Como se prova a verdade dos dogmas hebraicos, e com
especialidade a eternidade das penas
Todos estes dogmas estão ligados; porém, quando surge uma duvida, não
basta um para demonstrar o outro. Próvem-nos que Satanaz foi expulso do
céo, e o homem do Eden; e, quando o tiverem provado, nem por isso lhes
cabe o direito de concluir que Deus nunca perdoará a Satanaz nem aos
homens. Um castigo que tira aos pacientes a esperança, e ao divino juiz
a piedade, é mais incomprehensivel ainda que a fragilidade dos anjos:
por consequencia, um tal castigo carece de ser justificado por pessoas
eguaes, senão melhores. Estes antigos mysterios não derivam um do outro
naturalmente; e, seja qual for o castigo que Deus reserve em sua justiça
ás prevaricações das creaturas livres, é certo que nós o soffreriamos,
ainda que Satanaz e Adão não tivessem peccado. A principal questão
é saber se este castigo será eterno, e a tal respeito a corrupção
original, a reversibilidade das culpas, o poder do tentador augmentam
nossas duvidas em vez de diminuil-as.
O que ahi ha para nós não são provas, são objecções. O inferno poderá
ainda sem isso não satisfazer nossa razão; mas não a offenderá tanto. É
urgente, pois, provar que elle existe.
Prova-se pela revelação, isto é, pelas escripturas santas e pela
auctoridade da Egreja, interprete infallivel d'ellas. Porém revelação
biblica e infalibilidade de Egreja são já de si outros dogmas a favor
dos quaes se escrevem todos os dias grossos volumes; e seria desviar-me
grandemente do meu assumpto suscitando aqui similhante discussão. O
pouco que a tal respeito hei de dizer vem no appendice que está no fim
d'esta obra, sendo tanto para o leitor como para mim grande a pressa que
temos de sahir d'este labyrintho de mysterios. Investigo provas d'outra
ordem, mais especiaes, mais directas, mais apontadas ao bom senso, ao
coração, á intelligencia, e que se prestam facilmente a ser entendidas e
livremente discutidas. Se taes provas não existissem, não emprehenderia
eu similhante trabalho; mas sustenta-se que existem, e em todas as
apologias são invocadas como auxiliares das provas sobrenaturaes, e do
ensinamento da Egreja, argumentos puramente philosophicos, dos quaes
parece que a fé mesmamente está carecida. Dir-se-hia de vontade a
respeito do inferno, o que Voltaire disse de Deus: que se elle não
existisse, mister seria invental-o. Pois que podemos em verdade provar a
existencia de Deus pela necessidade moral d'esta crença, pelo mesmo
theor se intenta provar a existencia do inferno perpetuo: intenta-se
fazer d'isto uma necessidade moral tão clara e evidente, quanto é
evidente e clara a necessidade moral da crença em Deus, e é usual
fundamentar tal raciocinio sobre o testemunho de todos os povos, que
tanto importa a tradição chamada universal.
A mim me basta a primeira prova; d'ella pende a meu vêr a questão
capital. Se o inferno, ou sómente a idêa do inferno é moralmente util,
existe o inferno, é necessario, e é divino. Porém, como quer que a
evidencia d'esta utilidade não seja dogma, assiste-nos o direito de
examinar com plena liberdade. Tal é a tarefa que me impuz. A tradição
universal de que tratarei depois, é apenas a primeira face do
problema.