Que lucram as pessoas de bem que esses patifes creiam no inferno? Está
com isso a sociedade mais segura? E tal crença de que lhes serve a
elles? O que os incommoda não é o diabo, é a policia; inquieta-os mais o
degredo que o inferno.
Vá lá!--dizem elles--venha o inferno que não nos ha de faltar boa
camaradagem! Quantas pessoas toparemos lá d'umas que n'este mundo se
empavonavam todas, e não queriam rossar-se por nós! Havemos de vêl-os
lá, mais apoquentados e castigados do que nós, esses patetas condemnados
por pensamentos e palavras, por coisa nenhuma. Quanto á pessoa d'elles,
tanto monta como a nossa, pois que hão de ser tão condemnados como nós.
Não ha dois infernos, parceiros; ha um. Lá nos esbarraremos com
capitalistas, com fidalgos, com duquezas, com comicas. Andaremos á
ilharga dos juizes, dos quadrilheiros, dos escrivães, dos jurados e
melhor ainda--viva a patuscada!--com deputados, com camaristas reaes,
com bispos, com abbadessas, com principes e princezas, reis e rainhas.
Venha o inferno! é tentador lá ir com tal sucia.
Tal é o raciocinio dos desalmados e a influencia que tem sobre elles
aquella extravagante justiça, que nenhuma proporção gradua entre
delictos e crimes, condemnando para sempre quem peccou uma hora, e o
scelerado de toda a vida.