IV

Acabava eu de lêr, agitado, aquella pagina, quando a viuva recuperou os

sentidos; mas quasi mentecapta. Exclamava ella que tinha a certeza de

seu marido ter sido condemnado, por que não acreditava em tudo que a

egreja ensinava, e morrêra sem confissão; accrescentava que o marido era

bom para ella e para todos; que, ainda mesmo que a houvesse offendido,

lhe perdoava pelo muito que elle estava padecendo, e que desejava ir

juntar-se-lhe e consolal-o no inferno. Fallava em matar-se para mais

depressa o vêr; e, dizendo isto, aconchegava o filho do seio,

sorria-lhe, beijava-o convulsivamente, em duvida se devia matal-o; por

quanto, dizia ella, o menino iria ao paraizo, se morresse então; e não

se veriam mais, desejando ella leval-o ao pae.

Assim que ouvi os gritos, sahi do quarto mortuario para soccorrer, se

fosse preciso, aquella afflicta gente, sobrecarregada com outra

desgraça. Cercamos a joven viuva, vigiando angustiosamente os seus

menores movimentos, por medo de que ella não praticasse algum acto de

desesperação, de que dera mostras. Quizemos tirar-lhe o filho; mas ella

dava ares de querer afogal-o antes que lh'o tirassem. Parecia já mais

tranquilla que todos nós. Desfigurou-se-lhe cadavericamente o

semblante; os olhos porém brilhavam, e o sorrir tinha um ar celestial.

Fallava sem cessar do marido, e do prazer que ella teria em acompanhal-o

no soffrimento. A mãe ajoelhou-se diante d'ella, que a levantou

amorosamente, rogando-lhe que não pedisse a Deus pela sua alma.

Conseguimos em fim separal-a do filho, e levamol-os um apoz outro, elle

já adormecido, e ella luctando comnosco, desgrenhada e rota. Seguiram-na

os parentes, e eu fiquei sósinho á beira do cadaver.

V

Bem desejava eu tambem saír: carecia de distrahir-me. Piedade, cólera,

fé, duvida, terror, mil contrarios sentimentos me agitavam, dos quaes eu

não podia defender-me ao pé do esquife, e depois de similhante

espectaculo! Encostei-me á banca onde estava deitado sobre uma alva

coberta um crucifixo de marfim, e, contemplando aquella divina imagem,

recolhi-me no mais intimo retrahimento d'alma. Perguntava eu a mim

mesmo, com o coração apertado, o que devia crer-se da vida e morte de

Christo, e se era certo que elle descesse do céo, como se dizia, para

assombrar os justos, desesperar os peccadores, e conturbar a razão dos

fracos. E a mim me quiz parecer que Jesus estava ali, e pensei vêl-o

chorar, e que uma de suas lagrimas resvalou sobre o _Quotidiano do

christão_, e tudo que eu havia lido n'aquelle livro subitamente se

desfez.

Estava ainda comtudo a minha alma perturbada. Interroguei o Christo. Não

me respondeu. Então entrei em duvida se eu estava adormecido ou

desperto. Vi--seria sonho?--um oceano de trevas alcantilar-se á volta de

mim, e no seio d'essa escuridão immensa lampejava um frouxo raio de luz.

E esta luz saia das fendas de um sepulchro, e Jesus estava deitado vivo

n'esse sepulchro. Eu quiz levantar a pedra que o cobria, mas uns

verdugos envoltos em trevas me deceparam as mãos; eu quiz balbuciar, e

arrancaram-me a lingua; e assim mutilado, cego e mudo senti-me

arrebatado e precipitado ás entranhas de um abysmo, e comprehendi que

estava no inferno. O meu unico soffrimento ahi era a cegueira, e a

espectativa anciadissima dos supplicios que me esperavam. E, como só

tivesse ouvidos para entender, escutei, e comprehendi o seguinte.

O Inferno · 第 106 / 158 题