O grupo dos santos

Chegados somos aos bemfeitores dos homens, verdadeiros imitadores de

Jesus, entes mortaes mais proximos da perfeição, as irmãs da caridade,

os padres virtuosos, quantos se consagram a servir pobres, infermos,

ignorantes; quantos sacrificam, não esterilmente, mas ás nossas

precisões, seus teres, belleza, juventude, affeições domesticas, vigor,

saude, esperanças e quantas venturas terrenas ahi ha. Bem sei que todos

esses crêem no inferno; mas não são regidos por tal crença; nada tem que

vêr o seu proceder com ella; temem-se de offender Deus, não por que Deus

é vingativo, mas antes por que Deus perdôa; e esta crença

verdadeiramente salutar é uma das mais affectivas maneiras de

amar.

Se o temor leva ao deserto, o amor conduz aos homens; se o temor se

fecha á chave para dentro de grades, o amor quer sempre abertas as

portas. Quem envia ao martyrio os missionarios é o amor; quem dá mãe a

orphãos, filhas aos anciãos, irmãs aos soldados feridos, mestres aos

aldeãos, amigos aos penitentes, tutores aos innocentes, guias aos

transviados, é o amor. Todo bem feito n'este mundo é o amor que o faz; e

este amor, que transborda da alma dos santos, em si mesmo haure sua

fecundidade e bemfazeja energia.

Permittam-me uma hypothese.

Dê-se que um Concilio ecumenico se ajunta ámanhã, e declara, depois de

haver invocado o Espirito Santo, que o inferno não é perpetuo, e que a

palavra «eternidade», applicada ao castigo dos peccadores, significa tão

sómente pena de infinita duração. Que ha de seguir-se a similhante

proclamação? Imaginam que a irmã da caridade se retira logo do grabato

do infermo, e se engolpha nas suas delicias mundanaes? Pensam que o

benedictino, sacudindo o pó dos livros, se precipita na Bolsa? Que o

joven lazarista, repatriando-se de regiões remotas, venderia o cajado e

o breviario para ir ao theatro? Imaginam de boa fé que as irmãs da

caridade se acabariam para logo? Se pensam isto, que idêa formam dessas

bonissimas almas que os anjos e os homens admiram?

Consoante ao vosso modo de as julgar, a irmã da caridade diria: Ah! Deus

não é implacavel? Então fui louca em amal-o. Deus não condemna

irremissivelmente os peccadores? Louca fui em servil-o. Pois que!

n'aquella bemaventurada eternidade, que eu tanto anhelava, não hei de

ouvir os gritos da raiva e o estridor dos dentes dos condemnados? Que é

d'então dos encantos do paraiso? Meninos, procurem quem os eduque;

anciãos, procurem quem os alimente. Orphãosinhos desamparados, vós

pensaveis que nós eramos vossas mães e irmãs; cuidaveis que vos amavamos

por causa de vosso infortunio, e por vos termos em conta de membros

soffredores de Jesus Christo, nosso modêlo e nosso Deus. Desenganai-vos!

desenganai-vos! Não era por amor que vos amparavamos, era por medo que

vos serviamos como lividas escravas, covardemente flexiveis a todos os

caprichos de um senhor imperioso. Mas agora, visto dizerem-nos que o

inferno acaba, buscai quem vos ame e sirva. Cada qual por si. Acabou-se

o medo; nada de mais sacrificios. Abaixo, tunicas de burel; abaixo, veos

que nos escondieis volupias da terra, mas não as dôres, abaixo! A pureza

não é enlevo que nos contenha; gemidos de pobres não nos engodam;

queremos ter vez na taça do peccado; bebamos, que a vida é curta e o

inferno ha de acabar.

Não ha conjunctura em que eu ousasse attribuir similhante linguagem ás

irmãs da caridade. Nunca! ainda quando, em um nefasto dia, fosse abolido

o dogma salutar da justiça divina; ainda quando pregoassem que

tudo acaba no cemiterio, e que a sancção da moral está nos gosos e dôres

deste mundo, as irmãs da caridade não fallariam assim. Se um concilio

sahisse com aquellas decisões, regulal-o-hiam ellas.

Como é que o dogma do purgatorio, com seus flagellos de duração

ignorada, sempre consoantes á natureza e circumstancias do peccado, ás

luzes e costumes do peccador,--como é que este dogma tão racional,

certo, mysterioso e terrivel, poderia enfraquecer a virtude, e a virtude

principalmente d'aquellas almas livres, viris e modestas, nas quaes o

amor tem mais dominio que o medo?

Crêde-me que é isso um demasiado aviltar a lama humana, que mostraes não

conhecer; crêde-me. Se a Igreja ámanhã proclamasse a temporalidade das

penas, nenhuma irmã da caridade deslisaria da sua fileira, nem um

verdadeiro sacerdote abandonaria a sua grei, nem algum missionario

acharia o Evangelho desataviado de excellencias que ensinar aos

selvagens, nem a cruz radiaria menos, nem a palma dos martyres seria

menos de invejar. Vêr-se-hia, ao invez e instantaneamente, encherem-se

todas as igrejas, e justos e peccadores reunidos ao pé do altar, em um

mesmo consenso de acção de graças, cantarem do fundo da alma:

_Te-Deum, laudamus, in te, Domine, speravi; non confundebar in æternum._

O Inferno · 第 68 / 158 题