VII

E uma voz exclamava: Oh! quanto eu soffro, Deus meu! Isto não terá fim?

Vós, Senhor, que me atirastes ignorante a um mundo escuro, não me

julgaes, apoz tantos seculos, bastante castigado dos meus desvios d'um

dia?

E outra voz exclamava: Quando os meus peccados aqui me abysmaram, vossa

mão, ó Deus, me amparava, e me ampara ainda; e, assim mesmo, em logar de

diminuir, o meu supplicio augmenta. Soffro com quantos de longe

molestei: tenho fome com os que eu poderia fartar; tenho frio com os que

eu poderia vestir; peza sobre mim a cada hora e cada vez mais

esmagadora a carga de males que fiz pezar sobre outros. Multiplicaram-se

as minhas offensas como a herva sobre a minha campa esquecida, e as

minhas feridas sangram sempre, e as minhas chagas lavram sem cessar.

Isto é justo, meu Deus! Poderia eu ser feliz no céo, se visse o effeito

de minhas obras? Em quanto fructifica a arvore fatal que plantei na

terra, puni-me, Senhor! Mas não me tireis a esperança! O pouquinho bem

que fiz na vida não germinará nem cobrirá, se o permittirdes, os

vestigios das minhas iniquidades? Oh! quando nenhum ente vivo, n'algum

logar do mundo, já não podér imputar-me seus soffrimentos, tende então

piedade de mim, meu Deus!

E todas as almas peccadoras, unindo-se em um brado de misericordia,

repetiram juntas, lá das reconditas profundezas: Tende piedade de mim!

Tende piedade de mim!

Esta supplica em commum era a um tempo tão suave e dilacerante que eu

imaginei que o ceo se abriria. Mas a noite que me envolvia espessou-se

mais glacial; e o abysmo emmudeceu; e, apoz um instante de esperança,

continuou a lamentar-se, correndo como o oceano nas fragarias da costa.

Ai! ai!--conclamavam os gritos que se extinguiam soluçando--é surdo o

céo! é surdo o céo!

Nunca! nunca!--diziam outras vozes--Nunca! nunca! Meu Deus, que resposta

á dôr! Nunca! nunca!

Descançai, filhos!--bradou um condemnado, que se me figurou, no tom de

voz, ser um dos patriarchas do abysmo--Não profirais essa palavra

horrida. Ahi sôa em vossos pobres seios um ecco das maldições da terra,

e não palavra descida do céo. Ha mais de mil annos que padeço, e oro, e

escuto o céo, e não ouço a resposta. Oremos, oremos sempre!

E o ancião entoou um cantico; e, ao primeiro versiculo, parou e

debulhou-se em lagrimas.

Ai!--ressoavam ao longe milhões de almas gementes--Ai! o céo é surdo! o

céo é surdo!

N'este lance, uma voz sobrelevou a todas, dizendo:--Ensinai-nos, ao

menos, Senhor, a utilidade dos padecimentos. Se nos perdoasseis, acaso a

vossa gloria padeceria com isso? A felicidade dos justos soffreria

diminuição? Revoltar-se-hiam elles contra vós? Logo que as creaturas

entraram á vossa presença, não se lhes acrisolaram os sentimentos de

piedade? O padre que me estendia a mão quando era mortal e sujeito ao

peccado, a esposa que eu amava, a mãe que me gerou, os amigos que me

trahiram e aos quaes perdoei, os pobres que soccorri, e uma filha

ingrata e amada a quem eu daria a comer o meu coração em ancias de fome,

nem essa, ninguem vos intercede por mim? Hontem oravam elles quando eu

me rejubilava nas culpas; pranteavam-me vivo e oravam por mim; e hoje

esquecem-me, pendem para o crime, fogem da dôr; o amor a quem soffre e

geme é sentimento ephemero, que vai mal para entes bemaventurados.

E a voz que fallava assim ergueu-se ainda para amaldiçoar, mas

falleceu-lhe a força, e á maneira do vagalhão que rossa a nuvem

rugindo, subita recaiu e expirou em prolongado gemido.

Mas logo um brado novo retumba mais estridente ainda, e, eu, ouvindo-o,

não distinguia se era oração, se blasphemia.

E bradava:--Creio na vossa justiça, meu Deus; mas deixai-me crêr na

vossa misericordia. Não é ella tão infinita como a vossa justiça? Não é

eterna? Se me perdoaveis quando eu estava na terra, porque não me

perdoais aqui? Se eu sou o mesmo peccador, não sois vós o mesmo Deus? E,

se a morte me mudou, pôde a morte d'um ente como eu mudar a vossa

immutavel natureza? Cansou-se acaso a vossa bondade? Exhauriu-se? Sois

vós susceptivel de cansaço? E, se alguma de vossas virtudes é

transitoria, de circumstancia e occasional, é forçoso que seja a

bondade, aquella ineffavel bondade que nós ignorantemente consideravamos

lá em cima a mesma essencial e inalteravel virtude vossa! Se assim

é--proseguiu a voz desesperada--anniquilai-me, Deus Omnipotente! Esta

existencia é inutil; sou de mais no universo. Que lucraes com as minhas

dôres? Tendes precisão d'ellas? Retomai esta vida de que sem duvida

abusei, e esta intelligencia que perverti; apagai em mim esta luz, visto

que principiam a rasgar-se os veos que a escurentavam.

Tirai-me a lembrança do céo, a ancia de ser feliz, a necessidade d'amar,

a necessidade de saber; tirai-me, sobre tudo, por piedade, o sentimento

da justiça, porque eu não sou Deus, e a vossa justiça é um

mysterio, e contra minha vontade, a blasphemarei. Deixai-me morrer, ó

Deus! Deixai morrer quem soffre! Matai o peccado incuravel e a dôr

esteril, a fim de que na creação não haja um só atomo que não palpite de

reconhecimento e alegria, ao ouvir o vosso nome santissimo.

E um clamor horrendo abafou a voz que fallava; e, d'um angulo a outro do

abysmo, todas as almas em tortura escabujavam, rogando a Deus que as

deixasse morrer. E pediam a morte como os famintos mendigam pão;

chamavam-na com os gritos da mulher em angustias de parto do seu

primogenito, com a dôr da victima na fogueira, com o rugido da leôa que

perdeu os cachorros, com o balido do cordeirinho que procura a mãe. E eu

tambem a chamava, e me pareceu vêl-a aproximar-se, e beijei-lhe a mão

glacial; e, quando me sentia morrer, despertei.

O Inferno · 第 108 / 158 题