Ás vezes o teu semblante, onde se póde lêr um enigma que se não
destrinça, tem a lividez de cera, e a claridade que parece conter em si
o jaspe. Então julgo vêr-te uma santa, sob o aspecto de penitente que
acha em cada successo da vida uma tentação occulta nas apparencias mais
risonhas, no folguedo mais descuidado e innocente, do mesmo modo que
o áspide se esconde no alegrete das mais perfumadas flôres ou o somno
lethal na sombra da mancinella verdejante e copada, aberta ao sol, como
uma escrava sustentando a umbella com que abriga do rigor das calmas a
voluptuosa odalisca.
Os vinte annos são a alegria, a innocencia, a expansão; ainda não
viveste bastante para provar o travo amargo da vida, não sabes conhecer
a tormenta que ha de vir pela nuvem que negreja, nem a bonança pelo
santelmo, nem os parceis pelo refluxo da vaga marulhosa, nem o porto
pelo perfume embalsamado da terra. Tu passas na vida como um meteoro
fulgurante que não procura aonde irá caír, como uma creatura somnambula
que não vacilla, não hesita diante do abysmo que transpõe, nem deixa
possuir-se da attracção irresistivel porque a desconhece. A vida é assim
para ti; passas despreoccupada do mundo, levada na ondulação saudosa
d'essas vozes interiores que te segredam mysterios indefiniveis que
fazem sentir o desejo de voar para o alto, até perder-se no azul.
Os teus cabellos, quando os deixas cair destrançados sobre os hombros de
marfim, agitados pela brisa vespertina que vem confidenciar comtigo á
janella, que olha para o occidente, esses cabellos louros, extensos, são
como as cordas de uma harpa, em que as imagens incoerciveis de teus
pensamentos vêm fallar do céo, do amor, no frémito ligeiro, quasi
imperceptivel das vibrações que só tu comprehendes.
Consternada e muda como uma estatua, a Niobe grega, o teu silencio
incute uma sublimidade prophetica; parece guardar a impressão do sêlo
mais tremendo do Apocalypse,--a missão da mulher forte.