Opinião dos pagãos sobre a situação e vista interior do inferno

Os antigos situavam o inferno no centro da terra que habitamos, e

pretendiam ter a este respeito pormenores muito satisfatorios. Os gregos

e os romanos possuiam um mappa minucioso d'estas regiões subterraneas, a

ponto de lhes conhecerem os rios, taes como o lodoso Cocyto, o ardente

Phlegeton, e o invadiavel Acheronte; sabiam até que havia lá fetidas

lagôas, em uma das quaes estava Tantalo atascado até aos queixos sem

poder apagar a sêde; sabiam d'uns bosques medonhos em que certas almas

se lamuriavam, debalde anciando o alvor do dia; conheciam montanhas, que

outros condemnados, perseguidos pelas furias, em vão se esfalfavam por

galgar. Contavam a historia de alguns desgraçados assim, e as

particularidades do seu supplicio. Comtudo, apezar da indole

inteiramente physica d'aquelles diversos castigos, diziam que os

pacientes não tinham corpo, que os mortos eram apenas sombras

intangiveis, bem que animadas, e que o seu maximo tormento era não

poderem jámais viver vida carnal á luz do nosso sol. Isto contavam-no

elles com toda a certeza, fiados em pessoas que tinham descido ao

Tartaro, e de lá tinham voltado. Era conhecida a estrada por onde essas

pessoas tinham viajado; havia cavernas que os pastores conheciam, poços

d'onde sahiam vapores lethiferos e por onde se descia ao inferno.

Não eram menos instruidos os egypcios. Em assumpto de horrores visiveis,

o Amenthi havia emprestado ao Tartaro pavorosos quadros. N'este Amenthi,

que, segundo consta, quer dizer _paiz da noite_, estão o cão de sete

cabeças e outros deuses de feitios monstruosos. Ahi se encontra o

Acheronte e o seu batel, os marneis e as aridas gándaras, e todas as

figurações do mundo devastado.

Tem setenta e cinco circulos, e á entrada de cada circulo um genio

armado. Giram as almas d'um circulo n'outro, algumas em fórma humana,

outras com fórmas immundas, com cabeças de aves de rapina, pellagem de

fera, e garras de reptil. O pavimento é sangue. Estrondeiam os gemidos.

Pendem os condemnados dos ganchos á maneira de carneiros no açougue, ao

passo que outros, ainda palpitantes, são mergulhados em caldeirões

ferventes. Uns vão fugindo, com os braços estendidos, e a cabeça

quasi separada do tronco, outros levam nas proprias mãos o coração que

lhes arrancaram do peito que mostram lanhado.

Conforme nos vamos aproximando das primitivas civilisações, e, por

consequencia, do primitivo barbarismo, mais o genero humano parece

deliciar-se no repasto espectaculoso de seus proprios soffrimentos, e o

mundo invisivel é para elle um espelho de augmento das miserias e

torturas do mundo visivel.

Cada povo se espelha na imagem que nos deixou de seu inferno, com as

suas idêas moraes, leis, necessidades, com seus costumes, temperamento e

clima.

Nas serranias do Thibet, onde rapidamente se passa do mais rigoroso frio

ao mais suffocante calor, ensinam os lamas que o inferno, situado em

determinado logar da Asia umas tantas legoas da superficie da terra, é

formado de dezeseis circulos: oito onde se arde, oito onde se gela.

Nas esplanadas da India, onde não ha inverno, e onde as populações,

languidas de calor, corruptas pelas liberalidades da terra, apenas tem

phantasia para inventar prazeres e supplicios, dizem os brahmanes que

certos sitios do Naraka estão cheios de mosquitos, de serpentes

venenosas, de escorpiões horriveis, de tigres, de abutres e de todos os

flagellos proprios d'aquellas regiões ardentes; e que os outros circulos

são o theatro das mais requintadas torturas que ainda póde conceber a

malicia d'um rajah arrojado. Ahi os glotões são condemnados a

comer calháos asperrimos de puas agudas; os luxuriosos são apertados nos

braços de estatuas de ferro em braza.

Contam pelo miudo todas as circumstancias d'estes infinitos martyrios, e

taes narrativas fariam impallidecer Ixion sobre a sua roda, Sizipho

debaixo do seu penedo. Sabem os hindostanicos pelos livros e pela

tradição em que ponto da sua terra está situado o Naraka e a que

profundeza se encontra. Mas não podem os mortos encerrados ahi achar os

limites e as portas d'aquelle inferno.

No inferno dos scandinavos, chamado Nifleim, não ha fogo. Essas antigas

nações do norte gostam tanto de calor, que não poderam consideral-o um

supplicio; pelo que o seu inferno é de neve, onde ha o tiritar, a fome,

a febre, a velhice tremente, as torrentes glaciaes, as tempestades, o

uivar dos lobos, o pavor que estaleja os dentes, e os cobardes, unicos

condemnados que ahi vão.

Concluamos esta historia, que daria assumpto para um livro. As reflexões

moraes que ella suscita vão breve ser applicadas na descripção do nosso

proprio inferno, que na essencia não se distingue dos infernos pagãos.

Porém, sendo elle procedente do inferno judaico, paremos diante

d'este.

O Inferno · 第 74 / 158 题