VI

Como a sociedade christã se desvia progressivamente

d'aquellas antigas tradições

Não ha muito que nós ainda tinhamos o nosso inferno: eram as galés onde

as condições peioravam. Destruiram-nas, e crearam as colonias

penitenciarias. Antes de nós, se deram bem com isso os inglezes.

D'aquelle antigo inferno terreal, paraizo em comparação do outro,

resta-nos como terrivel vestigio a perpetuidade do castigo para certos

culpados. Quiz o homem copiar o antigo Deus das vinganças, e infligir

aos seus similhantes penas infinitas, tendo elle apenas um dia de seu.

Taes penas se acham nos nossos codigos. A sabedoria humana é tão

limitada como o seu poder. Mas, apezar de limitadissima, é admiravel!

Com que arte a sociedade concilia os mais oppostos deveres--a protecção

aos justos, e até a protecção aos culpados que ella extrema dos justos!

Não os esquece nas suas prisões, não renunciou ao direito de

perdão; não desentranhou de si o sentimento da piedade. Sobre essa

paragem de miserias está sempre fixo um olhar de dó, e attento um ouvido

que escuta os gritos do arrependimento. E acaso se enfraquece por amor

d'isso a lei penal? E se o perdão salva um d'esses prezos que a justiça

ferira com perpetua pena, cuidaes que esse acto robusteça o mal, e dê

nas prizões ou fóra d'ellas um exemplo funesto?

Ainda mais: a sociedade amnistia algumas vezes propriamente o crime,

derroga a sentença do juiz e restitue o criminoso em todos os direitos

do innocente. Os crimes que ella amnistia quaes são? Os mais

ultrajadores de sua authoridade, das suas leis, do seu repouso e

existencia: amnistia os crimes de lesa-magestade, e contenta-se com

perdoar os outros.

Este é o espirito das legislações novas em toda a christandade, nas

quaes a misericordia se abraça com a justiça.

Inferno que nunca muda é só o theologico. É sempre o inferno da edade

media, inferno de judeus e pagãos, os mesmos supplicios, os mesmos

gritos, a mesma impiedade crescente, os mesmos horrores. Não querem que

Deus tenha o direito de perdoar no outro mundo. Cá em baixo póde

fazel-o, se lhe apraz, como qualquer rei da terra. Mas lá no seu reino

não ha perdão nem amnistia! Colera infinita! Vingança perpetua!

Inexoravel furor! Tal é, consoante o pintam, o Rei dos ceos.

Ditosos os povos cujos principes se não modelam por elle!

Quem quizer encontrar hoje imitadores do Deus terrivel dos antigos, ha

de ir procural-os no novo mundo e entre as tribus negras da Africa, e

nas hordas barbarescas da Asia. A sociedade christã, com maravilhoso

instincto, sequestrou-se d'essas idêas de outra edade; e, com os olhos

postos na cruz, prosegue e anhela realisar em suas instituições e leis

um ideal menos imperfeito da soberana justiça.

O Inferno · 第 38 / 158 题