O grupo dos indifferentes, etc.
Estas pessoas cuidam em ser felizes com o auxilio da honestidade; pelo
quê, se abstem do mal que o codigo define. Pelo que respeita aos sete
peccados mortaes, não se preoccupam d'isso. Dizer que todos sejam
invejosos, avarentos, luxuriosos, e o mais, seria mentir. N'esse
innumeravel grupo abundam negociantes honrados, meninas castas, esposas
fieis, pobres sem inveja, ignorantes modestos, ricos bemfazejos, e
muitas abelhas para cada zangão; mas perfeito ahi não ha ninguem;
ninguem ahi vive em graça; o melhor do rancho é aquelle a quem Deus, no
dia do juizo, só accusar de ter violado sem escrupulo todos os
mandamentos da Egreja. Mas, com esse só peccado na consciencia, o melhor
do rancho será condemnado.
Se o roubo e o homicidio são raros n'essa assemblêa, não procede isso do
medo do inferno. Ahi é bastante motivo para condemnação uma folha de
papel escripta, um «sim» apenas balbuciado e ouvido, um lance d'olhos,
uma flor murcha, e essa, onde entra amor--amor no peccado, meu Deus!--é
de todas as condemnações a que mais piedade desperta. Porém, n'esse
immenso circulo, onde tudo pecca, cada qual se condemna á sua vontade:
um por fastio; outro por vaidade, este por curioso, aquelle por
pusillanime; condemna-se um por um casal, outro por uma venera,
por um acepipe, por um prato de lentilhas, por um penacho, por uma
fitinha, por um trapo, por trinta contos, por trinta reis. Condemna-se
este a trabalhar, aquelle a passear, um a comer, outro a jejuar, a ler,
a dansar, a palestrar, a meditar, a vestir, a despir, desde a aurora até
ao escurecer, desde a noite até ao dia, todos se condemnam a bel-prazer.
Distinguem-se lá os peccados que Deus pune indistinctamente.
Permittem-se os que Deus castiga até com eternas penas, quando é elle só
quem pune; recua-se, porém, dos que Deus castiga e a sociedade tambem.
Não se diga pois que o inferno atalha os crimes dos indifferentes.
Tambem ahi é manifestamente esteril similhante crença. O que se teme é o
vigia, a patrulha, o commissario da policia, essas personificações
vulgares, mas terriveis da opinião e da lei. Temem-se as algemas, o
carcereiro, a masmorra, e ainda mais á mistura com os scelerados. Por
muito dura e inevitavel que se figure, a pena material não os conterá
sempre quando a paixão os esporêa. Do mesmo modo que affrontam o
inferno, affrontariam a cadêa e até a forca, se a forca estivesse ás
escuras; porém a vergonha, o estrondo da queda, é para o maior numero a
pena intoleravel. Seriam capazes de desafiar carrascos e diabos; e não
ousariam encarar o desprezo do amigo, do visinho, do estranho, do
transeunte, do mendigo; não lhes faz grande mossa a ignominia diante de
sua mãe ou de seus filhos, e tremem de se vêr baralhados com
creaturas devassas que são máos sem repugnancia, e medram no mal como em
seu nativo elemento.
Ha d'elles, porém, que se forram ao mal, contidos por sentimento ainda
mais nobre que o medo da opinião. Esquivam-se, não do peccado mortal,
mas do maleficio que a sociedade civil pune ou reprova: afasta-os d'isso
com asco um natural sentimento, sem esforço. Educação e habitos
fortaleceram esses bons instinctos. Não são perfeitos, mas são probos,
sinceros, generosos, capazes de grandes sacrificios occasionalmente. Com
certos deveres nunca especulam. Denotam que a si se respeitam, que a
propria estima se lhes faz precisa, ainda mais que a da sociedade, facil
de transviar-se. E bem que não sejam philosophos nem devotos, sentem
vivamente a dignidade de seu ser. É certo que este sentir lhes seria
mais delicado e firme, se abrangessem as perspectivas da vida futura, em
vez de concentrar-se cá; mas é forçoso aceitar os indifferentes quaes
são; e tanto entre os peores como entre os melhores, a vida futura não é
movel nem empêço: é uma coisa esquecida.