e foge;

E chama-se este bem tal,

Ter bem para sentir mal.

_Volta._

Quem viveo sempre n'hum ser,

Inda que seja em pobreza,

Não vio o bem da riqueza,

Nem o mal d'empobrecer:

Não ganhou para perder;

Mas ganhou com vida igual

Não ter bem, nem sentir mal.

* * * * *

A HUMA DAMA, QUE LHE VIROU O ROSTO.

_Mote._

Olhos, não vos mereci

Que tenhais tal condição,

Tão liberaes para o chão,

Tão irosos para mi.

_Volta._

Baixos e honestos andais,

Por vos negardes a quem

Não quer mais que aquelle bem,

Que vós no chão espalhais?

Se pouco vos mereci,

Não m'estimeis mais que o chão,

A quem vós o galardão

Dais, e mo negais a mi.

* * * * *

PROPRIO.

Venceo-me Amor, não o nego;

Tee mais fôrça qu'eu assaz;

Que como he cego e rapaz,

Dá-me porrada de cego.

_Volta._

Só porque he rapaz ruim,

Dei-lhe hum boféte zombando.

Diz-me: Ó mao, estais me dando,

Porque sois maior que mim?

Pois se eu vos descarrégo,

E em dizendo isto, chaz;

Torna-me outra; tá rapaz,

Que dás porrada de cego.

* * * * *

AO DESCONCERTO DO MUNDO.

Os bons vi sempre passar

No mundo graves tormentos;

E para mais m'espantar,

Os maos vi sempre nadar

Em mar de contentamentos.

Cuidando alcançar assi

O bem tão mal ordenado,

Fui mao; mas fui castigado.

Assi, que só para mi

Anda o mundo concertado.

* * * * *

A HUMA DAMA, PERGUNTANDO-LHE QUEM O MATAVA.

_Mote._

Perguntais-me, quem me mata?

Não quero responder nada,

Por vos não fazer culpada.

_Volta._

E se a penna não me atiça,

A dizer pena tão forte,

Quero-me entregar á morte,

Antes que a vós á justiça.

Porém se tendes cobiça

De vos verdes tão culpada,

Direi que não sinto nada.

* * * * *

MOTE.

Esconjuro-te, Domingas,

Pois me dás tanto cuidado,

Que me digas se te vingas,

Viverei menos penado.

_Voltas._

Juravas-me, que outras cabras

Folgavas de apascentar;

Eu por não me magoar,

Fingia qu'erão palabras.

Agora d'arte te vingas

D'algum meu doudo peccado,

Qu'inda que queiras, Domingas,

Não posso ser enganado.

Qualquer cousa busca o seu;

A fonte vai para o Tejo,

E tu para o teu desejo,

Por te vingares do meu.

De mi t'esqueces, Domingas,

Como eu faço do meu gado:

Praza a Deos, que se te vingas,

Que morra desesperado.

Na phantasia te pinto,

Fallo-te, responde o monte,

Busco o rio, busco a fonte,

Endoudeço, e não o sinto:

Domingas no valle brado,

Responde o eco Domingas;

E tu inda te não vingas

De me ver doudo tornado!

* * * * *

ALHEIO.

Se a alma ver-se não póde

Onde pensamentos ferem,

Que farei para me crerem?

_Voltas._

Se n'alma huma só ferida

Faz na vida mil sinais,

Tanto se descobre mais,

Quanto he mais escondida.

S'esta dor tão conhecida

Me não vem, porque não querem,

Que farei para ma crerem?

Se se pudesse bem ver

Quanto callo, e quanto sento,

Despois de tanto tormento

Cuidaria alegre ser.

Mas se não me querem crer

Olhos, que tão mal me ferem,

Que farei para me crerem?

* * * * *

ALHEIO.

Vosso bem querer, Senhora,

Vosso mal melhor me fôra.

_Voltas._

Ja agora certo conheço

Ser melhor todo tormento,

Onde o arrependimento

Se compra por justo preço.

Enganou-me hum bom comêço;

Mas o fim me diz agora

Que o mal melhor me fôra.

Quando hum bem he tão damnoso,

Que sendo bem, dá cuidado,

O damno fica obrigado

A ser menos perigoso.

Mas se a mi por desditoso,

Co'o bem me foi mal, Senhora,

Co'o vosso mal bem me fôra.

* * * * *

ALHEIO.

Se me desta terra for,

Eu vos levarei, amor.

_Voltas._

Se me for, e vos deixar,

(Ponho por caso, que possa)

Est'alma minha, qu'he vossa,

Comvosco m'ha de ficar.

Assi que só por levar

A minha alma, se me for,

Vos levarei, meu amor.

Que mal póde maltratar-me,

Que comvosco seja mal?

Ou que bem póde ser tal,

Que sem vós possa alegrar-me?

O mal não póde enojar-me,

O bem me será maior,

Se vos levar, meu amor.

* * * * *

ALHEIO.

Pequenos contentamentos,

Hi buscar quem contenteis,

Que a mi não me conheceis.

_Voltas._

Os gostos, que tantas dores

Fizerão ja valer menos,

Não os acceita pequenos,

Quem nunca teve maiores:

Bem parecem vãos favores,

Pois tão tarde me quereis,

Qu'inda me não conheceis.

Offereceis-me alegria,

Tendo-me ja cego e mouco:

He baixeza acceitar pouco,

Quem tanto vos merecia.

Ide-vos por outra via,

Pois o bem que me deveis,

Nunca mo satisfareis.

* * * * *

ALHEIO.

Perdigão perdeo a penna,

Não ha mal que lhe não venha.

_Voltas._

Perdigão, que o pensamento

Subio a hum alto lugar,

Perde a penna do voar,

Ganha a pena do tormento:

Não tee no ar, nem no vento,

Azas com que se sostenha:

Não ha mal que lhe não venha.

Quiz voar a huma alta torre,

Mas achou-se desasado;

E vendo-se despennado,

De puro penado morre.

Se a queixumes se soccorre,

Lança no fogo mais lenha:

Não ha mal que lhe não venha.

* * * * *

A HUMAS SENHORAS, QUE HAVIÃO SER TERCEIRAS PARA COM HUMA DAMA.

Pois a tantas perdições,

Senhoras, quereis dar vida,

Ditosa seja a ferida,

Que tee taes Cirurgiões!

Pois ventura

Me subio a tanta altura,

Que me sejais valedoras,

Ditosa seja a tristura,

Que se cura

Por vossos rogos, Senhoras!

Ser minha pena mortal,

Ja qu'entendeis, que he assi,

Não quero fallar por mi,

Que por mi falla meu mal.

Sois formosas,

Haveis de ser piedosas,

Por ser tudo d'huma côr;

Que pois Amor vos fez rosas

Milagrosas,

Fazei milagres de Amor.

Pedi a quem vós sabeis,

Que saiba de meu trabalho,

Não pelo qu'eu nisso valho,

Mas pelo que vós valeis.

Que o valer

De vosso alto merecer,

Com lho pedir de giolhos,

Fara qu'em meu padecer

Possa ver

O poder que tee seus olhos.

Vossa muita formosura

Com a sua tanto val,

Que me rio de meu mal,

Quando cuido em quem me cura.

A meus ais,

Peço-vos que lhe valhais,

Damas de Amor tão valídas,

Que nunca tal dor sintais,

Que queirais,

Onde não sejais queridas.

* * * * *

CANTIGA ALHEIA.

Na fonte está Leonor

Lavando a talha, e chorando,

Ás amigas perguntando:

Vistes lá o meu amor?

_Voltas._

Pôsto o pensamento nelle,

Porque a tudo o Amor a obriga,

Cantava, mas a cantiga

Erão suspiros por elle.

Nisto estava Leonor

O seu desejo enganando,

Ás amigas perguntando:

Vistes lá o meu amor?

O rosto sôbre hua mão,

Os olhos no chão pregados,

Que de chorar ja cansados,

Algum descanso lhe dão;

Desta sorte Leonor

Suspende de quando em quando

Sua dor; e em si tornando,

Mais pezada sente a dor.

Não deita dos olhos ágoa,

Que não quer que a dor s'abrande

Amor, porque em mágoa grande

Sécca as lagrimas a mágoa.

Despois que de seu amor

Soube novas perguntando,

D'improviso a vi chorando.

Olhae que extremos de dor!

* * * * *

ESTAS TROVAS MANDOU O AUTOR DA CADEIA, EM QUE O TINHA EMBARGADO POR HUMA

DIVIDA MIGUEL ROIZ, FIOS SECOS D'ALCUNHA, AO CONDE DO REDONDO D.

FRANCISCO COUTINHO, VISO-REI, QUE SE EMBARCAVA PARA FÓRA, PEDINDO-LHE O

FIZESSE DESEMBARGAR.

Que diabo ha tão damnado,

Que não tema a cutilada

Dos fios seccos da espada

Do fero Miguel armado?

Pois se tanto hum golpe seu

Sôa na infernal cadeia;

Do que o demonio arreceia

Como não fugirei eu?

Com razão lhe fugiria,

Se contr'elle, e contra tudo

Não tivesse hum forte escudo

Só em Vossa Senhoria.

Por tanto, Senhor, proveja,

Pois me tee ao remo atado,

Que antes que seja embarcado,

Eu desembargado seja.

* * * * *

ESTAS TROVAS MANDOU HEITOR DA SILVEIRA AO MESMO CONDE, INVERNANDO EM GOA.

Vossa Senhoria creia

Que não apura o engenho

Fome, se he como a que tenho,

Mas afraca e corta a veia.

E quem o contrário sente,

Está farto em toda a hora,

Como estou faminto agora:

Mas Martha, se está contente,

Dá-lhe pouco de quem chora.

E pois Vossa Senhoria

Em geral a tudo acode,

Acuda a mi, que só póde

Dar-me no engenho valia.

Esperte esta Musa minha,

Que o tempo traz somnolenta;

Valha-lhe nesta tormenta

Com essa doce mézinha,

Que só dá vida e contenta.

Acuda com provisão,

Não de papel, mas provída

D'ouro e prata; que esta vida

Não sustentão papéis, não.

De feitor a thesoureiro

Ser-me-hia trabalho grande;

Vossa Senhoria mande

Algum remedio, primeiro,

Com que a morte o ferro abrande.

_Ajuda de Luis de Camões._

Nos livros doutos se trata

Que o grande Achilles insano

Deo a morte a Heitor Troiano;

Mas agora a fome mata

O nosso Heitor Lusitano.

Só ella o póde acabar,

Se essa vossa condição

Liberal e singular

Não mete entr'elles bastão,

Bastante para o fartar.

* * * * *

A HUMA SENHORA, QUE LHE CHAMOU DIABO.

_Esparsa._

Não posso chegar ao cabo

De tamanho desarranjo,

Que sendo vós, Senhora, Anjo,

Vos queira tanto o Diabo.

Dais manifesto sinal

De minha muita firmeza,

Que os diabos querem mal

Aos Anjos por natureza.

* * * * *

CANTIGA.

Vi chorar huns claros olhos,

Quando delles me partia.

Oh que mágoa! Oh que alegria!

_Voltas._

Polo meu apartamento

Se arrazárão todos d'ágoa.

Quem cuidou qu'em tanta mágoa

Achasse contentamento?

Julgue todo entendimento

Qual mais sentir se devia,

Se esta dor, se esta alegria?

Quando mais perdido estive,

Então deo a est'alma minha

Na maior mágoa que tinha,

O maior gôsto que tive.

Assi, se minha alma vive,

Foi porque me defendia

Desta dor esta alegria?

O bem, que Amor me não deu

No tempo que desejei,

Quando delle me apartei,

Me confessou, qu'era meu.

Agora que farei eu,

Se a fortuna me desvia

De lograr esta alegria?

Não sei se foi enganado,

Pois me tinha defendido

Das íras de mal querido,

No mal de ser apartado.

Agora peno dobrado,

Achando no fim do dia

O princípio da alegria.

* * * * *

VILLANCETE PASTORIL.

Deos te salve, Vasco amigo.

Não me fallas? Como assi?

Bofé, Gil, não 'stava aqui.

_Voltas._

Pois onde te hão de fallar,

Se não 'stás onde appareces?

Se Magdanela conheces,

Nella me pódes achar.

E como te hão d'ir buscar

Aonde fogem de ti?

Pois nem eu estou em mi.

Porque te não acharei

Em ti, como em Magdanela?

Porque me fui perder nella

O dia que me ganhei.

Quem tão bem falla, não sei

Como anda fóra de si.

Ella falla dentro em mi.

Como estás aqui presente,

Se lá tens a alma e a vida?

Porqu'he d'hum'alma perdida

Apparecer sempre á gente.

Se es morto, bem se consente

Que todos fujão de ti.

Eu tambem fujo de mi.

* * * * *

OUTRO PASTORIL.

Porque no miras, Giraldo,

Mi zampoña como suena?

Porque no me mira Elena.

_Voltas._

Vuelve acá, no estês pasmado,

Mira que gentil sonar!

Como te podrá mirar

Quien no puede ser mirado?

Y que bueno enamorado!

No dirás, si es mala, o buena?

No, que me hizo mudo Elena.

Mira tan dulce armonía,

Déjate dessos enojos.

Tengo clavados los ojos

Con que mirar te podia.

Ansí Dios te dé alegría:

No vés cuan dulce que suena?

No, porque no veo Elena.

* * * * *

OUTRO PASTORIL.

Crescem, Camilla, os abrolhos

De chorares por Cincero:

Não he muito, que lhe quero,

Belisa, mais que meus olhos.

_Voltas._

Sempre os teus olhos estão,

Camilla, d'ágoas banhados.

De se verem desamados

Póde ser que chorarão.

Si, mas crescem os abrolhos,

E tu cegas por Cincero.

S'eu não vejo quem mais quero,

Para que quero mais olhos?

Se se foi ha mais d'hum mês,

Teus olhos não cansarão?

Não, que apos elle se vão

Estas lagrimas que vês.

Fazem logo estes abrolhos

O mato espinhoso e fero.

Pois eu não vejo a Cincero,

Isso só verão meus olhos.

Chorando queres morrer?

Mais quero viver chorando.

Tu não vês que vás cegando?

Se cego, como hei de ver?

Põe na vista outros antolhos.

Não posso, nem menos quero.

Outra para outro Cincero,

Antes não quero ter olhos.

* * * * *

A HUMA MULHER, QUE SE CHAMAVA GRACIA DE MORAES.

_Mote._

Olhos, em qu'estão mil flores,

E com tanta graça olhais,

Que parece que os Amores

Morão onde vós morais.

_Volta._

Vem-se rosas e boninas,

Olhos, nesse vosso ver;

Vem-se mil almas arder

No fogo dessas meninas.

E di-lo-hão minhas dores,

Meus suspiros e meus ais;

E dirão mais, que os amores

Morão onde vós morais.

* * * * *

MOTE.

Quem se confia em huns olhos,

Nas meninas delles vê

Que meninas não tee fé.

_Voltas._

Quem põe suas confianças

Em meninas sem assento,

Offereça o soffrimento

A duzentas mil mudanças.

Mostrão no ar esperanças;

Mas em seus olhos se vê

Como não tee n'alma fé.

Enganão ao parecer,

Porque no caso d'amar,

São mulheres no matar,

E meninas no querer.

Quem em seus olhos se crer,

Cem mil graças nelles vê;

Vê-las sim, mas não ter fé.

Amostrão-vos n'hum momento

Favores assi a mólhos;

Mas na mudança dos olhos

Se lhe muda o pensamento.

Em nada ja tee assento,

E o que mais nelles se vê

He formosura sem fé.

* * * * *

LOUVANDO E DESLOUVANDO UMA DAMA.

_Cantiga Velha._

Sois formosa, e tudo tendes,

Senão que tendes os olhos verdes,

_Voltas._

Ninguem vos póde tirar

Serdes tão bem assombrada;

Mas heis-me de perdoar,

Que os olhos não valem nada.

Fostes mal aconselhada

Em querer que fossem verdes:

Trabalhae de os esconderdes.

A vossa testa he jardim,

Onde Amor se desenfada;

He tão branca e bem talhada,

Que parece de marfim.

Assi he; e quanto a mim,

Isso vos nasce de a terdes

Tão perto dos olhos verdes.

Os cabellos desatados

O mesmo sol escurecem;

Senão que por ser ondados,

Algum tanto desmerecem:

Mas á fé, que se parecem

A furto dos olhos verdes,

Não vos peze, não, de os terdes.

As pestanas tee mostrado

Ser raios, que abrazão vidas:

Se não forão tão compridas,

Tudo o mais era pintado:

Ellas me tinhão levado

A alma, sem o vós saberdes,

Se não forão os olhos verdes.

O mimo desse carão

Nem pôr-lhe os olhos consente:

O ser liso e transparente

Rouba todo o coração:

Inda assi achareis nação,

Que lhe não peze de os verdes;

Mas não seja co'os olhos verdes.

Esse riso, que he compôsto

De quantas graças nascêrão,

Senão que alguns me disserão,

Vos faz covinhas no rôsto.

Na vontade tenho posto

Dar-vos a alma, se quizerdes,

A trôco dos olhos verdes.

Nunca se vio, nem se escreve

Boca co'huma graça igual,

Se não fôra de coral,

E os dentes de côr de neve.

Dou-me eu a Deos, que me leve!

Soffrerei quanto tiverdes,

Não me tenhais olhos verdes.

Essa garganta merece

Outras palavras não minhas,

Senão qu'he feita em rosquinhas

D'alfenim, ao que parece.

Eu sei bem quem se offerece

A tomar tudo o que tendes,

E tambem os olhos verdes.

Essas mãos são ferropeas:

Só o vê-las enfeitiça;

Senão que são alvas, cheias,

E tee a feição roliça;

Com que appellais por justiça,

Para com ellas prenderdes

Quem vê vossos olhos verdes.

A vossa galantaria

Matará a quem fallardes:

Tendes huns desdens e tardes,

Que eu logo vos roubaria.

Oh dou-me a Santa Maria!

Sou cujo de quanto tendes,

E tambem desses olhos verdes.

* * * * *

AO MESMO.

Tudo tendes singular,

Com que os corações rendeis,

Senão que rindo, fazeis

Covinhas para enterrar:

E para resuscitar

Tee força a graça que tendes;

Senão que tendes os olhos verdes.

Tudo, Senhora, alcançais,

Quanto o ser formosa alcança,

Senão que dais esperança

Co'os olhos com que matais.

Se acaso os alevantais,

He para as almas renderdes;

Senão que tendes os olhos verdes.

* * * * *

A DOM ANTONIO, SENHOR DE CASCAES, QUE TENDO-LHE PROMETTIDO SEIS

GALLINHAS RECHEADAS POR HUMA COPLA QUE LHE FIZERA, LHE MANDOU POR

PRINCÍPIO DA PAGA MEIA GALLINHA RECHEADA.

Cinco gallinhas e meia

Deve o Senhor de Cascais;

E a meia vinha cheia

De appetite para as mais.

* * * * *

MOTE.

Catharina bem promette;

Ora má! como ella mente!

_Voltas._

Catharina he mais formosa

Para mi, que a luz do dia;

Mas mais formosa sería,

Se não fosse mentirosa.

Hoje a vejo piedosa,

Á manhãa tão differente,

Que sempre cuido que mente.

Prometteo-me hontem de vir,

Nunca mais appareceo;

Creio que não prometteo,

Senão só por me mentir.

Faz-me, emfim, chorar e rir;

Rio, quando me promette,

Mas chóro quando me mente.

Jurou-me aquella cadella

De vir, pela alma que tinha;

Enganou-me; tinha a minha;

Deo-lhe pouco de perdella.

A vida gasto apos ella,

Porque ma dá, se promette,

Mas tira-ma, quando mente.

Má, mentirosa, malvada,

Dizei, porque me mentis?

Prometteis, e então fugis?

Pois sem tornar, tudo he nada.

Não sois bem aconselhada;

Que quem promette, se mente,

O que perde não o sente.

Tudo vos consentiria

Quanto quizesseis fazer,

Se este vosso prometter

Fosse por me ter hum dia.

Todo então me desfaria

Com gôsto; e vós de contente,

Zombarieis de quem mente.

Mas pois folgais de mentir,

Promettendo de me ver,

Eu vos deixo o prometter,

Deixae-me vós o servir:

Haveis então de sentir

Quanto a minha vida sente

O servir a quem lhe mente.

Catharina me mentio

Muitas vezes, sem ter lei,

E todas lhe perdoei

Por huma só que cumprio.

Se como me consentio

Fallar-lhe, o mais me consente,

Nunca mais direi que mente.

* * * * *

MOTE.

A alma, qu'está offrecida

A tudo, nada lhe he forte;

Assi passa o bem da vida,

Como passa o mal da morte.

_Volta._

De maneira me succede

O que temo, e o que desejo,

Que sempre o que temo, vejo,

Nunca o que a vontade pede.

Tenho tão offerecida

Alma e vida a toda a sorte,

Que isso me dera da morte,

Como ja me dá da vida.

* * * * *

MOTE.

Ferro, fogo, frio e calma,

Todo o mundo acabarão;

Mas nunca vos tirarão,

Alma minha, da minha alma.

_Volta._

Não vos guardei, quando vinha,

Em tôrre, fôrça, ou engenho;

Que mais guardada vos tenho

Em vós, que sois alma minha.

Alli nem frio, nem calma,

Não podem ter jurdição;

Na vida sim, porém não

Em vós que tenho por alma.

* * * * *

MOTE.

Esperei, ja não espero

De mais vos servir, Senhora;

Pois me fazeis cada hora

Tanto mal, que desespéro.

_Volta._

Pois sei certo que folgais,

Quando mais mal me fazeis,

E que nunca descansais,

Senão quando me mostrais

Quão pouco bem me quereis;

Servir-vos mais não espero

Pois meu viver empeora

Com me fazerdes, Senhora,

Tanto mal, que desespéro.

* * * * *

MOTE.

Descalça vai para a fonte

Leonor pela verdura;

Vai formosa, e não segura.

_Voltas._

Leva na cabeça o pote,

O testo nas mãos de prata,

Cinta de fina escarlata,

Sainho de chamalote:

Traz a vasquinha de cote,

Mais branca que a neve pura;

Vai formosa, e não segura.

Descobre a touca a garganta,

Cabellos de ouro entrançado,

Fita de côr d'encarnado,

Tão linda que o mundo espanta:

Chove nella graça tanta,

Que dá graça á formosura;

Vai formosa, e não segura.

* * * * *

MOTE.

Quem disser que a barca pende,

Dir-lhe-hei, mana, que mente.

_Voltas._

Se vos quereis embarcar,

E para isso estais no caes,

Entrae logo: que tardaes?

Olhae qu'está preamar:

E se outrem, por vos fretar,

Vos disser qu'esta que pende,

Dir-lhe-hei, mana, que mente.

Esta barca he de carreira;

Tee seus apparelhos novos:

Não ha como ella outra em Povos

Boa de leme, e veleira:

Mas, se por ser a primeira,

Vos disser alguem que pende,

Dir-lhe-hei, mana, que mente.

* * * * *

MOTE.

Com razão queixar-me posso

De vós, que mal vos queixais;

Pois, Senhora, vos sangrais,

Que seja n'hum corpo vosso.

_Voltas._

Eu para levar a palma,

Com que ser vosso mereça,

Quero que o corpo padeça

Por vós, que delle sois alma.

Vós do corpo vos queixais,

Eu queixar-me de vós posso,

Porque, tendo hum corpo vosso,

Na minha alma vos sangrais.

E sem fazer differença

No que de mi possuis,

Pelo pouco que sentis,

Dais á minh'alma doença.

Porque dous aventurais?

Oh não seja o damno nosso!

Sangre-se este corpo vosso,

Porque, minha alma, vivais.

E inda, se attentardes bem,

Seguis medicina errada,

Porque para ser sangrada

Hum'alma sangue não tem.

E pois em mi sarar posso

Males, que á minha alma dais,

Se inda outra vez vos sangrais,

Seja neste corpo vosso.

* * * * *

MOTE.

Ojos, herido me habeis,

Acabad ya de matarme;

Mas muerto volved á mirarme,

Porque me resusciteis.

_Voltas._

Pues me distes tal herida,

Con gana de darme muerte,

El morir me es dulce suerte,

Pues con morir me dais vida.

Ojos, qué os deteneis?

Acabad ya de matarme;

Mas muerto volved á mirarme,

Porque me resusciteis.

La llaga cierto ya es mia,

Aunque, ojos, vós no querrais;

Mas si la muerte me dais,

El morir me es alegría.

Y así digo que acabeis,

O ojos, ya de matarme;

Mas muerto volved á mirarme,

Porque me resusciteis.

* * * * *

A DONA FRANCISCA DE ARAGÃO, QUE LHE MANDOU GLOSAR ESTE VERSO:

Mas porém a que cuidados?

Tanto maiores tormentos

Forão sempre os que soffri,

Daquillo que cabe em mi,

Que não sei que pensamentos

São os para que nasci.

Quando vejo este meu peito

A perigos arriscados

Inclinado, bem suspeito

Que a cuidados sou sujeito,

_Mas porém a que cuidados?_

_Ao mesmo._

Que vindes em mi buscar,

Cuidados, que sou captivo?

Eu não tenho que vos dar:

Se vindes a me matar,

Ja ha muito que não vivo:

Se vindes, porque me dais

Tormentos desesperados,

Eu, que sempre soffri mais,

Não digo que não venhais;

_Mas porém a que cuidados?_

_Ao mesmo._

Se as penas que Amor me deu,

Vem por tão suaves meios,

Não ha que temer receios;

Que val hum cuidado meu

Por mil descansos alheios.

Ter n'huns olhos tão formosos

Os sentidos enlevados,

Bem sei qu'em baixos estados

São cuidados perigosos;

_Mas porém a que cuidados?..._

_Carta com a glosa acima._

Deixei-me enterrar no esquecimento de v. m. crendo me sería assi mais

seguro: mas agora que he servida de me tornar a resuscitar, por me

mostrar seus poderes, lembro-lhe que huma vida trabalhosa he menos de

agradecer, que huma morte descansada. Mas se esta vida, que agora de

novo me dá, for para ma tornar a tomar, servindo-se della, não me fica

mais que desejar, que poder acertar com este mote de v. m., ao qual dei

tres entendimentos, segundo as palavras delle pudérão soffrer: se forem

bons, he mote de v. m.: se maos, são as glosas minhas.

* * * * *

MOTE ALHEIO.

Campos bem-aventurados,

Tornae-vos agora tristes;

Que os dias, em que me vistes,

Alegres ja são passados.

_Glosa._

Campos cheios de prazer,

Vós qu'estais reverdecendo,

Ja m'alegrei com vos ver;

Agora venho a temer

Qu'entristeçais em me vendo.

E pois a vista alegrais

Dos olhos desesperados,

Não quero que me vejais,

Para que sempre sejais,

_Campos, bem-aventurados._

Porém se por accidente

Vos pezar de meu tormento,

Sabereis que Amor consente

Que tudo me descontente,

Senão descontentamento.

Por isso vós, arvoredos,

Que ja nos meus olhos vistes

Mais alegria, que medos,

Se mos quereis fazer ledos,

_Tornae-vos agora tristes._

Ja me vistes ledo ser,

Mas despois que o falso Amor

Tão triste me fez viver,

Ledos folgo de vos ver,

Porque me dobreis a dor.

E se este gôsto sobejo

De minha dor me sentistes,

Julgae quanto mais desejo

As horas que vos não vejo,

_Que os dias em que me vistes._

O tempo, qu'he desigual,

De seccos, verdes vos tem;

Porqu'em vosso natural

Se muda o mal para o bem,

Mas o meu para mor mal.

Se perguntais, verdes prados,

Pelos tempos differentes

Que de Amor me forão dados,

Tristes, aqui são presentes,

_Alegres, ja são passados._

* * * * *

MOTE ALHEIO.

Trabalhos descansarião

Se para vós trabalhasse;

Tempos tristes passarião,

Se algum'hora vos lembrasse.

_Glosa._

Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III · 第 2 / 16 段