Os protestantes não conhecem termo medio entre paraiso e inferno; os
catholicos, porém, acreditam-no, e segundo elles é o purgatorio ceo
nubloso e triste, inferno onde se ora e espera, e que deve acabar.
Infelizmente os catholicos não enviam todos os mortos ao purgatorio,
crendo que se póde transpor aquelle meio entre ceo e inferno, sem ainda
lá pôr o pé. Á similhança dos protestantes, ensinam que muitas almas,
apenas despidas do seu involucro mortal, são despenhadas para sempre no
eterno abysmo, ao passo que outras almas, logo que despedem da terra,
alam-se direitas ao paraiso. Ensinam tambem, uns e outros, que o mais
abominavel patife, convertido á ultima hora, póde morrer contente: eil-o
vai absolvido como o bom ladrão; não tem mais que fechar os olhos e
acordar entre os anjinhos.
É isto possivel? É isto verdadeiro? Que é pois o paraiso, e que idêa
fazemos d'elle?
Pois que! verei eu do seio da bemaventurança, e na inalteravel
tranquillidade dos justos, verei sem remorso e sem afflicção,
encadearem-se a meus pés, já na terra, já no inferno, as tristes
consequencias das minhas iniquidades? Nas minhas noites de
libertinagem, matei; durante o somno de homens que valiam mais do que
eu, assassinei um aváro para o roubar, um amigo da minha infancia para
entrar no seu leito, uma mulher que eu havia seduzido e que morreu
beijando-me as mãos, pensando em mim, a louca, mais do que em Deus!
D'entre elles os peores que eu feri eram innocentes comparados comigo, e
eil-os mortos intempestivamente, sem terem tempo de se arrependerem;
eil-os engolphados na gehenna, com o coração roido pelo verme que não
morre, gementes, chorosos, amaldiçoando-me; e eu, seu assassino; eu,
peccador envelhecido na impiedade e agraciado por um milagre, louvarei
Deus eternamente, por me haver feito instrumento da condemnação
d'aquellas pobres almas!
Com as minhas delapidações, reduzi á miseria e a todas as tentações da
miseria, e a todos os desvios da desesperação aquella familia que lá
vejo em baixo: o irmão vende a irmã, a irmã vende a sobrinha, o pae
vende os seus juramentos, os seus amigos, o seu paiz; a mãe arranca-se
os cabellos; todos choram, todos soffrem, todos me accusam, e os seus
gemidos chegam até mim; e eu hei de vêr imperturbavel, sem remorsos, sem
dôr, aquelles fructos de meus crimes, aquellas ulceras, aquelles
prantos, aquelles opprobrios, aquellas perfidias, aquelles escandalos em
que eu tenho parte; e, pois que Deus se apiedou de mim, eu não terei
piedade dos outros, e o que na terra me affligia, quando eu
agonisava, não me ha de affligir depois da minha morte. Este deploravel
espectaculo, bem visivel a meus olhos, não impedirá que eu me saboreie
na felicidade dos escolhidos; convencer-me-hei que vae n'isso o influxo
dos designios do Altissimo, e que o homem, faça o que fizer, não tem que
vêr com o resultado das suas obras; e em vez de bater no peito a cada
sobresalto dos meus proprios crimes, a cada repercussão das minhas
proprias blasphemias, a cada reflorecer das venenosas sementes--vestigio
unico que eu deixei da minha passagem na terra--vestirei a alva tunica,
e beberei na taça dos anjos, das virgens, dos heroes, e dos martyres,
como se eu fosse um d'elles.
Na verdade é uma egregia doutrina esta da justificação do peccador, pelo
reconhecimento e pezar de suas culpas; levada porém áquelle grau,
similhante doutrina é tão incomprehensivel como a do inferno. De uma
demasia nasceu outra: n'uma parte encareceram a justiça; na outra
exaggeraram a piedade. Comtudo, entre o castigo infinito por um só
peccado, e o immediato perdão apezar de mil peccados, havia o que quer
que fosse que parece desconhecer-se: a justiça sem colera, a
misericordia sem pusillanimidade.
Salvam-nos como nos condemnam, com pouco custo ordinariamente, pois que
se com facilidade nos abrem as portas do inferno, com a mesma nos abrem
as do paraiso.
Considerem entretanto o purgatorio, não como meio entre o paraiso e o
inferno, mas entre a terra e o ceo, ponto que certas almas atravessam
rapidamente e quasi sem soffrer, e onde outros são condemnados a
padecimentos mais ou menos extensos e variadissimos, consoante a
natureza de suas culpas, e disposição no ultimo momento. Este purgatorio
com as suas penas indefinidas, proporcionaes, rigorosas, purificantes,
e, cedo ou tarde, coroadas pelo perdão, não seria um freio moral mais
rijo que o medo das penas eternas, temperado pela esperança da
misericordia na ultima hora, e pela reforma de vida na ultima edade?
Convenho que não haveria medo de ser condemnado sem remissão; assim é;
mas tambem ninguem presumiria de fugir ao castigo com um momento de
contricção, depois d'uma longa cadeia de crimes. D'esta arte, Deus
mostraria melhor o que é, justo, mas não cruel; bom, em vez de
tolerante. Que mal lhe viria d'ahi? Commiséravos o lastimavel ancião
coberto do sangue das extorsões e o tyranno abjecto que sopesou e
corrompeu milhares de homens; tendes d'elles piedade, quando morrem
chorando? tendes razão; mas apiedae-vos tambem de suas victimas ainda
palpitantes, d'essas creanças que elles definharam e ceifaram em flor, e
que vós condemnaes. Piedade e justiça para todos. Não desespereis os que
vagarosamente caminham sobre os abrolhos da penitencia, mas não lhes
encurteis a escada para os subir ao ceo. Sabei que na outra vida se
chora amargamente o mal feito ao proximo que n'este mundo nos sobrevive,
as desordens que se motivaram, as existencias que se transtornaram, as
quedas moraes que se occasionaram, e que o arrependimento na hora
extrema, posto que grandemente salutar, é apenas o principio, e não o
fim, das expiações d'uma vida culpada.
É de crer que na Biblia e nos padres da Igreja isto se não encontre
escripto; mas está escripto nas consciencias. Limpem os oculos e leiam.