Não nos accusem os theologos de negarmos acintemente os mysterios.
Os theologos referem o que vae no inferno como se tivessem por lá
viajado. Pelo que elles dizem é paiz dos mais conhecidos: sabe-se o
caminho, quaes são os seus productos, e qual o modo de viver dos seus
moradores, bem como a origem, nomes e a gerarchia dos principes que lá
reinam. Em outro capitulo estudaremos as edificantes descripções que
fazem d'elle já physica, já moralmente.
Ácerca do purgatorio tem havido mais prudencia quasi nada se sabe
do que la se passa: é portanto mais mysterioso que o inferno. Todavia,
sem impedimento de ser mysterioso, que differença! Quanto mais
profundamos a eternidade penal, menos se acredita; ao invez, quanto mais
pensamos no purgatorio, mais nos sentimos compellidos a crêl-o. É o
inferno mysterioso como o diabo, como a noite, como a contradicção, a
confusão e o chaos. É o purgatorio mysterioso como Deus, como a alma,
como a consciencia, como a vida, como a luz que nos alumia, como a
materia impenetravel, como toda a natureza, como a verdade, como tudo o
que existe e de que nós apenas conhecemos em sombra a existencia e
apenas percebemos atravez de um veo, mas o bastante para não poder
duvidar. É elle tão certo como tudo o mais do mundo; assenta no intimo
de nossa alma sobre as mesmas bases da moral, do direito, do dever, do
respeito a outrem, piedade, liberdade, amor, e sentimento do infinito. É
por tanto o purgatorio, quanto á razão, o verdadeiro mysterio da justiça
divina, assim como a Incarnação e a Paixão, quanto á fé, são o mysterio
do Amor divino;--mysterio de justiça que, de mais a mais, se concilia
maravilhosamente com aquelles mysterios d'amor, dos quaes o inferno
perpetuo seria a negação.
Muitissimo nos espanta que os protestantes o não vissem. Quando tinham
que escolher entre dous dogmas inconciliaveis, um velho e outro novo,
sacrificaram, tanto em nome do Evangelho como da razão, um dos
dois que mais se harmonisava com as leis da razão e a moral do
Evangelho.
V