O grupo dos devotos

Será medo do inferno que impede os devotos de matar, de roubar, de se

retoiçarem, como javardos, no lamaçal dos sentidos? Crer-se-ha que elles

de per si sejam insensiveis á honra, ao opprobio, e aos mais

freios moraes e nobres estimulos que regulam a ordem e andamento das

sociedades temporaes? Ririam elles das galés e até da forca? Seriam

elles, em verdade, infames da ultima ralé, se não receassem a

condemnação?

Se ha ahi tal raça de christãos, confesso que eu não confiaria d'elles

nada, nem a minha bolsa, nem minha mulher, nem o meu segredo, nem eu

mesmo adormeceria socegado entre elles. D'um scelerado a um devoto

d'esta laia a distancia é tão curta que os meus pobres olhos não na

enxergam. Dizem que ha uns pessimos soldados que, á vista do inimigo,

olham para traz e só marcham para a frente com a bayoneta nos rins. E,

se os não vigiaes, eil-os que desertam; e, até quando se batem, albergam

a perfidia no coração. Pois bem: aquelles devotos são peores que os

soldados tredos, por que destemem os homens e os juizos humanos, e os

supplicios que os homens inventaram. O que elles sómente receiam é o

fogo eterno, uma pena á qual se foge mediante a confissão. Ageitado o

ensejo, roubam-vos, atraiçoam-vos, matam-vos, com a certeza de serem

absolvidos occultamente, por uma _mêa culpâ_. Desgraçadamente é certo que

a crença no inferno ha gerado monstros assim; a europa barbara tem

milhares d'elles; ha bastantes para lá dos montes, e bem póde ser que

mesmo cá; senão vejam aquelle devoto padre, cuja historia as gazetas

contaram ha pouco: era um padre que matava todos os seus filhos no

berço para se forrar ao incommodo de os crear; mas é provavel que os

baptisasse, com o receio de que se perdessem. Eu de mim não quero chamar

christãos, nem sequer homens, a taes feras. Deus nos livre de encontrar

similhantes christãos em uma serra por noite de luar.

A honestidade d'estes meus devotos custa-lhes pouco; são creaturinhas

que podem ver a felicidade dos outros sem sentirem cocegas de lh'a

empalmar; não roubam nem matam por que a forca os embaraça, e a opinião

dos homens ainda mais; pessoas, em fim, que tem mais mêdo ao crime que

aos castigos correspondentes. Taes são os meus devotos. Devotos denomino

eu todos os leigos que não duvidam, nem são indifferentes, nem se

esquecem de ir á missa, nem deixam de confessar-se _ao menos uma vez cada

anno_. É verdade que eu não os incampo a ninguem como anginhos já

cosinhados para a canonisação. Se elles não andassem por igrejas com

tanta regularidade, não sei bem como estremal-os, quanto ao seu

proceder, do bando dos indifferentes. Não são elles os derradeiros a

informar-se d'onde sopra o vento, onde aquece o sol, e onde está o idolo

do dia para o saudarem, nem tambem são os ultimos a apedrejar o idolo da

vespera. Quantas villanias sobre-douradas e quantas villanias bem nuas e

patentes lhes não attrahem as barretadas, e os cumprimenteiros sorrisos!

Como elles se curvam deante do que desprezam! Que impio acatamento

prestam á força, e até, com medo de se enganarem, ás apparencias

da força! Que vulgares mexericos, que vulgares ambiçõezinhas, que

exemplarissimas ingratidões!

Não os accuseis de hypocritas, que elles são sinceros, não fazem

momices, vão ás procissões com a melhor boa fé, assistem ás festas do

Mez de Maria, tem rosario, agnus-Dei, e penduram no pescoço medalhinhas

de cinco reis carregadas de indulgencias. E, assim mesmo apezar da sua

boa fé em medalhas, é bonito vêl-os, em sua casa, evitar o escandalo com

melhor exito, e mais vigilancia que o peccado. E nem assim o evitam. Se

sois curiosos, apanhai-m'os no ultimo degráo da escada, ahi por perto do

altar: vereis o conego ás más com o deão; o sineiro bate na mulher; o

sacristão tem má lingua; um juiz de irmandade casa a filha violentada

com um velho, e dá cabo d'ella; outro, á sobre-meza, faz-se truão de

chalaças de ebrio; e é de natureza tal, que a mulher por certas razões

não admitte em casa creadas que não tenham edade e figura bastante

canonicas, capazes de edificarem um mosteiro de bernardos; lá está um

que é rico, mas economico, e d'isso estão os pobres tristemente

convencidos. Ora, a esses peccados habituaes ajuntem, se quizerem, os

peccados de occasião, e digam-me como se distinguem, por suas obras, o

commum dos indifferentes do commum dos devotos.

Quereis subir ao primeiro degráo da escada? Luiz XI era devoto; Diana de

Poitiers era devota; Brantôme devoto era; tambem era devota aquella

regente de França que empregava as suas damas a seduzir, quero

dizer, a converter os jovens huguenots e os velhos tambem. Todo o seculo

XVII foi devoto, incluindo os cavalleiros farçolas, os bandidos, os

abbades galans e os abbades demoniacos, os aváros e os glotões, os

orgulhosos e os abjectos, as marquezas adulteras e os duques

medianeiros, os magistrados venaes e as princezas aventureiras. Todos

esses tinham bancada na egreja, iam aos sermões e discutiam ardentes

sobre a materia da graça. Os amantes arrufavam-se na quaresma e faziam

as pazes depois de Pascoa. Madame de Montespan, na côrte, cuidava em

salvar-se, e ninguem quizesse obrigal-a a comer, á sexta feira, uma aza

de borracho; o que ella então comia era salmão, lagostins, esperregado e

pastelinhos de leite. Madame de Sévigné, uma das mais honestas e amaveis

senhoras d'aquelle tempo, tambem devota, lia os _Contos de La Fontaine_, e

ficava-se a rir com elles e mais a filha. O inferno era como se nada

fosse n'essas coisas. Quem desgraçadamente pensava muito n'elle,

enterrava-se no claustro, como Mr. de Rancé e M.elle de La Vallière;

mas, pelo ordinario, havia pouco quem se debruçasse a espreitar o tal

abysmo; e quem se desse a esses exames sahia impertinente, misanthropo e

jansenista. Fallava-se do inferno; mas sem reflectir grande coisa;

encaravam-no pela casca. O grande caso era rir, cortejar o rei, agradar

a todos, inclusivè a Deus, dando-lhe a vêr com infinita habilidade,

espectaculos de devoção, de jogo, de ambição e... do mais.

O tempo e as revoluções que tantas mudanças tem feito, não mudaram o

coração humano. Os devotos não são tantos como d'antes, mas são da mesma

estôfa, e tanto montam estes como os outros, vistos a vulto. Relaxação

extrema em fidalgos e populaça; sêde ardentissima de enriquecer;

sordidissimos orgulhos; amores desatinados; paixões eriçadas de

remordentes espiritos e blandiciadas de prazeres! Deus me defenda de

calumniar peccadores a cheirarem ao incenso das igrejas! Bourdaloue, que

os conhecia, e os demais prégadores assim antigos que modernos, disseram

d'elles mais mal do que eu. O que sei é que o medo não faz bons aquelles

que o bem, só de per si, não convida. O pejo do peccado poderá restaurar

os cahidos; mas o medo, depois do peccado, é de todo o ponto inutil.

Não esqueçamos, porém, que ha devotos quasi irreprehensiveis, os quaes,

sem serem heroes nem se destinarem a tanto, cumprem, sem desfallecer, a

modesta missão que lhes quadra sobre a terra. São bemfazejos em pequena

escala; restringem-se a pouco mais de sua casa; quanto muito, chegam até

á visinhança; e, se por vezes, a mão caridosa ultrapassa estes limites

proveitosamente, de novo se retrahe ao seu limite, onde está a maior

formosura e grandeza de sua missão. Estes devotos não se distinguem dos

outros por grande assuidade nos templos; o que os differencêa é o serem

esmoleres; e mais visivelmente se estremam por se absterem do mal. Não

são rixosos nem maldizentes: tem ainda mais caridade na lingua do

que nas mãos, por que ella os serve com inexhauriveis riquezas.

D'aquelles peccados mortaes que a sociedade chama fraquezas, e em que

diariamente as pessoas piedosas resvalam sem morrerem d'isso, fogem

elles como d'um grande delicto. Amam a verdade, a ordem, a continencia,

o pudor, a sobriedade, como vós amais a justiça. E, comquanto não

descream do eterno fogo, a luz que os guia não esplende do inferno, vem

de cima; no ceo é que elles a buscam em seu peregrinar; e assim vão

alentados pela esperança e não pelo medo.

V

O Inferno · 第 67 / 158 题