Opinião dos judeus ácerca da vista interior do inferno.
Sabido é que o Antigo Testamento é muito sobrio de revelações do
inferno. Com muito custo se rebuscaram n'elle alguns versiculos
tendentes a estabelecer aquella crença entre os hebreus, antes da
destruição do primeiro templo. Os saduceos, que juravam sómente pela
Biblia, negavam absolutamente a vida futura. Ora, bastantes sabios
tinham os saduceos em conta de melhores interpretes da Biblia. Dizem
elles que os judeus, durante as tristezas do captiveiro, souberam da
bôcca dos magos a immortalidade da alma e a sciencia demonologica.
Todavia, Abrahão era chaldeo; os filhos de Jacob haviam longo tempo
estanciado no Egypto;--isto dá a crer que os seus descendentes deviam
possuir, antes de exilados em Babylonia, parte dos conhecimentos
que os escripturistas registavam. Não exerciam os prophetas um ensino
mystico, e não conservava o povo tantas tradições grosseiras
contemporaneas de Moysés e talvez anteriores? As passagens respigadas na
escriptura e nomeadamente em Isaias, relativas ao inferno, seriam
inexplicaveis, se não se lhe referissem; mas seriam egualmente
inexplicaveis se o povo não tivesse, para intendel-as, mais luz da que
lhe dão essas passagens. Estes trechos não encerram doutrina secreta dos
prophetas, respeito á vida futura; contém mais referencias que
revelações á crença vulgar e formalissima do inferno.
O nome «Géhenna» que lá dão á paragem das expiações futuras, não era
estrangeiro; era o nome de um vale ao poente de Jerusalem, onde, desde a
origem de sua historia, iam os hebreus adorar Molock, e sacrificar-lhe
no fogo victimas humanas, e, ás vezes, seus proprios filhos. N'este
sitio, tambem denominado _Trophet_, ou «logar horrendo», eram lançados os
cadaveres dos justiçados e os despojos dos animaes. Este valle maldito,
sagrado pela superstição aos deuses sanguinarios, juncado de carnes
putridas e ossadas alvejantes, assombrado de larvas sinistras, resonante
de gemidos e rugidos, converteu-se para os moradores da cidade santa,
não já em verdadeiro inferno, mas no symbolo exterior e synonymo de
inferno. No inferno verdadeiro, ardiam Moloch e os seus idolatras na
mesma fogueira; os máos eram roidos pelos vermes; e estes vermes eram
immorredouros como as suas prêas:--idêas positivamente exprimidas
por Isaias, cap. LXVI, ultimo verso.
É egualmente certo que os rabbinos e tambem o povo, tão pouco iniciados
até então andavam na mystica philosophia, que, se alguma vez discutiam,
davam azo a que os prophetas se rissem ou indignassem; porém, depois que
os rabbinos e o povo se recolheram do captiveiro, as suas noções eram
mais amplas, e talvez as mesmas que se escondiam nas escólas do Carmelo
e de Galgala.
Vamos vêr quaes são as noções não contidas no Antigo Testamento, mas
traçadas manifestamente no Novo, as quaes, quando S. Paulo, S. Mathias,
S. João e outros apostolos escreviam, já se haviam derramado na Judea,
quinhentos ou mais annos antes.
Era dividido o Scheol, ou mundo futuro, em duas regiões, que
comprehendiam o paraiso e a géhenna. A géhenna, objecto d'este estudo,
era contada no numero das sete creações anteriores ao nosso universo. Á
similhança do Amenthi egypcio e do Naraka indiatico, era formada de
diversos circulos, mas só tinha sete, correspondendo aos sete dias do
Genesis, e aos sete ceos ou sete circulos do paraiso. Havia géhenna
superior e géhenna inferior. A superior abrangia os seis primeiros
circulos: era uma especie de purgatorio onde baixavam, depois da morte,
os peccadores dignos de perdão: uns ficavam no sexto, outros no quinto,
outros no quarto circulo, outros no primeiro, conforme a gravidade ou
leveza dos seus peccados. Trezentos e sessenta e cinco degráos,
correspondentes aos trezentos e sessenta e cinco peccados assignalados
pelos doutores, formavam escaleiras d'um circulo a outro, e em cada
circulo era mister passar trezentos e sessenta e cinco dias. Porém, os
grandes criminosos, abatidos sob o gravame de suas culpas, atravessavam,
sem poder parar e com a rapidez de pedra arrojada por funda, os seis
primeiros circulos da spiral, e cahiam no setimo, no fundo abysmo, na
géhenna inferior, d'onde não ha mais sahir. Á frente de suas legiões ahi
os recebia Samael, e então lhes começava o perpetuo supplicio, o insulto
dos diabos, a saudade da vida, o fogo interno e externo, o tormento da
sêde, e a miragem cruelissima que scintilla aos olhos dos peregrinos
agonisantes no deserto[5].
Taes eram, em resumo, as opiniões da synagoga ácerca do inferno.
Entretanto os essenios, seita monastica celibataria que vivia em commum
para espiritualmente se reproduzir, professavam outra. O inferno
d'elles, coisa notavel, similhava ao dos monges thibetanos; os
soffrimentos ahi eram calor e frio, e todas as intemperies das estações
em climas deseguaes.
Agora vejamos o inferno dos nossos theologos.
[5] O inferno mahometano é copia do judaico, mas copia singularmente
alterada. O anjo Trakek é quem lá governa. Ha lá chuva de peçonha.
Chama-se Géhenna e divide-se em sete circulos. Porém, exceptuado o
primeiro circulo, reservado exclusivamente para os musulmanos, e o
ultimo, destinado aos hypocritas, cada qual dos outros é pertencente
a cada uma das religiões diversas que precederam o islamismo. Estes
hereticos estão portanto em andares sobrepostos, quasi por ordem de
sua antiguidade: os christãos no segundo, os judeus no terceiro, os
sabeos no quarto, os guebros no quinto, os idolatras no sexto.
D'estes seis ultimos ninguem sahe: ahi é o verdadeiro inferno; mas o
primeiro, o circulo de honra dos crentes, é purgatorio, no dizer dos
doutores.