I
Sempre o mesmo olhar doloroso! uma constante expressão de magoa, esse
abandono, que é o tedio da vida! Porque é que na flôr dos annos, quando
a existencia se purpurêa com todas as graças que se entrevêem apenas em
sonho e se veste das alegrias que a rodeiam, como uma criança
enfeitando-se distrahida com as florinhas espontaneas, tu, bella,
sentida, deixas reflectir pela transparencia da tua face pura um clarão
pallido e incerto como de agonias e desespero, como a phosphorecencia de
um grande mar que estúa? Diante de ti sente-se uma oppressão estranha, a
mudez sagrada de uma grande floresta, o terror gélido, de quem entra na
caverna de uma sibylla. Porque é que os teus vinte annos, as fórmas
arrebatadoras do teu flexuoso corpo de sylphide, que verga pela dôr,
mais languido e gentil do que a palmeira solitaria embalada nas bafagens
mornas vindas da amplidão remota do deserto, como é que toda esta
adolescencia, que te cinge como auréola de encanto e attractivos, me faz
ter medo de ti, me prende a voz temerosa e balbuciante, que ousa ás
vezes perguntar-te:
D'onde vieste? Em que scismas? Que véo te acena e está chamando de
longe? Porque te escondes dos olhos que choram de vêr-te assim desolada,
na consternação de uma angustia intraduzivel por palavras humanas?
Porque não fallas, e nos contas o que soffres? Porque te deixas ficar
horas esquecidas com a mão firmada ao rosto, suspensa n'uma contemplação
divina, irradiante, de um modo, que ninguem ousa dizer se és da terra,
se és a incarnação de alguma essencia archangelica que anda errante no
mundo a sanctificar o amor no soffrimento?