II

Pela volta das onze horas da noite os dois mascaras foram introduzidos

na sala do baile. Era mais vivo o estridor das walsas; as côres

deslumbrantes, as pedrarias, os reflexos da luz, a confusão e o delirio,

os pares enlaçados n'um volteio frenetico, tornavam communicativa,

convulsa tamanha alegria. Entraram desapercebidos, sob dominós singelos.

Debaixo de uma mascara de setim ninguem sabia que andava escondido um

grande desgosto; a mascara servia mais para não deixar ver aos

outros aquella tristeza funda que não era para ali. Ia pelos salões

olhando, seguindo, como quem caminha nas trevas. Cada vulto que passava,

gracejando, rindo distraído, parecia-lhe uma larva errante n'um páramo

deserto. Tanta mulher bella, tantas palavras de amor, vibradas tremendo,

e nem uma sombra leve de verdade. Como os homens se alegram quando sabem

que estão entre si a mentir!

N'essa noite a condessa estava arrebatadora de encanto; acabara de tirar

a mascara n'esse instante, e o calor que lhe afogueava a face dava-lhe

uma côr lasciva, de endoudecer; o cansaço, os labios entre abertos, que

estavam como a pedir beijos, tornavam-na languida, voluptuosa como a

huri mais ideal dos sonhos do propheta. Caiam-lhe algumas tranças

desprendidas no fragor da dança, sobre os hombros alabastrinos, como

n'uma travessura, como os cabellos de uma odalisca que se alevanta do

banho embalsamado e tépido. Uma das rosas da sua grinalda caiu

casualmente no chão. O olhar mais ardente e expressivo de uma mulher,

não podia ser tão fatal como a queda d'aquella rosa. A mascara de setim

aproximou-se mysteriosamente e ergueu-a do chão. A condessa seguiu-a

vagarosamente com a vista, e esperava que a flor lhe fosse restituida. O

mascara escondeu-a em si, e confundiu-se nos grupos que se cruzavam.

Ninguem deu por isto. Depois a orchestra rompeu com as notas estridentes

e repentinas de uma contradança.

--Digna-se V. Ex.ª dar-me a honra de ser meu par?--disse o mascara de

setim aproximando-se levemente da condessa.

--Com tanto que diga para que escondeu a rosa?

--Se escondi a flôr, temia que a calcassem aos pés. Custava-me tanto vêr

esmagada a imagem mais triste de minha alma.--Apenas proferidas estas

palavras com a voz abafada e tremula, a condessa ergueu-se de subito,

hesitando se deveria ouvir uma confidencia que a compromettia; o mascara

de setim deu-lhe o braço e foi collocar-se ao fundo da sala diante do

seu vis-a-vis, triumphando d'aquella irresolução.

--E o que pretende fazer d'essa flôr?

--Guardal-a.

--A sua determinação leva-me a perguntar quem lhe deu direito para tanto?

--Não devo dizel-o.

--Ordeno!

--Não é justo satisfazer todas as indiscrições, principalmente quando...

--Complete a phrase.

--A ingenuidade de criança...

--Diga tudo.

--É irresponsavel pelo passado.

--Não comprehendo!--Retorquiu a condessa fitando a mascara, procurando

em vão surprehender debaixo d'ella quem seria capaz de fallar assim. Um

mixto de terror e de curiosidade embaraçava-a, não sabia o que devia

fazer. Depois de alguns instantes de silencio, disse quasi em

lagrimas:--Tenho medo de si! Oh dê-me essa flôr.

--Nunca!

--Exijo!--tornou a condessa com a voz sumida, sentindo-se dominada pela

fascinação do desconhecido.

--Aqui está a rosa,--disse o mascara tirando do seio a flôr quasi

murcha.--É impossivel entregal-a. Eu posso exigir mais em paga d'ella.

Posso exigir tudo! É uma promessa inviolavel como o juramento. Um dia a

mulher que eu amava, no extremo de sua vertigem e loucura por mim,

prometteu ir até onde eu estivesse, e ahi entregar-se-me, se soubesse

que eu tinha a vida contada por instantes, e havia de saír d'este mundo

sem abraçal-a ao menos uma só vez como minha. Os desgostos têm-me

devorado lentamente a existencia; presinto a cada instante em mim a

frieza do sepulchro, e não soube ainda erguer a voz e reclamar a

promessa fatal. Nem eu a quero! Bastou-me ouvil-a para antecipar no

mundo todas as venturas do empyreo. Deseja a rosa ainda?

--O senhor dilacera-me!--volveu a condessa com a voz dorida, e com uma

delicadeza inexcedivel.

--Se a flôr que deixou cair está cheia de espinhos! Não me atrevo a

entregal-a. Dou pela rosa a unica idéa que me podia fazer persuadir que

ainda vivo! É uma troca generosa! Acceita? Um dia a mulher que eu amava,

conheceu a desegualdade da nossa posição, disse-me, de um modo que

só ella saberia dizer sem macular a ingenuidade de sua candura:--«Se me

violentarem a casar com outro, tens direito a reclamar quando quizeres o

meu amor!» Seria uma infamia vir lembrar-lhe uma palavra proferida no

momento mais exaltado da paixão, para perdel-a por um capricho. Não vale

essa promessa. Agora ainda quer a flôr?

--Oh, não! não!--accudiu a condessa represando as lagrimas que lhe

inundavam os olhos scintillantes.--Eu não sei o que quero agora! Ninguem

podia fallar-me assim a não ser... Fale-me, eu estou conhecendo esta

voz! É impossivel que não seja! Não sabe como é horrivel esta incerteza.

Não o julgo capaz de atraiçoar-me! Erga uma ponta da mascara, deixe-me

vêl-o, a mim só, e fico descansada.

--Eu não podia atraiçoal-a, nem mentir-lhe. Sou quem imagina; vim para

vêl-a pela ultima vez, porque me sinto acabar; estão contados os dias da

minha vida; passo com as folhas d'este inverno. Bem o conheço, e

resigno-me. Não pensei que o primeiro amor que se tem na vida poderia

ser tão funesto.

--Oh, não falle assim, que me mata! Eu tenho remorsos de não ter luctado

mais tempo; não tive culpa; minha familia quiz a minha infelicidade. Eu

amo-o porque não sabe accusar-me. Quero vêl-o! já que não é possivel

mais. Tire por um instante a mascara. É o que ouso pedir-lhe.

--Eu tenho medo de arrancar a mascara; está pregada com o suor frio que

me escorre da fronte. Para que me quer vêr? Estou tão demudado! Não sou

o mesmo. Deve ter horror de mim; estou quasi esqueleto.

--Por um instante só! quero vêl-o, afaste um pouco a mascara.--N'este

instante a condessa voltou a face de aterrada. Contemplou de relance os

estragos que uma dôr lenta fizera sobre as faces tão animadas que

primeiro reflectiam os seus primeiros rubores. Fez um esforço inaudito

para suster-se; a mascara de setim deu-lhe novamente o braço e foi

sental-a no mesmo logar onde tinha caído a rosa da grinalda; depois

segredou-lhe umas palavras de abnegação e bondade:

--Esta rosa é a primeira que hade reflorir sobre o meu sepulchro.--E

saiu; a noite ia remota; os alvores da madrugada luctavam com as luzes

baças das salas, o acordar da natureza com o ruido vertiginoso da festa;

o tedio e o cansaço traziam a desanimação, como acaba sempre o baile

mais esplendido.

Contos Phantasticos segunda edição correcta e ampliada · 第 35 / 48 题