Todos os grandes homens como todos os sanctos têm a sua estrophe na
epopea legendaria do povo.
Affonso Henriques, Mestre d'Aviz, Nuno Alvares Pereira, João das Regras,
Vasco da Gama, D. João de Castro, Affonso de Albuquerque, Camões, João
Pinto Ribeiro, frei Bartholomeu dos Martyres, frei Caetano Brandão e mil
outros, perpetuos na historia, são creações ideaes na immortalidade da
legenda.
O Marquez de Pombal, tendo sido na realidade tudo o que dissemos, é no
bom senso dos povos um ente legendario. É um typo ideal, que não se
apaga, que jámais se apagará na consciencia e na imaginação do nosso
povo, como o serão no futuro e em parte já o estão sendo Gomes Freire,
Fernandes Thomaz, Borges Carneiro, Ferreira Borges, Mousinho da
Silveira, Agostinho José Freire, Passos Manuel, Alexandre Herculano...
são sempre estes os homens que o povo escolhe para cantar na sua lyra de
oiro, para perpetuar-lhes a memoria na sua rude mas espontanea e sincera
poesia.
Todos os grandes homens começam por ser utopistas; a sua vida é uma
lucta sem treguas. Numa das mãos o camartello destruidor do passado que
resiste, na outra o facho civilisador das ideias alumiando o caminho do
futuro que a sua razão descobre.
Para premio as mais das vezes o martyrio, para recompensa o esquecimento
ou a injustiça na historia.
Mas, para salval-os d'esse esquecimento ou reparar essa injustiça lá
está o bom senso, o espirito recto, a alma poetica, o coração agradecido
dos povos, a legenda, esse--_relatus inter divos_, com que elle
significa e apregôa a immortalidade e faz a apotheose dos seus heroes.
A estatua de D. José I póde tombal-a a mão soberana do povo ou
polverisal-a a lima edaz do tempo, que assim gasta o granito como o
bronze e tudo consome.
A _realesa_, depois de haver durante seculos contrariado os progressos
da civilisação pela liberdade, pode ser ámanhã um facto _utopico_, sem
valor na consciencia da humanidade, sem deixar saudades nem merecer
bençãos; mas o homem grande pela grandeza do genio, pelo acerto e
inergia de acção, o homem, que illustrando a patria beneficiou o povo, é
vulto que se ergue magestoso ante os olhos de todas as gerações que
passam e em todos os seculos que vôam; tem a immortalidade no sentimento
intimo das massas, na consciencia do povo; em cada coração um altar
de saudades, em cada cabeça um monumento de gloria, em cada bôcca uma
trombeta a apregoar-lhe as virtudes... e todas as mãos se erguem para o
abençoar e applaudir.
Que a realidade historica do grande Sebastião José de Carvalho e Mello
corresponde á poesia da legenda provam-o muitos documentos, cuja
authenticidade não póde ser contestada: foi por isso que nos dispensámos
de os apontar, ou transcrever.
Muito alem poderiamos avançar nesta apreciação historica, fragmento d'um
livro inedito, em que o assumpto occorreu incidentemente: julgámos
bastante este simples esboço critico, ligeiros traços, a que outros mais
competentes darão luz e colorido.