As trompas guerreiras

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RUY O ESCUDEIRO.

Conto.

POR

L. DA S. MOUSINHO D'ALBUQUERQUE.

Remedios contra o somno buscar querem,

Historias contão, casos mil referem.

Camões, Lusiadas, Canto 6.º, Est. 39.ª

LISBOA:

1844.

_Typ. da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis. Largo do

Pelouriho, N.º 24._

_O manuscripto original do presente Poema foi dadiva generosa de seu

illustre Auctor, feita á Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Uteis,

que desejando corresponder a tão obsequioso offerecimento empenhou os

recursos artisticos, de que podia dispor, para que a edição fosse

primorosa, e provasse o adiantamento da gravura em madeira e da

typographia em Portugal nestes ultimos annos._

_Os Editores._

RUY O ESCUDEIRO.

CANTO PRIMEIRO.

Desbaratado, e roto o mouro hispano,

Tres dias o grão Rei no campo fica.

Camões, Lusiadas, C. 3.º, E. 53.ª

A Cruz azul, que em campo prateado

No escudo de Henrique reluzia,

Em cinco o Filho já tinha cortado

Por memoria dos Reis, que roto havia:

De Castro-verde o campo dilatado

O novo Rei com o arraial cobria,

Livres os seus, e os mouros fugitivos,

Partião os despojos, e os captivos.

Do arraial no meio se elevava

Do grande Affonso a lenda triumfante,

Em torno á qual o vento balançava

As dos Cabos do Exercito prestante,

De Pero Pais, que seu pendão guiava,

Dos Venégas do Aio prole ovante,

De um Sousa, de um Vallente, e de outros fortes

Nos perigos, e na gloria ao Rei consortes.

Em seguida á do Rei se distinguia

Tenda semi-real, que alli plantára

Heroe, cujo valor não desmentia

O sangue da Borgonha, que o formára;

Pedro Affonso, a quem déra a luz do dia

Amor, que o hymineo não consagrára,

Digna estirpe de Henrique, e em obras suas

Galardão do cuidado ao aio Fuas.

No circumstante campo, vasto, aberto,

Que inda ha dois sóes medroso, e trepidante

Víra a furia cruel, conflicto incerto

Do Sarraceno em lanças abundante

Contra o Christão, que anima o Chefe experto,

E no Deus de seus pais a fé constante,

Trombetas, e ataballes uns tangiam,

Outros em novo canto assim diziam.

HYMNO.

Vai fugindo o Sarraceno

Mais prompto do que avançou,

Que todo o poder terreno

Por Christo desbaratou

O braço aos perros fatal

De Affonso de Portugal.

Cada um dos Cavalleiros,

Que por Christo ao campo vem,

Cem dos infieis guerreiros

Na peleja ante si tem;

Mas tudo cede ao real

Affonso de Portugal.

Cinco Reis de infieis mouros

Contra os de Christo vieram,

D'elles teve Affonso os louros,

As costas a Affonso deram,

Deu Deus esforço immortal

A Affonso de Portugal.

Sobre o campo da victoria,

Onde Christo lhe appar'ceu,

E pr'a o escudo em memoria

As proprias Chagas lhe deu,

Ao throno alcemos real

Affonso de Portugal.

Este Heroe, que Deus ajuda

Tome a nossa vassallagem:

Sempre ao povo seu acuda

Ou Elle, ou sua linhagem:

Seja pr'a sempre real

A coroa de Portugal.

Sempre entro nós haja Rei

Natural de nossa terra,

Que na paz conduza a grei,

E que a defenda na guerra,

Qual o primeiro real

Affonso de Portugal.

Em quanto uns assim cantam dos soldados,

Vão outros pelo campo divagando:

Estes colhem despojo inda espalhado,

Aquelles secco matto vão cortando;

Ascende ao ár o fumo, que enrolado

Das accezas fogueiras vem manando,

Onde est'outros preparam o alimento

Dos membros lassos próvido sustento.

Já o Sol menos ardente

Para o ponente descia,

Temperando a calma do dia

A fresca brisa nascente,

No occaso reluzente,

De ouro e de purpura ornado,

Guarnece o ceo azulado

A orla de nevoa espessa,

Novo dia que arremessa

Pintando um dia acabado.

Tinha chegado

A hora amena,

Nos nossos climas

Tão suave, tão doce, e tão serena,

Hora, que em tempos

De paz dourada,

Dos lavradores

É tão presada;

Quando termina

Do dia a lida,

Quando o descanço

Restaura a vida.

Sopra da tarde

Grata frescura

Reanimando

Murcha verdura.

Vem o novilho,

Já libertado

Do duro jugo,

Pascer no prado.

Sobem dos campos

Os segadores.

Ledos cantando

Ternos amores.

Gentil mancebo,

Que amor encanta,

Ao som das córdas

As penas canta,

Em quanto em giros

Linda pastora

Co'a dança leve

Mais o namora,

Hora sem par, em que o cadente dia

Traz repouso, ternura, e alegria!

Pedro Affonso no emtanto, em cujo peito

A pár da intrepidez móra a piedade,

Guerreiro sem igual, Christão perfeito,

Vai demandando a erma soledade

Do provecto Ermitão, asilo estreito

Onde fugindo as pompas, e a vaidade,

A Deus e á penitencia consagrára

O venerando velho a vida cára.

N'uma colina, apenas exalçada

Sobre a vasta planicie calorosa,

Uma exigua Capella era elevada

N'aquella idade barbara, e piedosa:

Do velho Ermita a cellula acanhada

Jazia ao lado, uma sobreira annosa,

Co'a larga rama o tecto protegia,

E do profano olhar a defendia.

Ante a porta do sacro monumento

Com toscos páus estava retratado

O sacrosanto lenho do tormento,

Em que o Filho de Deus fôra pregado:

Dentro sculptado via-se o momento

Em que o Corpo sem vida, reclinado

Da Mãi nos braços, vai, qual creatura.

O Creador baixar á sepultura.

Alli da noute na primeira vela

P'ra o Rei, do sacro livro possuido,

A campana soou, que o tempo assella

Do celeste Emissario promettido,

P'ra que em luz, que a do Sol mais clara e bella

Fosse Christo por elle percebido,

Promettendo-lhe a coroa, e a victoria

Da sua estirpe, e do seu povo a gloria.

Naquelle instante o velho venerando,

De giolhos aos pés da Cruz alçada,

Estava o fim do dia consagrando,

Como do dia consagrára a entrada.

Raros alvos cabellos fluctuando

Se viam sobre a frente despojada;

E a barba, que lhe o vento sacudia

Em ondas, sobre o peito lhe descia.

Na piedosa oração todo engolfado

Estava o santo velho por tal sorte,

Que nem sequer sentiu chegar-lhe ao lado,

Do Escudeiro seguido, o Varão forte.

Pedro Affonso parou, seu peito, armado

De audacia contra os perigos, contra a morte,

Toca a vista do Ermita por tal geito,

Que não sabe se é medo, se respeito.

Mas o moço Escudeiro, que o seguia

Bem diversa impressão experimentava,

Do Ermita a quietação, quasi a apathia

Da sua alma c'o estado contrastava;

Em seu peito um volcão latente ardia,

Dos desejos no pelago nadava,

Estava n'essa idade, em que o repouso

É não só mal; mas mal o mais penoso.

Ruy era o seu nome. Á luz viera

Sob o tecto paterno junto ao Douro;

Seu Pai, no nome igual, a vida dera

Com Henrique pugnando contra o mouro.

Jámais paterno affago conhecera,

Que a triste viuvez, envolta em chôro

Ruy, unico bem que lhe restára,

No berço filho posthumo embalára.

Unica flôr, que lhe esmaltasse a vida,

A mãi no tenro filho cultivava,

Nelle a imagem do pai, reproduzida,

Embellezada ainda, idolatrava.

No Joven desde a infancia alma atrevida

Namorada da gloria se mostrava,

Com coração ardente, e generoso,

E a um tempo amante, meigo, e carinhoso.

Indole a tudo prompta, a tudo ousada

No porte do mancho transluzia:

Na estatura esbelta, e levantada

Co'a ligeireza a robustez se unia:

Sobre a frente morena, e dilatada

A negra liza comma lhe descia,

Nos olhos vivos, e de côr escura

Temperava o fogo bellico a ternura.

Não era lindo, não, que expressão tanta

Destroe a symetria da lindeza;

Porem mais do que o lindo arrastra, encanta,

Interessa, move, e a attenção tem presa.

Sem ter severo olhar, que o riso espanta,

Séria a sua expressão, toca em tristeza,

Trasborda n'ella uma alma forte e ardente,

Que tudo póde ser, salvo indiff'rente.

Tal era formado

No vulto, e nas cores,

Que era a Marte asado,

Era asado a amores.

Qual brilha entre as flores

O cravo fragrante,

Tal elle prestante

Entre os mais brilhára,

Ou tal se elevára

Entre os companheiros,

Como nos outeiros

O olmo alteroso

Sobre o bosque ergue o cume alto, e frondoso.

No patrio tecto, desde o berço vira

Do nobre pai o escudo pendurado,

A cota, que inimigo ferro abrira,

Inda tinta do sangue não vingado.

Mil vezes entre pranto á mãi ouvira

Contar paterna gloria e triste fado,

Mil co'a infantina mão tocado havia

A herdada lança, que ha brandir um dia.

Entre memorias taes do patrio dano

Do filho de Ruy crescera a idade;

Volvido haviam já anno apoz anno

Conduzindo o vigor da mocidade,

Quando a mãi, que respeita como arcano

Do extincto Esposo a ultima vontade,

No dia em que seu lucto revivia

Ao filho bem amado assim dizia.

«Martyr da fé Christãa teu Pai na guerra

«Pela Cruz deu a vida peleijando;

«Fatal golpe o prostrou na propria terra,

«Que para Christo andava conquistando.

«Ah! se lá donde o summo bem se encerra

«Elle, oh filho, nos vê, ver-me-ha chorando,

«Dar-te o preceito, que houve do Consorte

«Quando a alma entregou nas mãos da morte.

«Alli fica, me disse, aquella lança,

«Que só de infiel sangue foi manchada,

«Alli deixo esse escudo por herança,

«Esse elmo, essa cota, e essa espada:

«Se o summo Deus tiver de nós lembrança,

«E que um filho haja em ti, oh bem amada,

«Meu nome lhe darás, e essa armadura

«Sob a qual encontrei a morte dura.

«Dar-lhe-has esta Cruz. Isto dizendo

«Do peito a separou por vez primeira,

«E o braço, já sem força, a custo erguendo,

«Aos labios a levou por derradeira.

«Dir-lhe-has, que se a paz acho morrendo

«A esta insignia a devo verdadeira,

«Devo-a de Christo á fé, que a vida guia,

«Que ensina a fallecer sem agonia.

«Dize-lhe que a conserve ao peito unida,

«Que ao lado seu cinja a paterna espada,

«Aquella p'ra o guiar á eterna vida,

«Esta p'ra ser a seu Senhor votada;

«Que indomito na pugna asp'ra e renhida,

«A fraqueza respeite desarmada;

«Que preze a honra; fuja da cobiça,

«E da moleza vil, que o vicio atiça.

«Assim fallou teu Pai.... e a penetrante

«Ferida em rouxo sangue se esvaia.

«Sumiu-se a voz no peito palpitante,

«Aos olhos se apagou a luz do dia:

«Soou da minha dita ultimo instante,

«Já d'esta alma a ametade não vivia;

«Mas dentro de meu seio palpitava

«Penhor, que a ficar viva me obrigava.

«Vivi, a força achei, que me vigora

«No maternal amor, oh filho amado,

«Cáro penhor de um laço, doce outr'ora;

«Mas roto, quando apenas estreitado!

«A ti mancebo, a ti pertence agora

«Restituir-me aquelle que hei chorado,

«Se, como espero, em ti vir renascida

«A virtude d'essa alma ao ceo subida.

«Da tua infancia os dias acabaram,

«Já teus membros tem força e tem destreza,

«Aquelles, que o esposo me roubaram,

«Saibam que não fiquei só, sem defeza.

«Sangue vil minhas veias não herdaram,

«Nem coração sugeito a tal fraqueza,

«Que ao filho de Ruy estorve a gloria

«De ter por Deus, e pelos seus victoria.»

De Ruy a viuva, assim fallando,

Do muro antigo as armas desprendia,

E os humidos olhos enchugando,

O filho de Ruy d'ellas cobria.

O mancebo, de nobre ardor córando.

Com respeito a armadura recebia,

Que já na dura guerra exp'rimentada,

Fôra do pai com o sangue consagrada.

Um captivo entretanto apparelhava

O bruto ardente, que se apraz na guerra,

Que impaciente o freio mastigava,

Co'a vigorosa mão cavando a terra;

Já armado sobre elle cavalgava

Quem do ninho paterno se desterra,

A procurar do mundo as aventuras,

Gratas a poucos, para tantos duras.

Da triste mãi os olhos macerados

Por largo espaço a marcha lhe seguiram;

Ao perde-lo porem entre os silvados

De uma nevoa de pranto se cobriram.

Seus animos, do filho sustentados,

Ao arrancar-se d'elle sucumbiram.

Sentiu a triste, a dôr, magoa, anciedade,

Que só conhece a maternal saudade.

Segue no emtanto o moço a varia estrada

Que o Mondego do Douro distanceia,

Na terra, dos Beroens Beira chamada,

Onde o Vouga entre as serras serpenteia,

Do Bussaco transpõe serra elevada,

E bem depressa a vista lhe recreia

Valle ameno, co'as flores e a verdura

Que nutre do Mondego a limfa pura.

De risonha colina no vertente,

Que o rio carinhoso em baixo lava,

A cidade Conimbrica é jacente,

Que então de espesso muro se cercava;

N'ella ajuntando estava armada gente

Affonso, que attacar apparelhava

O agareno Ismar chefe animoso

Do transtagano mouro bellicoso.

Era Affonso acompanhado

D'esse Irmão, de Henrique filho

Cavalleiro de alto brilho,

Por Dom Fuas educado.

Fuas era aparentado

De Ruy com os ascendentes,

E o sangue de seus parentes

No Joven reconhecendo,

Seus destinos protegendo,

Por escudeiro o ligou

A Pedro, que o aceitou,

E entregando-lhe a lança,

Poz n'elle tal confiança,

Que como a filho o tratou.

Lá na peleija de Ourique

No mais forte das batalhas

Rachou elmos, rompeu malhas

Ruy, com o filho de Henrique.

Ao som da tuba guerreira

Seu coração se accendeu;

Qual touro, aberta a barreira,

Com o mouro accommetteu.

Aos golpes da herdada lança

Muitos mouros expiraram,

Muitos da espada a provança

Cáro co'a vida pagaram;

E no sangue de inimigos,

Que pela Fé derramou,

Entre azares, e perigos,

Do pai a morte vingou.

Do defunto Ruy tal era o filho,

Que Pedro Affonso ao ermo acompanhava.

Já do cadente Sol o ultimo brilho

Nas bordas do horisonte se apagava,

De altas idéas no inspirado trilho

O provecto Ermitão continuava:

Quando subito o rosto alevantando

Volveu aos dois o aspecto venerando.

ERMITÃO.

«Salve prole de Henrique, heroe preclaro,

«Salve sangue de Reis, a quem a gloria

«Predestinada está no assento claro

«De ter, mais que de imigos, a victoria:

«Sim, tu triumfarás do abysmo avaro,

«Do mundo calcarás pompa, e vangloria,

«Todo o fulgôr da humana heroicidade

«Sepultando no asilo da piedade.

«Onde dos teus a estirpe triumfante

«Teve origem irás, nobre e animoso,

«Do teu sangue encontrar varão prestante,

«Que em ti fecundará germen piedoso;

«Deporás a couraça rutilante,

«O elmo, o escudo, o ferro temeroso,

«Para aspirar á gloria, que não passa,

«No retiro e silencio de Alcobaça.

«Tu porem, oh mancebo, de que abrolhos

«Cheio é para ti campo da vida,

«Em que mar procelloso, entre que escolhos

«Teus de seguir a róta combatida,

«Que lagrimas amargas de teus olhos

«Devem correr, no peito que feridas

«Pungentes sofrerás, sem ter conforto

«Antes que possas recolher-te ao porto!

«Melhor fôra p'ra ti, se a natureza

«De partes menos bellas te dotára,

«Se insensivel ás graças e á belleza

«Ao pondenor, á gloria te formára,

«Se menos coração, menos viveza

«Avara p'ra comtigo te outhorgára;

«Que esse, em quem mais esmero põe natura,

«Raras vezes mimoso é da ventura.

«Os contrarios do Rei que alevantaste

«Os menores serão de teus imigos,

«Outro mais p'ra temer, outro encontraste

«Muito maior no damno, e nos perigos,

«Da dôr por esse o calix esgotaste;

«Mas, cumpridos teus fados inimigos,

«Olhará Deus p'ra ti, e á fonte pura

«Te guiará da solida ventura.»

Assim disse o Ermita, e reclinando

A cabeça no peito, alguns momentos

Recolhido ficou; alfim voltando

P'ra os dois, que quedos s'tão mudos e atentos

Acrescentou com tom solemne, e brando.

«Que somos nós mortaes, mais que instrumentos

«Dos designios de Deus, da alta sciencia

«Da insondavel eterna Providencia?

«Marcha aquelle no trilho da grandeza

«De tantos precipicios circumdado;

«Estoutro das paixões entre a braveza

«É no duro combate acrisolado;

«Nada um na abundancia e na riqueza;

«Outro é do escasso pão até privado;

«Mas se a boa ou má sorte os não illude,

«Lá tem todos a coroa da virtude.»

Estes, e outros discursos repetia

O velho, de unção cheios extremada,

Que Pedro Affonso n'alma recebia,

Qual a semente a terra preparada:

O mancebo porem a alma sentia

Com violencia tal preoccupada,

Que, orando a pár dos dois no monumento,

Tinha longe da boca o pensamento.

Mas já da noute o estrellado manto

Toda a vasta planicie acobertava,

Quando Pedro deixando o logar santo

Para o regio arraial se encaminhava;

Segue em silencio o Joven, em quem tanto

Desassocego do Ermitão gerava

O vaticinio, que debalde intenta

Dissimular a agitação violenta.

Alertas vélas passaram,

Que do campo a guarda tem,

No arraial penetraram,

Descobrindo áquem e além

Os fógos abandonados

Pelos dormentes soldados.

Baixou sobre Pedro o amigo

Lethargo restaurador;

Mas vigilia traz comsigo

O cuidado roedor

Que no Joven escudeiro

Deixou o Ermita agoureiro.

Em vão suffocar tentava

Curiosidade indiscreta,

Que, mal os olhos cerrava,

Logo na mente inquieta

Se renovava a impressão

Das palavras do Ermitão.

Assim oppresso, agitado,

Da noute as horas seguiu,

Até que o corpo cançado

Ao somno alfim succumbiu,

E o repouso ao pensamento

Deu vigor, e deu alento.

Ao romper do dia

A trompa soava,

Cada qual surgia.

Cada qual se armava.

Aqui os infantes

Cerram as fileiras

Junto ás ondeantes

Variadas bandeiras;

Alli vem rinchando

Cavallos de guerra

O pó levantando

Da arida terra.

A rosada aurora

No aço esplandece.

Que co'a luz, que o córa,

Em chammas parece.

De todos na frente

O Rei cavalgava,

E da heroica gente

Os brios dobrava:

As Quinas sagradas

A cota lhe ornavam,

No pendão lavrados

Ao ar tremolavam.

Emtanto abatidos

A marcha seguiam

Os mouros rendidos,

Que algemas prendiam.

Assim vencedores

Os christãos marchavam,

E aos frescos verdores

Das margens do Mondego se tornavam,

Nas campinas de Ourique

Alçado rei, o heroe filho de Henrique.

FIM DO PRIMEIRO CANTO.

CANTO SEGUNDO.

A tomar vai Leiria, que tomada

Fôra mui pouco havia do vencido.

Camões, Lusiadas, C. 3.º, E. 55.ª

Para unir n'um só leito amantes aguas

Vem o Liz, sobre os seixos murmurando,

O Lena vem, nascido de entre as fraguas;

Em seu curso modesto, alegre, e brando,

Entre a relva mimosa, entre a verdura

Cada qual mollemente serpejando.

Jámais turvou a limfa clara, e pura

O forte remo, a quilha recurvada

Com que a industria mortal dóma a natura;

Sómente a braça da arvore quebrada,

A folha que no outomno cahe sem vida

Pelo placido curso foi levada.

Nas margens a aveleira entretecida

Com o espinheiro está de flôr fragante,

A madre silva co'a roseira unida.

No espelho das aguas inconstante

Reflectida balança alta ramagem

De alamo bicolôr, choupo elegante;

Dos vimes, e salgueiros a folhagem,

Molles chorões, as braças incurvando,

Vedam do sol aos raios a passagem.

Alli, na primavera, sussurrando,

Recolhe a abelha o mel por entre as flôres,

E a borboleta as beija volitando,

Quando o cantor sublime dos verdores

Da aurora ao despontar, e á tarde canta

Em frente ao brando ninho os seus amores.

A róda leve as aguas alevanta,

Que em canaes variados circulando,

Levam frescura á sequiosa planta;

Em quanto, dos invernos triumfando,

Altos pinheiros sempre verdes frontes

Reunidos se vêem aos ceos alçando

Na encosta, e cumes dos visinhos montes.

No meio d'este valle a natureza

Um penhasco erigiu, morro isolado,

Que das aridas rochas a braveza

Abruptas volve aos raios do sol nado;

Com aridez igual, igual asp'reza

Do occaso, e do sul encara o lado;

Orna-o do norte apenas a verdura

Em mais suave encosta, e menos dura.

Do forte morro ás abas se abrigaram

Da destruida Liria os habitantes,

Quando da natal terra os expulsaram

Dos romanos as armas triumfantes;

Para alli seus penates transportaram,

E da perdida patria sempre amantes,

De Liria ao novo asilo o nome deram,

Que os tempos em Leiria converteram.

De Vandalos, e Godos povoada

Foi depois, gente forte e valerosa,

Que com o tempo tambem cedeu á espada

Da sarracena raça bellicosa,

Na epocha em que a terra celebrada

Das Hespanhas sofreu perda affrontosa,

E só cantabrios serros abrigaram

Os que ao jugo africano se escaparam.

Mas alfim vencedor da maura gente,

Affonso, no penhasco edificára

Recinto marcial forte, e potente,

Que de Agostinho aos filhos confiára,

Quando do rôto Ismar a ira fremente

No povo e no presidio se vingára,

E unido a Hauzeri, mouro esforçado

Tinha de Affonso os muros conquistado.

Ai! daquelle, que atrevido

Com temeraria ousadia

Do Leão adormecido

Os furores desafia!

O animal irritado,

De crua raiva espumando,

Corre o campo, arrebatado

Morte e ruina espalhando:

Com seus urros espantosos

A bronca serra estremece,

A luz do raio esplandece

Nos seus olhos furiosos.

Força não ha tão potente

Que a carreira lhe embarace,

Que a garra não despedace,

Que não rasgue iroso o dente:

Té que em fim o imigo alcança,

E no côrpo ensanguentado

Partido, e dilacerado,

Séva as iras e a vingança.

Assim de novo a trompa bellicosa

Nos valles retumbava,

Assim de Affonso a gente valerosa

Já de novo se armava,

E as bandeiras, que as Quinas adornavam

Os Alferes de novo ao vento davam.

Nobres, e ricos-homens á porfia

Se apromptam sem demóra

A castigar dos mouros a ousadia,

E em lide vencedora

Punir os damnos, com que Ismar irado

Todo o transito seu tinha marcado.

O escudo embraçou p'ra nobre empreza

Pedr'Affonso incansavel,

Ao Rei da crua guerra na aspereza

Consorte inseparavel,

E com elle Ruy para a vingança

Com ardor empunhou a herdada lança.

Moveu-se a gente bellica segura

Na esperança da victoria,

Que a quem temer não sabe a lide dura

Nunca desmente a gloria,

E n'um teso, ao Castello apropinquado

O campo expugnador foi collocado.

De annoso pinheiro,

Que em frente se alçava

Do campo guerreiro,

Nos ramos pousava

Um corvo agoureiro

Que abrindo o rostro infausto, e ás azas dando,

Parecia estar os mouros malfadando.

Os de Agar bramaram

Quando alevantadas

Em frente enchergaram

As Quinas sagradas,

E irosos juraram

Illeso conservar o logar forte

Seus muros defendendo até á morte.

Alcaide da gente

Seu brio excitava

Hauzeri valente,

Que a lança empunhava;

Mouro forte e ardente,

Entre os do bravo Ismar um dos primeiros

Denodados, e intrepidos guerreiros.

Com garbo, e presteza

Discorre a muralha,

Dispondo a defeza,

Prevendo a batalha,

O alcaide, e a firmeza

A audacia, e o valor no rosto ostenta

Com que dos seus a galhardia augmenta.

Ao lado de Hauzeri bella apparece,

Piedosa vista em lance tão p'rigoso!

Filha linda qual luz quando amanhece

Ao romper d'alva em dia caloroso,

O turbante, que a frente lhe guarnece

Remata alvo penacho precioso

Em quanto vão os zephiros brincando

Com os anneis sobre os hombros fluctuando.

De seda as calças tem da côr da neve,

Sobre ellas desce a tunica bordada,

Cerulea faixa a cinta circumscreve,

Qual a hastea do lirio delicada,

Cobre o virginal seio a tea leve

Onde a seda co'a lãa fôra tramada,

De vermelhos coraes um fio brando

Do collo airoso a base contornando.

Suaves de Fatima os olhos eram,

Vivos ao mesmo tempo e magestosos,

Quaes unicos os nossos climas geram,

Climas caros ao Sol, climas ditosos;

Olhos, foccos de amor, que n'alma imperam

Quer languidos, quer meigos, quer irosos;

Olhos taes, que se pranto derramaram

As mesmas brutas penhas abrandaram.

Nas pudibundas faces reluzia

A viva côr da nacarada rosa,

Que em leve gradação se esvaecia

Pela macia pelle melindrosa;

Virgem, filha gentil do meio-dia,

A côr tinha morena, e tão formosa,

Como a que a luz de um Sol claro e brilhante

Communica do prado á flôr fragante.

Da larangeira em flôr com o deleitoso

Aroma o ár da tarde embalsamado

Cede em suavidade ao amoroso

Hálito de seus labios exhalado.

O murmurio do arroio saudoso

Entro meudos seixos derivado,

O meigo sussurrar do brando vento,

Menos magia tem que o seu accento.

Quem viu a vermelha rosa

N'um ramalhete de flôres

De todas a mais formosa

Quer nas formas, quer nas côres:

Quem da noute socegada

No silencioso véo

Viu a lua prateada

Entre as estrellas do céo:

Quem na belleza prestante

Do palacio, ou templo santo

Viu a corinthia elegante

Que remata o molle achanto:

Quem entre a familia leve,

Habitante da espessura,

Viu a pomba côr da neve,

Vivo emblema da candura:

Não viu mais que uma imperfeita

Imagem das maravilhas,

Com que Fatima deleita

Os olhos, do seu povo entre as mais filhas.

Porem, já sequiosos da vingança

Os Christãos se aparelham p'ra peleija.

Em batalhas o Rei divide as lanças,

Marcando a cada uma quem a reja:

P'ra o assalto prescreve sem tardança

De cada Capitão qual dever seja,

A qual compete de ir na frente a gloria,

A qual mais tarde ha de colher victoria.

A aquelle, que no nome, qual no peito

Tem dos fortes a nobre galhardia,

Entrega o grande Affonso satisfeito.

Entre as batalhas, a que a frente guia:

Na mesma linha põe e de igual geito

A que o pendão de Mem Moniz seguia;

Bem como a forte gente, cujo ousado

Valor tem vido a Sousa confiado.

As reservas intrepidas e ardentes,

Onde a lucta attrahir maior perigo,

Viegas com Martim, e outros valentes

Promptos conduzirão sobre o inimigo;

Porem de Pedro Affonso armipotente

Braço e conselho o Rei quer ter comsigo;

Nem desdenha reter junto a seu lado

O Joven Escudeiro denodado.

As trompas guerreiras

O signal entoam,

Ao combatte voam

As bravas fileiras.

Os mouros defendem

Debalde a campina,

Debalde pretendem,

Que os Christãos bradando

Co'a lança arremetem,

A quanto accommettem

Rompendo e prostrando.

Qual da serra alpina

Partiu destacada

A rocha gelada,

Que o valle domina,

E em forças crestando

Na queda espantosa

Co'a massa assombrosa

Vai tudo rompendo;

Assim as batalhas

Aos mouros forçavam,

E em fuga os lançavam

Ao pé das muralhas.

Na rocha escarpada

O mouro confia;

O Christão porfia,

E a rocha é trepada.

Embora, galgando

Por entre os rochedos,

Inteiros penedos

Descendem troando:

As penhas, nas penhas

Caindo, arrebentam;

Heroicas façanhas

Façanhas sustentam;

Setas sibilantes

Cruzam por milhares

Das fundas girantes

Com os tiros nos ares.

Em quanto os archeiros

A morte arremedam,

Mais brava os lanceiros

Já lucta começam,

O escudo, a couraça,

A malha cerrada,

De morte esfaimada

A lança transpassa,

E aos golpes da espada

O elmo partido

No craneo fendido

Lhe franqueia a entrada.

A escada tremente

Á muralha erguida

Já foi erigida

Pela ousada gente;

Do escudo coberto,

Com o ferro empunhado,

Mais de um segue ousado

No ár trilho incerto,

E sobre as ameias

Mais de um temerario,

Entrega ao contrario

O sangue das veias.

A pugna engrandece,

Redobra a fereza,

Do ataque e defeza

A teima recresce.

Já os muros altos

Por todos os lados

Sentem renovados

Continuos assaltos;

Hauzeri no emtanto

Resiste esforçado,

Fero e denodado

Desconhece o espanto;

Tal, já quasi exangue,

Javali ferido

Com o dente buido

Derrama inda o sangue,

E a um tronco acuado,

O collo cerdoso

Revolve animoso

A um, e outro lado.

N'isto o intrepido Affonso, a si chamando

As reservas, que cauto tem poupado,

O decisivo esforço emfim tentando,

Ao assalto as impelle denodado.

Mal das gentes desliga o regio mando

O valor tanto a custo sopeado

Armas, clamor de guerra, e tubas soam,

E contra o mouro irrisistiveis voam.

De todos o primeiro ao morro avança

O mancebo Ruy leve, e esforçado,

Os penhascos transpõe sem mais tardança

Que a anta o precipicio congelado;

Fere, derriba, e mata a herdada lança,

Foge o mauro tropel desordenado,

Ruy segue qual raio a rôta gente

Pela porta, que aos seus torna patente.

Por ella ruina e morte

Penetra, de horror cercada,

O valor fallece ao forte,

Com a esp'rança abandonada.

Cada qual as armas lança,

Cada qual arrója a espada.

O vencedor na vingança

Irritado se enfurece,

Céva as iras na matança,

A humanidade estremece,

Mas a sanha do soldado

A sua voz desconhece:

Nada p'ra elle ha sagrado,

E na crueza incendido

Se crê pelo ceo armado,

Sobre o infeliz vencido

Julgará infidelidade

Sentir-se compadecido;

Nem o sexo nem a idade

Salva do ferro cruento,

E de horror e crueldade

É o penhasco inteiro um monumento.

O Sol cobriu de horror a clara fronte,

Espessas negras nuvens o toldaram;

As nevoas sobre a borda do horisonte

Da roixa côr do sangue se pintaram;

Os córvos carniceiros sobre o monte

Com o faro da atroz prêza esvoaçaram,

E enlutados os ceos, a noute fria

Mais cedo pareceu pôr termo ao dia.

Farto o soldado emfim de crueldade,

Extinctos quasi os miseros vencidos,

Amainou pouco a pouco a tempestade,

Cessaram os clamores, e os gemidos,

Já o Chefe recobra a authoridade

Sem força entre os primeiros alaridos,

E da victoria no seguro goso

Abandonam-se as gentes ao repouso.

Mas Ruy, cujo joven peito encerra

O preceito da Mãi, do Pai legado,

O descanço dos olhos seus desterra,

Vagando no Castello desolado.

De quente sangue vê fumando a terra,

O cadaver encontra abandonado

E o misero, que em mais tyranna sorte

Sem asar de viver lucta co'a morte.

No peito o coração em horror tanto

De Ruy se apertou, a alma sensivel

Viu, a um tempo com dôr, terror e espanto,

P'ra quanto não é fera a scena horrivel;

Não podendo suster amargo pranto,

Quasi maldiz victoria tão terrivel,

Fugindo ao quadro atroz por mais não ve-lo

Se entranha para o centro do Castello.

Da menagem a torre alli se erguia,

No mais alto do morro alevantada,

Torre rectangular que descobria

Em redor a campina variada,

Lá na alta noute, inda hoje triste pia

Na muralha com o tempo descarnada

O infausto mocho, e no seu seio escuro

Se abriga contra a luz morcego impuro.

De vigia servia o cume erguido,

Na parte media as armas se guardavam,

No mais baixo recinto denegrida

Em prisão dura os crimes se expiavam.

Por caracol estreito, e retorcido

Os planos entre si communicavam.

Na masmorra o soldado fatigado

Não tinha a aquelle tempo penetrado.

Na torre entra Ruy, e parecia

Fatidico o instincto que o guiava;

Á medida que o caracol descia

Ancioso seu peito se agitava,

Na escuridão completa se immergia,

Palpando o muro os passos tenteava,

Quando na marcha subito impedido

Sente um corpo cahir, e ouve um gemido.

Estremece o mancebo co'a surpresa;

Mas prompto do repente recobrado,

A mão ao corpo estende, e em vez de asp'reza

Sente o tacto macio e delicado

De anneladas madeichas na leveza,

N'um seio feminil brando, agitado;

Mais não hesita, o corpo em braços toma,

Fóra da torre com o fardo assoma.

Mas o corpo que leva entre seus braços

Sem movimento está, e a voz perdida,

Pendem-lhe os membros com o mover dos passos

Qual a vide de olmeiro desprendida;

Se o coração, batendo por espaços,

No debil ser não revelára a vida,

O mancebo por certo acreditára

Que da morte os mysterios profanára.

Mais o fardo apertava contra o peito,

Mais do mancebo o peito se agitava.

Parecendo-lhe sentir passo suspeito

Que apoz elle nas sombras caminhava,

A marcha apréssa, e n'um carreiro estreito

Entra a mata, que a um lado a serra brava

Selvatica produz, e na espessura

Mais densa, o fardo põe sobre a verdura.

Qual pasmo sem igual, quando encarando

Aquella, que das trevas arrancára,

Da lua lhe revéla um raio brando

Do peregrino rosto a forma rara;

Quando, no vulto immovel attentando,

Descobre do mancebo a vista avára

As bellezas, que prodiga a natura

De Fatima juntou na formosura.

A pallidez da morte realçava

Merencoria a expressão de seu semblante;

Os apagados olhos lhe cerrava

A palpebra de cilias abundante;

Do seio, que opprimido palpitava,

Parecia que um suspiro a cada instante

Ia partir, que o moço a vida déra

Se nos labios gentis o recolhera.

Extatico de pasmo e de surpreza

Jaz Ruy com tal vista captivado,

Sem cogitar de tanta gentileza

Qual seja o miserando infausto estado.

Co'a alma em goso estranho absorta e preza

Ficára o moço alli como encantado,

Se na Bella afllicção mais dura e forte

Não parecesse estender o véo da morte.

Contrahiram-se as faces melindrosas.

Os membros delicados se obduraram,

Os labios virginaes, murchas as rosas,

Com um moto convulso trepidaram,

De suór frio as gotas abundosas

Pallida a frente, e o collo lhe banharam,

Alevantou-se o seio seu mimoso,

Tomou-se o respirar mais afanoso.

O imprudente Ruy sahe do lethargo

Recobra com o terror o pensamento,

Do abandono da triste se faz cargo

Naquelle transe horrivel de tormento;

Dos olhos lhe rebenta pranto amargo,

A Bella aperta ao peito tão violento

Como quem quer partir com ella a vida,

Ou com ella a existencia ver perdida.

Não foi do moço inutil o transporte,

Que a Bella entre seus braços estreitada;

Ou fosse por que assim o quiz a sorte,

Ou milagre de amor: reanimada,

De subito escapando ás mãos da morte.

Move o collo, ergue a frente debruçada,

Cessa a suffocação, livre respira,

Abre os formosos olhos, e suspira.

Na mesma situação mais de um instante

Um e outro ficaram sem fallar-se;

Elle de puro goso delirante,

Ella como quem busca recordar-se:

Mas breve de Ruy vendo o semblante,

Sentindo entre seus braços estreitar-se,

D'elles se arranca, e em pranto debulhada,

Fallando assim, lhe cahe aos pés prostrada.

«Oh tu, quem quer que sejas, se a piedade

«Entrada pode ter dentro em teu peito,

«De uma innocente a misera orfandade,

«Desamparo, e miseria tem respeito!

«Sei que cahi na tua potestade;

«Mas antes de sentir o seu effeito

«Morrerei!......» Disse, e as renascidas rosas

Pudibunda escondeu nas mãos formosas.

«Que do Deus que nos ouve um raio ardente

«Te vingue, e me anniquille neste instante,

«Se um sentimento indigno esta alma sente

«De que haja de córar o teu semblante!

«Perde o terror, oh Virgem, tens presente

«Um amigo, um irmão cuja constante

«Ambição será só de obedecer-te

«E contra qualquer perigo defender-te!»

Assim fallou Ruy, e alevantando

A prostrada Fatima, em mil maneiras

Foi seu terror primeiro dissipando,

Com gestos, com palavras verdadeiras.

N'um penedo que cobre o musgo brando

A Virgem se assentou, co'as lisongeiras

Expressões de Ruy cobrando alento,

Sentiu raiar a esperança em seu tormento.

FIM DO SEGUNDO CANTO.

CANTO TERCEIRO.

Onde está aquella imagem pura, e bella

Artificio divino entre nós raro?

Onde aquelle olhar brando, que tão caro

Me foi, e o resplendor de hua e outra estrella?

Ferreira, Soneto, 15.º

FATIMA

Cavalleiro, se é verdade

«O que acabas de dizer,

«Na minha triste orfandade

«Só tu me podes valer.

«Não buscarei disfarçar-te

«Qual é minha condição,

«De tudo vou informar-te,

«Ou sejas sincero, ou não.

«Nas terras da Andaluzia

«Mouro altivo me gerou,

«Cujo nome e valentia

«Longe a fama propagou.

«De seu braço o nobre Ismar

«Conhecendo a fortaleza,

«D'estes muros confiar

«Quiz a guarda e a defeza.

«Do Téjo a margem deixada,

«Onde outra arce regia,

«Mandou-me vir malfadada

«Para a sua companhia.

«Sobre o perigo a que me expunha

«Saudade lhe déra antolhos,

«Que elle em mim seu prazer punha,

«Que eu era a luz dos seus olhos!

«Nascendo perdi a Madre,

«Que em seu seio me formou;

«Mas achei tudo no Padre

«Que amoroso me creou.

«Quer na tregoa socegado,

«Quer na fadiga guerreira,

«Jámais fui d'elle apartada,

«Antes sempre a companheira.

«Quando, ainda tenra infante,

«Nos campos o acompanhava,

«Sobre o cavallo possante

«Um captivo me tomava;

«E quando em forças crescida

«Quiz-me elle mesmo ensinar

«A tomar nas mãos a brida,

«Os ginetes a domar.

«Ora correr me fazia,

«Dado ao venatorio trato,

«O gamo, que parecia

«Nadar nas pontas do matto;

«Ora..... Mas ha! que aproveita

«Recordar carinho seu?....

«Minha desgraça é perfeita,

«Já não vive o Padre meu!

«Não vive; que se vivêra

«Por certo que a filha cára

«O seu braço soccorrêra,

«E a todo o custo a salvára!

«Hauzeri meu Padre é morto!...

«Cavalleiro, ah por piedade,

«Se desejas dar conforto

«Á minha dura anciedade,

«Corre ao campo da batalha,

«Ao posto o mais arriscado,

«Lá na torre, ou na muralha

«Acha-lo-has traspassado.

«Do seu escudo brilhante

«Aro de ouro em torno gira,

«De ouro e purpura o turbante

«Tem por tope uma saphira:

«É seu alfange pendente

«De rico talim bordado,

«Obra da filha, e presente

«Destinado a melhor fado!

«Corre, corre, cavalleiro,

«Se tens de mim compaixão,

«Se teu peito é verdadeiro,

«Se te doe minha afflicção:

«Busca o cadaver querido,

«Faze-o á filha entregar;

«Que eu possa o sangue espargido

«Com o triste pranto lavar:

«Que eu possa triste e mesquinha

«Dar seu corpo á terra dura,

«E de quanto caro eu tinha

«Expirar na sepultura!»

Assim a Virgem moura se exprimia,

Mais de um suspiro as vozes lhe cortava,

E o pranto, que dos olhos lhe corria,

Da linda face as rosas lhe banhava.

O mancebo dos labios seus pendia

Que no ardor de servi-la se abrazava,

E mal ella acabou, aos pés prostrado,

D'esta sorte lhe volve transportado:

«Por piedade, anjo de graça,

«Mitiga a acerba afflicção

«Que a alma me despedaça,

«Que me parte o coração.

«Salvarei, pois o desejas,

«Esses despojos presados;

«E se ao furor das peleijas,

«Foram seus dias poupados,

«Verás teu pai a teu lado,

«Oh bella, n'um curto instante:

«Feliz de adoçar teu fado

«O teu extremoso amante!»

No semblante da Virgem peregrina

Rubor vivo a taes vozes apparece;

Qual ao raiar da aurora purpurina

A viva côr nas nuvens resplandece;

Em seu peito porem, que a dôr domina,

A surpreza de prompto se esvaece,

Com gesto firme, e com solemne accento

Confirma assim do moço o nobre intento.

«Cavalleiro generoso,

«Segue o proposito teu.

«Se o ceo para mim piedoso

«Salvo tem o Padre meu,

«Se ve-lo, abraça-lo ainda

«Eu dever a teu cuidado

«Pela gratidão infinda

«Terás meu peito ligado;

«Mas se o Padre, vivo, ou morto,

«Me não fôr restituido,

«Não busques p'ra mim conforto,

«Meu fado ha de ser cumprido.

«Jámais Fatima opprimida

«Escrava de um vencedor,

«A tal extremo abatida

«Servirá sob um senhor;

«Que antes de ver-me aviltada

«Saberei da abjecta sorte,

«Da condição exasperada,

«Achar allivio na morte.»

«Não por certo, exclama o moço

Prompto o corpo alevantando,

«Se teu mal prevenir posso,

«Eu vôo já ao teu mando.

«Alenta o peito formoso,

«Minóra tanta afflicção,

«Confia no ceo piedoso,

«Angelica perfeição;

«Que aqui pela chamma ardente,

«Que n'este peito ateaste,

«Juro, que ante o Sol nascente

«Verás esse que choraste.»

Diz, e qual parte a pedra sibilante

Da volteada funda despedida,

De Fatima veloz parte o amante,

Obedecendo á ordem recebida,

De penhasco em penhasco salta avante,

Desdenhando escolher senda seguida,

Chega ao Castello, ao campo de batalha,

Ás torres, á mortifera muralha.

Uma vez, outra vez corre o recinto;

Mas em vão, com o empenho não atina.

Cada corpo examina em sangue tinto,

Busca de balde, e em buscar se obstina;

É mais forte o amor do que o instincto,

Entre as scenas de horror, entre a ruina

Só Fatima divisa e seu tormento,

Suffoca amor todo o outro sentimento.

Desenganado de que em vão procura,

Volve Ruy ao centro do Castello,

Com um facho acceso desce á cella escura

D'onde ha pouco arrancára o fardo bello;

Interroga os soldados, a armadura

De Hauzeri lhes descreve; mas de ve-lo

Nenhum lhe dá signaes; exasperado

Volta outra vez ao campo ensanguentado.

Na pesquiza injucunda em vão porfia,

Inutil tedio! infructuosa lida!

Nem novas nem signaes achar podia,

Nenhuns ha de Hauzeri morto, ou com vida.

No emtanto com o raiar de novo dia

Era a Lua no brilho amortecida,

E as estrellas mais proximas do oriente

Se engolfavam na luz do Sol nascente.

Do mancebo o valor succumbe á ideia

Da exasp'ração do ser idolatrado;

Fatima de antemão de afflicção cheia

Contempla em todo o peso de seu fado.

Por ve-la anhella; mas ve-la receia,

Receia o seu pesar exasperado,

Vacilla, treme; mas amor o excita

E da matta na senda o precipita.

As muralhas transpõe, na brenha escura

Já seus tremulos passos avançavam,

Receio, impaciencia, horror, ternura

Em tropel dentro n'alma lhe luctavam;

Tanto mais progredia na espessura

Tanto mais seus transportes se exaltavam,

Os pensamentos se lhe confundiam,

E convulsos os membros lhe tremiam.

Fóra de si, sem tino, e delirante

Chega emfim ao logar onde deixára

O prodigio de amor, cujo semblante

De todo o ser antigo lhe mudára......

Mas, oh pungente dôr! funesto instante!

É deserto o penedo..... a forma rara

Se esvaeceu na sua ausencia breve,

Qual com o romper do dia o sonho leve.

Ligeira barca, que a favor do vento,

Em demanda da praia desejada,

Vai rapida cortando o salso argento,

Deixando apoz a esteira prolongada,

Perde o impulso, a força, o movimento,

Em banco ignoto subito encalhada:

Tal fica aniquilado, immovel, quedo

O surpreso Ruy ante o penedo.

Mas depois, prolongando um doce engano,

Luctando ainda contra a desventura,

Pela Moura clamando, o moço insano

Discorre aquem e alem pela espessura;

Porem o infausto, extremo desengano

Não pode recusar, quando a verdura,

Já pelo Sol nascido alumiada,

Se lhe antolha deserta, abandonada.

«Tudo perdi, desgraçado,

Exclama o moço insensato,

«Só n'esta alma o seu retrato

«Dura com fogo gravado!

«Chamma horrivel me devóra,

«Fogo intenso, fogo interno!

«Tu foges impia e traidora,

«Deixas em meu peito o inferno!

«Como?... com quem?... para onde!...

«Serpe em meu seio esquecida!

«Que valle, ou que serra esconde,

«Perversa, a tua fugida?.....

«Juro pela fé sagrada,

«Que de meus avós herdei,

«Que em tua raça odiada

«Meu tormento vingarei!

«Dos teus no perfido sangue

«Este ferro hei de ensopa-lo,

«De teu pai no corpo exangue

«Hei de a teus olhos crava-lo!

«Salvei-te a vida, e meus dias

«Daria por defender-te,

«Mal teu desejo enuncias,

«Prompto vôo a obedecer-te.

«Volvo de amor transportado,

«De puro extremo incendido;

«Sou trahido, abandonado,

«Enganado, escarnecido!......

«Nem se quer um monumento

«Restará de opprobrio tanto;

«Nem tu, oh musgoso assento,

«Nem tu, oh viçoso manto.

Isto diz... Desatinado

Prostra co'a espada a verdura.

Fere fogo o aço temp'rado

Percutindo a pedra dura.

Qual cão, de raiva atacado,

Distilando a baba impura,

Tinto em sangue o olho ardente,

Té na pedra imprime o dente;

Ou qual o touro insofrido,

A crú jogo abandonado,

Ardente dardo incendido

Tendo no corpo cravado,

Salta, brame, urra, e pungido

Do fogo sempre ateado,

Em corcovos accommette,

E contra a têa arremette:

Tal o moço furioso

Musgo, relva, arbustos, flores,

Prostra, arranca, impetuoso

Nada poupa em seus furores;

Té que emfim com gesto iroso

Volve espaldas aos verdores,

E do sitio triste, e infausto

Se arranca de força exhausto.

Affonso, em tanto, em pompa respeitosa

Dos ministros de Deus marcha cercado

Á capella da Virgem gloriosa,

Que no forte Castello havia alçado.

Segue-o dos seus a turba numerosa

Exultando por ver desagravado

Do insulto agareno o logar santo

Com o christão sacrificio sacrosanto.

Já tinham descendido a curta escada,

Que ao pavimento interno conduzia,

Da porta o cume agudo transpassado

Onde esculptado o Trino Deus se via;

Co'a sagrada aspersão tinham mundado

Do sacro pavimento a lagem fria,

Em canto baixo e triste repetido

Psalmo do Rei profeta arrependido.

O merencorio som no templo escuro

Vagaroso, e solemne resoava,

Á piedosa effusão de um zelo puro

Devota a multidão se abandonava;

Quando Ruy com passo mal seguro

Do Castello nos muros penetrava

E levado da lugubre harmonia

Na Capella entre os mais se confundia.

Neste mesmo momento o Celebrante

Ante o altar sagrado reverente

Se inclinava, e o povo circumstante

Baixava até á terra humilde a frente.

A tal vista o mancebo delirante

Seu barbaro furor desmaiar sente,

Sente expirar a raiva, e a fereza,

Trocar-se a ira em luto e em tristeza.

Os musculos contractos se relaxam,

A frente, hirta até alli, no peito inclina,

Sobre os olhos as palpebras se abaixam,

O fogo abrazador cede e declina.

Não de outra sorte as plantas vigor acham

Do orvalho na frescura matutina,

Como adoça ao mancebo o horrendo estado

A pompa augusta, o cantico sagrado.

Tal quando arrebatado, e possuido

De furias infernaes, castigo horrendo,

O do povo de Deus primeiro ungido,

Co'espirito das trévas combatendo,

Fora de si, convulso, enfurecido,

Se estava entre agonias debatendo,

Da harpa de David a melodia

Seu soffrimento acerbo adormecia.

Findou porem a pompa veneranda,

Os canticos, e os ritos terminaram;

E em alas logo de uma e outra banda

Do vestibulo as gentes se formaram;

Ao pio vencedor que os rege e manda

Mil triumfaes applausos elevaram;

E em marcha triumfal, dos seus seguido,

É Affonso ao Alcacer conduzido.

Alli chegado, próve na defeza

Dos muros novamente conquistados,

Para que nem por força, nem surpreza

Possam mais ser dos mouros retomados.

Confia defender-lhe a fortaleza

Ao valor de Monteiro, e seus soldados,

Em vez de Payo, que perdido a havia

De Theotonio co'a gente a quem regia.

Mas já n'aquelle tempo o Prior Santo,

Que tal era o pensar n'aquella idade!

O baculo depondo, e o sacro manto,

Alliando a vingança co'a piedade,

Entre os mouros fizera estrago tanto

Em despique da perda da Cidade,

Que em Arronches, por elle aos seus rendida,

Fôra de Affonso a lei reconhecida.

Ao tempo em que entre os sabios conselheiros

O Rei a paz e a guerra discutia,

E ao longo das muralhas os guerreiros

Folgavam da conquista na alegria;

Ruy, a joven flôr dos escudeiros,

Monta o cavallo, que da Andaluzia

Aos corceis os mais bellos fôra inveja

Do manejo na pompa, ou na peleija.

Mas não sustenta o moço a redea leve

Co'a costumada e dextra gentileza,

Que ao soberbo animal motos prescreve

Que lhe dobram as graças e a belleza,

Deixa-a pender no collo airoso e breve,

E submergido em lugubre tristeza,

Sair faz ao acaso o bruto bello

Pela primeira porta do Castello.

O bruto a mão usada não sentindo

Co'a frente baixa o trilho proseguia,

Tardo no passo, o collo distendido,

Partir do damno as magoas parecia;

Abandonado a si, não conduzido,

Do Lena para a margem progredia;

No sitio onde hoje sua perenne fonte

Transpõe o passageiro sobre a ponte.

O quadrupede docil, como esp'rando

A lei de seu senhor na fresca borda

Um momento parou, e o moço olhando

Com torvos olhos, como quem acorda

De sonho ingrato, e á rasão tomando,

Móres penas reaes sente, e recorda,

Distrahido lhe affaga o collo, e clina,

E para a dextra a leve redea inclina.

Não longe do logar onde se achava

Graciosa a corrente se torcia,

Alli viçosa a margem se adornava

Das plantas, que o remanso mais nutria,

Com graça ao lado opposto se elevava

Um mamillo gentil, donde surdia

Um fio de agua clara murmurando

Qual rôla entre a verdura suspirando.

A curta elevação faz que se aviste

D'alli do valle ameno a gentileza,

Ondulado terreno em frente existe

D'onde o cultura tem banido a asp'reza,

Alternada co'a vinha alli subsiste

A pallida oliveira, e a riqueza

Da loura Ceres; fecha o quadro bello

Do ceo sobre o azul negro o Castello.

Aqui pára Ruy e desmontando

A um ramo o corcel liga, e lentamente

Vai a placida fonte procurando

Onde só gemer possa livremente;

Mas junto um peregrino vê, tomando

A simples refeição, na herva jacente

Seu pobre alforje está desenvolvido,

Viatorio bordão jaz estendido.

A gorra de aba espaçosa

Calva a frente lhe obumbrava,

A concha da praia ondosa

O capello lhe adornava;

De uma correia nodosa,

Que o pardo saio apertava,

Pendente a cabaça tinha

Que a bebida em si continha.

Escravo por longos annos

De um mouro, que o captivára,

Mão gentil da sorte os damnos

Compassiva lhe adoçára.

Quebrou-lhe os ferros tyrannos;

E liberto lhe inspirára

Sua devoção singella

Ir romeiro a Compostella.

Tal se mostrava o Romeiro,

Que assim Ruy saudou:

«Deus vos salve, Cavalleiro,

«Vosso humilde servo sou.

«Se do trato meu grosseiro,

«Que aqui consumindo estou,

«Vos pode o uso ser grato,

«Partiremos do meu trato.

RUY.

«Graças mil bom peregrino,

«Deus vos dê feliz successo

«Até o vosso destino

«E bem assim no regresso.

«Ao Apostolo divino

«Bom Romeiro o que vos peço

«É que na vossa oração

«Vos alembreis d'este irmão.

ROMEIRO.

«Dizei-me, bom Cavalleiro,

«Se com o nosso Rei andais,

«De Pedro Affonso o escudeiro

«Que nome tem, que signaes?

«Dizem-me ser tão guerreiro,

«De tal pórte, e de obras taes

«Que as gentes na lide espanta

«E fóra d'ella as encanta.

RUY.

«Esse escudeiro que dizes

«De Ruy o nome tem,

«Dos signaes para que ajuizes

«Elle mesmo a ver-te vem.

«Mais não busques nem pesquizes

«Novas; se as trazes de alguem,

«Falla palavras seguras

«Que eu sou esse que procuras.

ROMEIRO.

A nova de que ora tracto,

Senhor, é tão delicada,

Que heis perdoar o recato

Com que ha de ser confiada.

Dizei-me, onde existe um matto

Com um penedo musgado,

Onde na noute apparecem

Sombras que se desvanecem?

RUY.

Onde existe?...... O atrevimento

Quem te deu de pergunta-lo

Venha de sangue sedento

Em proprio, e armado indaga-lo;

Que á face do firmamento

Eu juro que hei de ensina-lo

A não juntar a ousadia

Á mais baixa covardia!

ROMEIRO.

Por Christo! não te enfureças

Escudeiro generoso,

P'ra que a verdade conheças

Traz-me acaso venturoso.

As apparencias são essas,

Mas em caso duvidoso

Quem a apparencias se afferra

Muitas vezes troca e erra.

Attenta no que te digo

Que quem partiu me dictou:

--Tu me salvaste de um p'rigo

A que o padre me guiou,

Fujo-te, o padre é quem sigo,

Foi elle quem te espiou,

Quem te seguiu á espessura

Da noute na sombra escura.

Mal par'o buscar te apartaste

O Padre me appareceu,

Tu enganado ficaste

Só elle o engano teceu;

Mas se acaso te agastaste

Com este proceder meu

Sabe que maior desgraça

Do que a tua em mim se passa.

Essa, que p'ra sempre grata

Te prometteu jurou ser,

Bem longe de ser ingrata,

Vai muito além do dever;

Amor a consume, e a mata,

E se t'o ousa dizer

É com a esperança perdida

De mais t'o dizer na vida.

Distancia, muralha armada

E das seitas o rancôr

Com barreira triplicada

Circumdam a sua dôr:

De saudades definhada

Triste victima de amor

Será de Fatima a sorte

Suspirar até á morte.--

Assim carpindo a formosa

Ouvi, que nunca enganou,

Essa cuja voz piedosa

Liberdade me alcançou,

Ouvi-lhe a queixa afanosa

Que puro amor lhe arrancou.

Ah! possa Deus por ti mandar-lhe um dia

A paz no ceo, na terra a alegria.»--

Ruy o escudeiro: Conto · 第 1 / 3 段