XXXI

Todos os grandes homens como todos os sanctos têm a sua estrophe na

epopea legendaria do povo.

Affonso Henriques, Mestre d'Aviz, Nuno Alvares Pereira, João das Regras,

Vasco da Gama, D. João de Castro, Affonso de Albuquerque, Camões, João

Pinto Ribeiro, frei Bartholomeu dos Martyres, frei Caetano Brandão e mil

outros, perpetuos na historia, são creações ideaes na immortalidade da

legenda.

O Marquez de Pombal, tendo sido na realidade tudo o que dissemos, é no

bom senso dos povos um ente legendario. É um typo ideal, que não se

apaga, que jámais se apagará na consciencia e na imaginação do nosso

povo, como o serão no futuro e em parte já o estão sendo Gomes Freire,

Fernandes Thomaz, Borges Carneiro, Ferreira Borges, Mousinho da

Silveira, Agostinho José Freire, Passos Manuel, Alexandre Herculano...

são sempre estes os homens que o povo escolhe para cantar na sua lyra de

oiro, para perpetuar-lhes a memoria na sua rude mas espontanea e sincera

poesia.

Todos os grandes homens começam por ser utopistas; a sua vida é uma

lucta sem treguas. Numa das mãos o camartello destruidor do passado que

resiste, na outra o facho civilisador das ideias alumiando o caminho do

futuro que a sua razão descobre.

Para premio as mais das vezes o martyrio, para recompensa o esquecimento

ou a injustiça na historia.

Mas, para salval-os d'esse esquecimento ou reparar essa injustiça lá

está o bom senso, o espirito recto, a alma poetica, o coração agradecido

dos povos, a legenda, esse--_relatus inter divos_, com que elle

significa e apregôa a immortalidade e faz a apotheose dos seus heroes.

A estatua de D. José I póde tombal-a a mão soberana do povo ou

polverisal-a a lima edaz do tempo, que assim gasta o granito como o

bronze e tudo consome.

A _realesa_, depois de haver durante seculos contrariado os progressos

da civilisação pela liberdade, pode ser ámanhã um facto _utopico_, sem

valor na consciencia da humanidade, sem deixar saudades nem merecer

bençãos; mas o homem grande pela grandeza do genio, pelo acerto e

inergia de acção, o homem, que illustrando a patria beneficiou o povo, é

vulto que se ergue magestoso ante os olhos de todas as gerações que

passam e em todos os seculos que vôam; tem a immortalidade no sentimento

intimo das massas, na consciencia do povo; em cada coração um altar

de saudades, em cada cabeça um monumento de gloria, em cada bôcca uma

trombeta a apregoar-lhe as virtudes... e todas as mãos se erguem para o

abençoar e applaudir.

Que a realidade historica do grande Sebastião José de Carvalho e Mello

corresponde á poesia da legenda provam-o muitos documentos, cuja

authenticidade não póde ser contestada: foi por isso que nos dispensámos

de os apontar, ou transcrever.

Muito alem poderiamos avançar nesta apreciação historica, fragmento d'um

livro inedito, em que o assumpto occorreu incidentemente: julgámos

bastante este simples esboço critico, ligeiros traços, a que outros mais

competentes darão luz e colorido.

O Marquez de Pombal Lance d'olhos sobre a sua sciencia; politica e systema de administração; ideias liberaes que o dominavam; plano e primeiras tentativas democraticas · 第 39 / 41 题