Como a sociedade christã se desvia progressivamente
d'aquellas antigas tradições
Não ha muito que nós ainda tinhamos o nosso inferno: eram as galés onde
as condições peioravam. Destruiram-nas, e crearam as colonias
penitenciarias. Antes de nós, se deram bem com isso os inglezes.
D'aquelle antigo inferno terreal, paraizo em comparação do outro,
resta-nos como terrivel vestigio a perpetuidade do castigo para certos
culpados. Quiz o homem copiar o antigo Deus das vinganças, e infligir
aos seus similhantes penas infinitas, tendo elle apenas um dia de seu.
Taes penas se acham nos nossos codigos. A sabedoria humana é tão
limitada como o seu poder. Mas, apezar de limitadissima, é admiravel!
Com que arte a sociedade concilia os mais oppostos deveres--a protecção
aos justos, e até a protecção aos culpados que ella extrema dos justos!
Não os esquece nas suas prisões, não renunciou ao direito de
perdão; não desentranhou de si o sentimento da piedade. Sobre essa
paragem de miserias está sempre fixo um olhar de dó, e attento um ouvido
que escuta os gritos do arrependimento. E acaso se enfraquece por amor
d'isso a lei penal? E se o perdão salva um d'esses prezos que a justiça
ferira com perpetua pena, cuidaes que esse acto robusteça o mal, e dê
nas prizões ou fóra d'ellas um exemplo funesto?
Ainda mais: a sociedade amnistia algumas vezes propriamente o crime,
derroga a sentença do juiz e restitue o criminoso em todos os direitos
do innocente. Os crimes que ella amnistia quaes são? Os mais
ultrajadores de sua authoridade, das suas leis, do seu repouso e
existencia: amnistia os crimes de lesa-magestade, e contenta-se com
perdoar os outros.
Este é o espirito das legislações novas em toda a christandade, nas
quaes a misericordia se abraça com a justiça.
Inferno que nunca muda é só o theologico. É sempre o inferno da edade
media, inferno de judeus e pagãos, os mesmos supplicios, os mesmos
gritos, a mesma impiedade crescente, os mesmos horrores. Não querem que
Deus tenha o direito de perdoar no outro mundo. Cá em baixo póde
fazel-o, se lhe apraz, como qualquer rei da terra. Mas lá no seu reino
não ha perdão nem amnistia! Colera infinita! Vingança perpetua!
Inexoravel furor! Tal é, consoante o pintam, o Rei dos ceos.
Ditosos os povos cujos principes se não modelam por elle!
Quem quizer encontrar hoje imitadores do Deus terrivel dos antigos, ha
de ir procural-os no novo mundo e entre as tribus negras da Africa, e
nas hordas barbarescas da Asia. A sociedade christã, com maravilhoso
instincto, sequestrou-se d'essas idêas de outra edade; e, com os olhos
postos na cruz, prosegue e anhela realisar em suas instituições e leis
um ideal menos imperfeito da soberana justiça.