Pela volta das onze horas da noite os dois mascaras foram introduzidos
na sala do baile. Era mais vivo o estridor das walsas; as côres
deslumbrantes, as pedrarias, os reflexos da luz, a confusão e o delirio,
os pares enlaçados n'um volteio frenetico, tornavam communicativa,
convulsa tamanha alegria. Entraram desapercebidos, sob dominós singelos.
Debaixo de uma mascara de setim ninguem sabia que andava escondido um
grande desgosto; a mascara servia mais para não deixar ver aos
outros aquella tristeza funda que não era para ali. Ia pelos salões
olhando, seguindo, como quem caminha nas trevas. Cada vulto que passava,
gracejando, rindo distraído, parecia-lhe uma larva errante n'um páramo
deserto. Tanta mulher bella, tantas palavras de amor, vibradas tremendo,
e nem uma sombra leve de verdade. Como os homens se alegram quando sabem
que estão entre si a mentir!
N'essa noite a condessa estava arrebatadora de encanto; acabara de tirar
a mascara n'esse instante, e o calor que lhe afogueava a face dava-lhe
uma côr lasciva, de endoudecer; o cansaço, os labios entre abertos, que
estavam como a pedir beijos, tornavam-na languida, voluptuosa como a
huri mais ideal dos sonhos do propheta. Caiam-lhe algumas tranças
desprendidas no fragor da dança, sobre os hombros alabastrinos, como
n'uma travessura, como os cabellos de uma odalisca que se alevanta do
banho embalsamado e tépido. Uma das rosas da sua grinalda caiu
casualmente no chão. O olhar mais ardente e expressivo de uma mulher,
não podia ser tão fatal como a queda d'aquella rosa. A mascara de setim
aproximou-se mysteriosamente e ergueu-a do chão. A condessa seguiu-a
vagarosamente com a vista, e esperava que a flor lhe fosse restituida. O
mascara escondeu-a em si, e confundiu-se nos grupos que se cruzavam.
Ninguem deu por isto. Depois a orchestra rompeu com as notas estridentes
e repentinas de uma contradança.
--Digna-se V. Ex.ª dar-me a honra de ser meu par?--disse o mascara de
setim aproximando-se levemente da condessa.
--Com tanto que diga para que escondeu a rosa?
--Se escondi a flôr, temia que a calcassem aos pés. Custava-me tanto vêr
esmagada a imagem mais triste de minha alma.--Apenas proferidas estas
palavras com a voz abafada e tremula, a condessa ergueu-se de subito,
hesitando se deveria ouvir uma confidencia que a compromettia; o mascara
de setim deu-lhe o braço e foi collocar-se ao fundo da sala diante do
seu vis-a-vis, triumphando d'aquella irresolução.
--E o que pretende fazer d'essa flôr?
--Guardal-a.
--A sua determinação leva-me a perguntar quem lhe deu direito para tanto?
--Não devo dizel-o.
--Ordeno!
--Não é justo satisfazer todas as indiscrições, principalmente quando...
--Complete a phrase.
--A ingenuidade de criança...
--Diga tudo.
--É irresponsavel pelo passado.
--Não comprehendo!--Retorquiu a condessa fitando a mascara, procurando
em vão surprehender debaixo d'ella quem seria capaz de fallar assim. Um
mixto de terror e de curiosidade embaraçava-a, não sabia o que devia
fazer. Depois de alguns instantes de silencio, disse quasi em
lagrimas:--Tenho medo de si! Oh dê-me essa flôr.
--Nunca!
--Exijo!--tornou a condessa com a voz sumida, sentindo-se dominada pela
fascinação do desconhecido.
--Aqui está a rosa,--disse o mascara tirando do seio a flôr quasi
murcha.--É impossivel entregal-a. Eu posso exigir mais em paga d'ella.
Posso exigir tudo! É uma promessa inviolavel como o juramento. Um dia a
mulher que eu amava, no extremo de sua vertigem e loucura por mim,
prometteu ir até onde eu estivesse, e ahi entregar-se-me, se soubesse
que eu tinha a vida contada por instantes, e havia de saír d'este mundo
sem abraçal-a ao menos uma só vez como minha. Os desgostos têm-me
devorado lentamente a existencia; presinto a cada instante em mim a
frieza do sepulchro, e não soube ainda erguer a voz e reclamar a
promessa fatal. Nem eu a quero! Bastou-me ouvil-a para antecipar no
mundo todas as venturas do empyreo. Deseja a rosa ainda?
--O senhor dilacera-me!--volveu a condessa com a voz dorida, e com uma
delicadeza inexcedivel.
--Se a flôr que deixou cair está cheia de espinhos! Não me atrevo a
entregal-a. Dou pela rosa a unica idéa que me podia fazer persuadir que
ainda vivo! É uma troca generosa! Acceita? Um dia a mulher que eu amava,
conheceu a desegualdade da nossa posição, disse-me, de um modo que
só ella saberia dizer sem macular a ingenuidade de sua candura:--«Se me
violentarem a casar com outro, tens direito a reclamar quando quizeres o
meu amor!» Seria uma infamia vir lembrar-lhe uma palavra proferida no
momento mais exaltado da paixão, para perdel-a por um capricho. Não vale
essa promessa. Agora ainda quer a flôr?
--Oh, não! não!--accudiu a condessa represando as lagrimas que lhe
inundavam os olhos scintillantes.--Eu não sei o que quero agora! Ninguem
podia fallar-me assim a não ser... Fale-me, eu estou conhecendo esta
voz! É impossivel que não seja! Não sabe como é horrivel esta incerteza.
Não o julgo capaz de atraiçoar-me! Erga uma ponta da mascara, deixe-me
vêl-o, a mim só, e fico descansada.
--Eu não podia atraiçoal-a, nem mentir-lhe. Sou quem imagina; vim para
vêl-a pela ultima vez, porque me sinto acabar; estão contados os dias da
minha vida; passo com as folhas d'este inverno. Bem o conheço, e
resigno-me. Não pensei que o primeiro amor que se tem na vida poderia
ser tão funesto.
--Oh, não falle assim, que me mata! Eu tenho remorsos de não ter luctado
mais tempo; não tive culpa; minha familia quiz a minha infelicidade. Eu
amo-o porque não sabe accusar-me. Quero vêl-o! já que não é possivel
mais. Tire por um instante a mascara. É o que ouso pedir-lhe.
--Eu tenho medo de arrancar a mascara; está pregada com o suor frio que
me escorre da fronte. Para que me quer vêr? Estou tão demudado! Não sou
o mesmo. Deve ter horror de mim; estou quasi esqueleto.
--Por um instante só! quero vêl-o, afaste um pouco a mascara.--N'este
instante a condessa voltou a face de aterrada. Contemplou de relance os
estragos que uma dôr lenta fizera sobre as faces tão animadas que
primeiro reflectiam os seus primeiros rubores. Fez um esforço inaudito
para suster-se; a mascara de setim deu-lhe novamente o braço e foi
sental-a no mesmo logar onde tinha caído a rosa da grinalda; depois
segredou-lhe umas palavras de abnegação e bondade:
--Esta rosa é a primeira que hade reflorir sobre o meu sepulchro.--E
saiu; a noite ia remota; os alvores da madrugada luctavam com as luzes
baças das salas, o acordar da natureza com o ruido vertiginoso da festa;
o tedio e o cansaço traziam a desanimação, como acaba sempre o baile
mais esplendido.