O alforge e o bordão alevantava,
E mal que terminou, no mesmo instante
Da cristalina fonte se apartava.
O enternecido, transportado amante
Debalde uma, e mil cousas perguntava,
Mais não volveu resposta o peregrino,
E mudo foi seguindo o seu destino.
FIM DO CANTO TERCEIRO.
CANTO QUARTO.
Mas quem póde livrar-se por ventura
Dos laços que amor arma brandamente
Entre as rosas, e a neve humana pura,
O ouro, e o alabastro transparente?
Camões, Lus., C. 3.º, E. 142.ª
Da socegada noite o astro cadente
P'ra plaga occidental já se inclinava:
Precursora do Sol resplandecente
A matutina estrella scintilava.
Do Téjo sobre a placida corrente
Nem a mais leve brisa volitava,
Jazia a folha immovel no arvoredo
Tudo dormia socegado, e quedo.
Apenas o silencio prolongado
Lá do longinquo charco interrompia
A grasnadora raã, do ramo alçado
O triste mocho, que agoureiro pia.
Eis que ao longo do rio socegado
Um fraco som parece que se ouvia
Compassado, moroso, e similhante
Ao surdo murmurar de agua distante.
Distingue-se melhor, em força cresce
Pouco a pouco se vem approximando,
Com o murmurio das aguas já parece
Ouvir-se o som do lenho em lenho dando,
Saltando a limpha a espaços resplandece,
O cristal se desliza sussurrando.
«Alerta companheiros com presteza
«Os remos esforçai, que é certa a preza!
Assim brada uma voz, e vigorosos
Montam nove o batel, que a sombra escura
Dos salgueiros encobre, que viçosos
A orla adornam da corrente pura:
Oito aos remos se lançam pressurosos,
Em quanto o Chefe empunha a cana dura,
Guiando a barca, que qual seta vôa
Ao mourisco batel, que tem na prôa.
«Nazarenos!... na lingua arabia grita
A gente do batel sobresaltada.
«Nazarenos» bradando, esforça, excita
O maioral a gente ao remo usada.
«Leva remos p'ra já, raça maldicta,
«Rendei-vos, perros, ou ireis á espada,
Gritam da barca, que veloz singrando
Vai o batel dos mouros alcançando.
«Lança o croque, a fateicha, afferra, atraca,
«Que não possa escapar-se a gente infida,
Brada o Chefe Christão, que prompto ataca
O batel que desiste da fugida.
Por defende-lo o mouro a espada sacca,
Trava-se atroz peleija tão renhida
Nos barcos afferrados, qual na terra
Soe tenaz mostrar-se a horrivel guerra.
Do christão bando ao impeto primeiro
Dos infieis o barco fôra entrado,
Não sem que tres christãos o derradeiro
Termo houvessem nas aguas encontrado;
Mas logo, atraz dos bancos do remeiro,
Peleija o bando mouro intrincheirado
Como quem não curando já da vida
Antes do que captiva a quer perdida.
Brilha no ár vibrando a espada núa,
Penetra pelas armas a estocada,
Céva no roxo sangue a raiva crúa
Do talhador alfange a cutilada.
Nenhum pensa em ceder, nenhum recúa
Em quanto a força em sangue derramada
Ao braço não fallece, e a mão pendente
Não deixa o ferro matador jacente.
Já dos nove christãos que accommetteram
Tres a morte nas aguas encontraram,
Cinco do peito aberta a vida deram
Que á estocada os mouros lhe arrancaram;
Mas as vidas bem caras lhes venderam
Que oito tambem dos perros expiraram,
E dos sete que restam, tres feridos
Vão a vida exhalando entre gemidos.
Mas o Chefe Christão só no perigo
Crescer sente o valor co'horror e estrago,
Qual raio abrazador sobre o inimigo
Cahe, bradando em voz alta «San-Tiago.
Morte, espanto, e terror leva comsigo,
Faz-se o batel de sangue um bruto lago,
Onde o maioral mouro acaba a vida
E o Christão Chefe a dextra tem ferida.
Dos mouros uns ao ferro a vida entregam
Outros da barca pavidos saltando
Escapados á morte á margem chegam
Com o sangue as puras aguas maculando.
Assim ao só Ruy a barca legam,
Que era elle o que indomito pugnando
Tinto no proprio sangue generoso
De tantos triumfára valoroso.
Ruy, que junto aos muros de Leiria,
Principal instrumento da victoria,
O que perdêra em paz, e em alegria
Co'indomito valor ganhára em gloria,
Que Affonso prezador da valentia,
Conservando seus feitos na memoria,
Quando á mão de Mafalda a mão ligára
Com pompa augusta Cavalleiro armára,
E depois, quando o genio seu guerreiro
A empreza concebeu agigantada
De surprehender com bando aventureiro,
Com imprevista, subita escalada,
O sitio forte, erguido, e sobranceiro,
Onde a Virgem Irene sepultada
Do Téjo, que soberbo aos mares vem,
Por milagrosa campa as aguas tem,
Para que gente moura, ou rica preza
Com mais difficuldade lhe escapasse,
De Ruy commettêra a gentileza
Que nas margens do Téjo se emboscasse,
E com a usada, indomita braveza
Qualquer batel no rio lhe tomasse
P'ra que os de Agar vencidos não sentissem
N'agua ou terra por onde lhe fugissem.
Com animo esforçado o bravo moço
Assim cumprido o real mando havia,
E dos mouros com o barbaro destroço
Das feridas o sangue confundia.
Da desigual peleija o alvoroço
Que de Ruy dobrára a valentia
Cessado tinha, e o braço seu ferido
Sente com o corpo já desfallecido,
A ferida estancar em vão procura
Co'a mão esquerda o Joven animoso,
Que a mão, co'a dôr pungente mal segura,
Recusa o ministerio caridoso.
Do sangue á perda emfim cede a natura,
Succumbe á dôr o moço vigoroso.
Seu corpo sob as armas desfallece,
Cahe prostrado na barca que estremece.
Mas antes que do Téjo na corrente
Fosse a ordem real executada,
Pelo ardente valor da christãa gente
Com temerario arrojo era assaltada
De Santarem a arce, que imprudente,
E no escarpado accesso confiada,
De Hauzeri sob o mando, que a regia,
O poder dos de Christo escarnecia.
Meias adormecidas, sem cuidado
As vélas sobre o muro mal vigiam,
Quando a escada fatal alevantado
Tem o nobre Moniz, que os mais seguiam.
Acorda tarde o mouro alvoraçado,
Que os confusos clamores desafiam,
Que os Christãos da muralha já senhores,
Em breve as portas entram vencedores.
De Affonso no poder cahiu dest'arte
Aquella, que no cume se assentava,
Soberba dominando a toda a parte
A campina feliz, que o Téjo lava.
Inutil foi p'ra o mouro circumdar-te
De fortes torreões, co'a gente brava
Procurar preservar-te e defender-te,
Se uma noute bastou para render-te.
Noute cruel e horrivel, em que o córte
Da espada anniquillou a audacia tua!
Em que a tyranna, despiedada morte
A fome saciou barbara e crúa!
Em que rios de sangue por tal sorte
O fio fez correr da espada núa,
Que apenas a seus golpes escaparam
Tres, que o fugido alcaide acompanharam.
De Sevilha em alta torre
O Rei mouro está sentado:
D'alli co'a vista discorre
Pelo campo dilatado
Que o Guadalquivir percorre.
Eis que p'ra banda do rio
Quatro vê vir cavalgando.
Um dos quaes o senhorio
Parece que tem do bando,
Que segue o seu alvedrio.
Vem todos de pó cobertos,
Os ginetes vem cançados,
Mostras claras, signaes certos
De marchar afadigados
Mostram aos olhos expertos.
Por Deus!» o Rei mouro brada--
Do presago coração
O agouro não me agrada!
Trazem nova de afflicção
Esses que vejo na estrada.
Aquelle que vem na frente
No cavallo mais formoso,
É Hauzeri certamente,
Que contra o Christão fogoso
Accode a pedir-nos gente.
Pelo Profeta vos digo,
Que se agua aos brutos não dão
Santarem está em perigo
De em breve cahir na mão
Do Christão nosso inimigo;
Porem se a sêde que tem
Aos corceis deixam matar,
É tomada Santarem,
E a nova funesta a dar
Fugitivo Hauzeri vem!»--
Mal do Rei mouro acabavam
Os discursos agoureiros,
Que logo ao rio chegavam
Os cançados cavalleiros
E beber aos brutos davam.
Não tarda que desmontado
Ante o mouro commovido
Tivesse Hauzeri narrado
O desastre acontecido,
O caso desventurado.
Como Affonso se partira
Com sua bellica gente,
Como a marcha lhe encobrira,
Sobre a villa confidente
Como inesperado cahira:
Como as vélas surprehendidas
São no muro degoladas,
As escadas erigidas,
As muralhas assaltadas,
E as fortes portas partidas:
Como a gente, por tal sorte
De susto e trevas tomada,
Ou passa do somno á morte,
Ou corre desacordada
Encontrar da espada o córte:
Como emfim, perdida a esperança,
Da arce os Christãos senhores,
Cevando-se na matança,
Se esquivára aos vencedores,
A buscar prompta vingança,
E das aguas confiando
A filha, que preservára
Com tres só, dos de seu mando,
Pr'a elle Rei caminhára
Submetter-lhe o caso infando.
Assim os mouros souberam
De Irene os muros tomados;
Grande terror conceberam,
Ao vêr a quanto arrojados
Os de Christo se atreveram.
Porem do Téjo á placida corrente;
As barcas sem governo abandonadas,
Pouco a pouco do rio brandamente
Foram ás verdes margens encostadas:
Das aguas no remanso mollemente,
De verdes espadanas rodeadas,
Com o descer da maré firmes ficaram
E no lado bojudo se inclinaram.
Á luz volve Ruy, renasce á vida;
Mas qual surpreza, qual doce portento!
Já não goteja o sangue da ferida,
Já o não punge a dôr e sofrimento;
Ao recobrar a sensação, perdida
Do sangue no espectaculo cruento.
Abre os olhos, contempla a formosura
Que qual sonho perdera na espessura.
Em vez da scena barbara horrorosa,
Onde á força da dôr ficou jacente,
Volve a si, reclinado na viçosa
Relva, que esmalta a borda da corrente.
Co'escudo, e lança, a espada bellicosa
Dos ramos de um salgueiro está pendente,
E a matutina brisa fresca, e pura
Junta o sussurro ao da agua que murmura.
Jaz a seu lado o elmo desprendido,
Do duro peso a frente libertada;
O peito, antes das armas opprimido.
Livre a aura respira embalsamada;
Com tella delicada está cingido
O braço, que ferira imiga espada,
E a linda moura, lagrymas chorando,
Lhe está no seio a frente sustentando.
«Visão!... visão do Ceo, sem pár encanto
«Inefavel prazer, que me aviventas,
«Doce illusão de amor!..... mas esse pranto
«Suspende, ah sim, com elle me atormentas.
«Nesse rosto tão bello, puro, e santo,
«Com cujo aspecto a vida me sustentas,
«Deixa vêr um sorriso, um gesto amante;
«Vê-lo sequer n'um derradeiro instante!
«Ah deixa que em meus braços amorosos
«Aperte a imagem que p'ra mim é vida;
«Que unidos n'um só ser, ambos ditosos
«Nossa essencia vejamos confundida!
«Ah Fatima, dos dias meus ditosos
«Delicias e prazer, Virgem querida,
«Ja não ha quem de mim possa apartar-te
«Tu das-me a vida, vivo só p'ra amar-te!
Disse Ruy: e a Moura, a quem a ardente
Força de um terno amor vence e domina,
Sobre o peito do amante a linda frente,
Desfeita em meigo pranto, amante inclina.
Ruy no peito a aperta vehemente,
Triumfa amor, amor só predomina!.....
Quando a barca de subito estremece,
Co'a luz do raio a margem resplandece.
Retumba do trovão o som tremendo,
Da distante montanha os echos gemem,
Do rio a calma subito rompendo
Na borda antes tranquilla as aguas frémem.
Á Virgem delirante o choque horrendo
A razão restitue; seus membros tremem,
Arranca-se assustada espavorida
Dos braços com que o moço a tem cingida.
«Suspende, ah sim suspende, ó bem amado,
«De ti me afasta a propria natureza.
«Não contemplas o Ceo de horror toldado,
«O rio, o campo envoltos na tristeza.
«Foge Christão, que o meu funesto fado,
«Sem igual nos rigores, na dureza,
«Não me fez para ti, nem consentíra
«Que amor em doce laço nos uníra.
«Foge, oh Christão invicto, e generoso,
«A quem prouvéra ao Ceo que ora não visse;
«Mas já que fez teu braço poderoso
«Que em teu poder segunda vez cahisse,
«Que a teus olhos meu peito o desditoso
«Amor sem esperanças descobrisse,
«Só te resta fugir sem mais demora
«Quem, por seu mal, e por teu mal, te adora.
Isto a Moura dizia; mas o amante
Nem o trovão, nem seu carpir ouvia,
Transportado de amor, e delirante
De novo a moça com ardor cingia.
De virginal rubor tinto o semblante
Fatima seus transportes combatia;
Mas a modestia mais lhe agrava a sorte;
Que o amor de Ruy torna mais forte.
Combate ainda em pranto suffocada,
Ora emprega o rigôr, ora a ternura,
Ora Ruy argue com voz irada,
Ora lhe pinta a extrema desventura,
Cego o moço prosegue...... quando alçada
De repente ante os dois surge a figura,
De Ruy á memoria não estranha,
Do venerando Ermita da montanha.
O mesmo era, que alli achado havia
Na piedosa oração todo engolfado,
A mesma longa barba lhe descia
Sobre o peito, no vulto magoado
Outra expressão porém ora se lia,
E com semblante triste mais que irado,
Do insano mancebo a mão tomando,
Lhe diz com tom de voz sereno e brando.
«Tu, filho de Ruy, tu de seus feitos
«Assim procuras igualar a gloria?
«Assim do Pai os ultimos preceitos,
«Filho ingrato, conservas na memoria?
«Á Mãi, que o ser te deu, nutrio aos peitos,
«Foi esta a promettida alta victoria,
«Quando do martyr Pai armas sagradas
«Te entregou de seu sangue inda esmaltadas.
«Julgas-te generoso, porque a vida
«Nos campos das peleijas arriscaste,
«Porque valente e audaz da gente infida
«Na dura guerra o impeto domaste,
«Porque esta moça só, desprotegida
«Nos conquistados muros preservaste;
«Mas, quando, oh moço audaz, assim fizeste,
«De imperio sobre ti que prova déste?....
«Tu, que esquecendo as leis de cavalleiro,
«Quando uma Virgem timida, innocente,
«Acaba de salvar-te o derradeiro
«Sopro da vida, a teu desejo ardente,
«Sem respeitar seu desamparo inteiro,
«Buscas sacrifica-la impaciente,
«Abusar da imprudencia e juventude;
«Que assim curas da honra e da virtude!
«Mas Deus a protegeu, o o ceo piedoso
«Que guardada lhe tem mais nobre sorte
«Soube arranca-la ao moço impetuoso
«Que ella arrancado havia ás mãos da morte.
«Dóma, oh mancebo, o genio teu fogoso,
«Sabe ás paixões oppor uma alma forte,
«Que em vão procura a honra e busca a gloria
«Quem aos desejos seus cede a victoria.
«Sabe não tarda a hora que ha marcado
«A eterna, e insondavel Providencia
«P'ra que d'ella, e de ti se cumpra o fado,
«Que não pode prever mortal prudencia,
«Mal de quem, com seu sopro envenenado.
«Pertender profanar essa innocencia!
«Mal de ti, se a cumprir te não dás préssa
«Do ceo a ordem, que por mim se expréssa!
«Não distante d'aqui, na opposta margem
«Um barco mouro o Téjo vem subindo,
«Procura Santarem sua viagem,
«Um irmão de Hauzeri vem conduzindo;
«Saia-mos-lhe ao encontro na passagem,
«Da nova aquelles mouros instruindo,
«Volverão, esta Virgem lhes daremos,
«E assim a Lei sagrada cumpriremos.»
Fallando assim, do Ermita venerando
A voz era solemne, e magestosa,
Via-se a frente calva circumdando
Uma aréola clara e luminosa;
Subjugado Ruy cede a seu mando,
Já na agua nada a barca pressurosa,
Já, proximos da opposta ribanceira,
Sentem remar dos mouros a bateira.
Porem ao som do remo, que devia
Para sempre talvez roubar-lhe a amada,
No coração do moço renascia
A tempestade apenas abafada;
Se co'amor o respeito combatia,
Não dura a luta na alma apaixonada,
Cede o respeito, e o moço exasperado
Ao velho falla assim com gesto irado.
«Quem, oh velho agoureiro! dependente
«Coustituiu de ti o meu destino?....
«Vate de malles, barbaro inclemente,
«P'ra que simulas leis do ceo benino?.....
«Vai, cessa de ligar teimosamente
«A minha sorte ao fado teu mofino,
«De perseguir meus dias, de insultar-me,
«E co'escuro provir de ameaçar-me.
«É tua de Hauzeri acaso a filha?....
«Acaso nos combates me ajudaste?....
«Este braço, esta espada que aqui brilha
«Acaso foste tu que os animaste?...
«Esta de amor suave maravilha
«Acaso foste tu quem a salvaste?...
«Não. Entrega-la a barbaros imigos
«Só sabes querer, e expo-la a novos perigos.
«Ah! se longe de tudo á dôr votado,
«Aborreces o mundo, e seus deveres,
«Volve ao ermo dos homens sequestrado,
«Céva na solidão teus desprazeres,
«Não venhas com teu halito empestado
«Murchar da vida a flôr aos outros seres,
«Nem blasfemes o ceo, querendo que eu veja
«Desleixada, a que o ceo quer que eu proteja.
«E póde querer o ceo, que eu a innocencia
«Nas mãos dos infieis de novo entregue,
«Que Fatima infeliz da Fé na ausencia
«O Deus que a protegeu blasfeme e negue?...
«Póde querer, que a abandone sem clemencia
«Ao funesto destino que a persegue?....
«Não, não póde tal querer; nem separado
«Soffrerei ser de um bem que o ceo me ha dado.
«Aparta-te de mim tu que o projectas,
«Aparta-te de mim, antes que iroso
«Pelas expressões tuas indiscretas
«Me leve o sangue a extremo perigoso!
«Ao zelo que por mim, por ella affectas
«Prestes pôe termo, foge pressuroso,
«Deixa-me, oh velho insano, ao meu destino,
«Poupa-me algum funesto desatino!
Immovel, qual rochedo, o velho Ermita
Do mancebo os transportes escuitava,
A compaixão, que seu penar lhe excita,
No gesto enternecido se mostrava.
Pallida, e sem alento a moça afflicta
Aos ceos os lindos olhos levantava,
Como quem do poder soberano e forte
Submissa, e resignada espera a sorte.
N'isto do batel mouro percutida
É a barca do remo abandonada:
N'agua mergulha a borda, compellida
Do veleiro batel pela pancada.
Aquella vê Ruy, que lhe era vida,
No rio desparecer precipitada,
Grita, lança-se ao rio a soccorre-la,
Mergulha em vão, em vão quer recolhe-la.
Mas o braço do Ermita mysterioso
Fatima sobre as aguas amparando
Longe a leva do amante impetuoso,
Que em vão a está nas aguas procurando,
Clama ao batel dos mouros pressuroso,
E a filha de Hauzeri prompto entregando,
Volve a Ruy, arrastra-o da corrente,
E desparece á vista em continente.
FIM DO QUARTO CANTO.
CANTO QUINTO.
Quaes no profundo reino os nus espritos
Fizeram descançar de eterna pena
C'uma voz de uma angelica Sirena
Camões, Lus., C. 10.º, E. 5.ª
Vagaroso vem marchando
Na vereda um cavalleiro,
Nobre ginete montando;
Traz o rosto do guerreiro,
Que a vizeira alevantada
Deixa contemplar inteiro,
Co'a acerba dôr concentrada
Negra sombra de tristeza
Profundamente gravou.
Dos olhos seus a viveza
Apaga a melancholia,
Da intensa magoa a dureza.
Tormento de mais de um dia,
Froixa luz de escaça esperança
Se lê na fisionomia.
Pena, que a velhice avança,
Infausta paixão ardente
Causas são de tal mudança.
Como o tronco florescente,
Que ha pouco altivo, e frondoso
Ornava a selva virente,
Que o furor do vento iroso
Rebramando enfurecido
Desafiava orgulhoso,
De insecto voraz roido
Na raiz que o alimenta,
Murcho abate o cume erguido,
Alta a copa não sustenta,
Perde da folha a verdura,
Que a seiva não alimenta,
Guarda só do lenho a altura,
Merencorio documento
Da perdida formosura;
Assim, desde o atroz momento
Que Fatima lhe roubou,
Com saudade, amor, tormento
De Ruy o ser mudou.
No fundo d'alma
Do triste amante,
Nem um instante
Ha tregoa e calma.
Pena incessante
Que nada acalma.
Cada dia com o tempo reforçada,
Lhe consume a existencia desgraçada.
Já, qual soía
Quando ditoso,
Não impellia
O bellicoso
Da Andaluzia
Filho fogoso
Apoz o corredor que a lebre alcança,
Ou o gamo leve, que no campo avança.
Lá no torneio
Já não brilhava,
Marcio recreio,
Que outr'ora ornava
De audacia cheio,
Onde arrancava
Dextro e valente o premio em nobre luta;
Tanto a amarga tristeza a alma lhe enluta!
Mesto, isolado,
Ermos outeiros
Corre, apartado
Dos cavalleiros;
Só animado
Entre os guerreiros
Se mostra ainda em frente do inimigo,
Quando a tuba guerreira o chama ao perigo.
Ignora o infeliz qual seja a sorte
D'aquella por quem só lhe é cara a vida,
D'aquella sem a qual da espada ao corte
A existencia quizera ver perdida.
Nas aguas a deixára entregue á morte,
Nas aguas víra a Virgem submergida,
Longe d'ella com força irresistivel
Arrebatado n'esse instante horrivel.
Do agoureiro Ermita a milagrosa,
Subita apparição, prompta partida,
A aréola da frente luminosa,
A antiga prophecia d'elle ouvida:
A lembrança da Mãi terna e saudosa,
Do martyr Pai a ultima ferida,
Seus preceitos, legados á consorte,
Sellados pela fria mão da morte.
As palavras do Ermita, os seus furores
Contra elle, tão prompto castigados;
Seus primeiros desejos, seus ardores
Pelo ceo, como acinte, perturbados;
Os olhos de Fatima encantadores,
Quaes por ultimo os vira aos ceos alçados,
A angelica expressão do seu semblante,
Tudo a Ruy se pinta em cada instante.
O socego na noute em vão procura,
Foge o somno a seus olhos vigilantes;
A incerteza, entre as penas a mais dura,
Se afferra, roaz cancro, a seus instantes;
Se ao cançaço a final cede a natura,
Entre um tropel de sonhos delirantes
Vagando sem cessar o pensamento,
Em logar do repouso acha o tormento.
Tal era o miserando, infausto estado
De Ruy, que ao acaso caminhava,
Só, distante dos seus, e confiado
No valor, que a desdita não coarctava;
Não distante do muro alevantado,
Que a maura gente ainda povoava,
Na montanha, que surge graciosa,
Qual no deserto a oazis frondosa.
Em frente do mancebo se estendia
Prodiga de bellezas a natura:
Da primeva, robusta penedia
A variada, asperrima structura,
Que em agulhas, em picos se erigia,
Varios na massa, varios na figura,
Erectos estes, estes inclinados,
Selvosos uns, os outros despojados.
Ruinas da vetusta natureza,
Monumentos de um mundo transpassado,
Culminantes elevam núa a aspereza
Os cumes de granito descarnados;
Em quanto, circumdando a redondeza
Das fraldas, se divisam cumulados
Das destruidas rochas os fragmentos
Attestando o poder dos elementos.
Alli a aerea marcha pressurosa
Pára a nevoa do vento saccudida,
Alli pára a procella magestosa
Nas enroladas nuvens envolvida,
A lymfa alimentando, que abundosa
Dos penhascos nas veias repartida
Surde em cascatas, em limpidas fontes,
Em arroios gentis desce dos montes.
Lá se veem de granito á massa ingente
Do chão calcareo as zonas encostadas,
Áquem e álem partidas variamente,
Jazer rotas, confusas, deslocadas;
Quaes se de interno esforço e de repente
Nos fundos alicerces abalados
Como involucro fragil rebentassem,
E ao novo serro o dia franqueassem.
Mais abaixo porem ledo se estende
O selvatico manto de verdura,
Onde o bafo do estio nunca offende
A flôr mimosa, amante da frescura,
Onde da hervosa penha se desprende
Com murmurio suave a fonte pura,
E a mil viçosas plantas succos dando
Saudosa corre entre ellas serpejando.
No valle agreste e umbroso o medronheiro
O rubicundo fructo tem pendente
Á sombra do robusto castanheiro,
Cuja folha intercepta o sol ardente;
O carvalho frondoso, o alto olmeiro
Cinge a hera lustrosa estreitamente;
Do pinheiro co'as copas elevadas
As massas de verdura são coroadas.
Na solidão do bosque as tenras aves,
Incolas primitivas da floresta,
Chamam a vida co'as canções suaves
Musica natural que amor empresta;
Respondem-lhe de longe os tons mais graves,
Merencoria harmonia lenta e mesta
Das ondas, que escumando entre os penedos
Batem da roca os asperos rochedos.
De Alboracim as aguas misturando
Do salso mar co'as vagas amargosas,
De um lado corre o Téjo, saudando
Por derradeiro as praias arenosas;
Vão-se do outro os olhos alongando
Pelas tumidas ondas procellosas,
Que com o tempo sulcarão triumfantes
Saudando o patrio sólo as náos ovantes.
Ainda então sobre a penha virente
Orientaes trophéos não consagrára
De Diu o vencedor, nem o eminente
Excelso pico a torre rematára;
Inda a pedra lavrada artistamente
O Alcacer real não levantára;
Nem a limfa liberta conhecêra
A marmorea bacia, que a prendêra;
Inda a riqueza então não erigira
Do prazer a morada caprixosa,
Nem o muro importuno prohibira
O transito na selva magestosa;
Inda o tronco indignado não sentira
Do ferro a cortadura injuriosa,
Nem do cordão tyranno a fantesia
Immolàra a belleza á symetria.
Tal era o quadro que ante o olho amante
Do misero Ruy se desdobrava:
Parou, e parecia que um instante
A amarga dôr no peito se adoçava.
Menos pezado e triste no semblante
Os olhos pelos cumes alongava;
Mas foi curta a impressão, curta a surpreza,
Prompto volveu á habitual tristeza.
Qual um instante só brilha o luzeiro
Do claro sol no meio da procella;
Tal da alegria um raio do guerreiro
Um momento sómente o vulto assella.
Entranha-se na selva, que primeira
No seu transito está frondosa, e bella,
Segue da agua o arroio fugitivo
Co'a frente baixa, o rosto pensativo.
Assim caminha, quando o pensamento
Sente por modo estranho perturbado.
Não, não é illusão, um doce accento
Sôa no bosque, terno, e magoado,
Em vez do som facticio de instrumento
Do murmurio do arroio acompanhado,
Merencoria harmonia, canto lindo
Qual o da rôla seu amor carpindo.
«Oh doce voz! oh canto mavioso!
«Ah! que se ella vivêra, assim cantára,
«Assim o nosso amor puro, extremoso,
«Solitaria, e saudosa lamentára!
«Mas, oh noute cruel, fado horroroso!
«Nas aguas para sempre a bella, a cara!...
Mais não disse, que os olhos se alagaram
E os soluços as vozes lhe cortaram.
A VOZ.