As tradições judaicas e pagãs consubstanciavam-se profundamente na edade
media, acerbando-lhes as suas leis penaes com supplicios e torturas. As
prisões não tinham ar nem luz; o adorno das masmorras era palha podre,
pão e agua. Havia prisões subterraneas, tumulos onde o homem entrava
vivo e não sahia mais. Até os mosteiros as tinham. O furto era punido
com a morte; a morte punia a transgressão da lei sobre a caça. Em cada
encruzilhada uma forca. Para os hereges fogueiras. E frequentemente uma
familia inteira era castigada pelo crime do chefe, bens confiscados,
casa arrazada, o nome proscripto. Nada digo sobre a servidão, degradação
hereditaria, especie de mancha original e quasi universal em cada paiz,
horrenda reliquia da escravidão antiga, e das superstições do Oriente.
Havia crença na efficacia d'aquelles horrendos castigos. E seriam
por isso menos raros os crimes? O terror governava o mundo. E seria o
mundo melhor governado? Ia n'isso a antiguidade das tradições. Dava-vos
pena que ellas se abolissem? Quem ha ahi saudoso das torturas,
masmorras, confiscações, fogueiras, escravidão? E quem ousaria pedir,
por interesse da justiça e da moralidade, o restabelecimento das
instituições da edade media?