Hoje em dia faz-se mister nascer em paiz catholico para ainda se crêr na
possibilidade de não ir infallivelmente ao inferno. Contra o espirito do
mal inda lá se encontra aquella miraculosa assistencia que outr'ora
protegia apenas o districto não grande do Oriente. Alargou-se o
territorio da clemencia, mas ainda assim não mede a quarta parte do
globo. Além d'isso entre os novos, do mesmo modo como entre os antigos
judeus, perdem-se muitos, porque Satanaz está sempre comnosco, na
carne de Adão, e a maldição sobranceia-nos sempre.
Se o baptismo destróe esta maldição, não o faz completamente, salvo
quando o baptisado morre ao sahir do baptisterio; senão, nem nos
dispensa das penas eternas, nem nos arranca das prezas da necessidade
das affeições, das tentações, dos enganos innumeros que são os effeitos
temporaes da maldição.
Cresce, pobre creança, e se podes, cerra os ouvidos ás alegres
cantilenas da tua ama; foge ás caricias de tua mãe e a todas as
seducções que já te rodeiam. Não toques no bello fructo que a tua fome
anceia. Na tua edade, sem que o saibas, já Satanaz te falla; na bebida e
na comida estão venenos d'elle; com o mal te familiarisas, e perdida
está a innocencia baptismal. Feito o primeiro peccado, desluziu-se a
graça; a maldição meia delida revive inteira; a Egreja vem ainda com
outros mysteriosos meios em nosso auxilio; porém, como n'este mundo não
ha destruir attracção e inclinação e a liberdade do mal, muitos dos seus
filhos se perdem, apesar d'ella, e para, melhor o dizer, em seus braços.
Attendendo aos perigos a que estão sujeitos ainda os filhos da luz
n'esses paizes favorecidos, considere-se em que estado de desesperação
vivem os filhos das trevas, isto é a maxima parte do genero humano. Em
mil milhões de homens, pouco mais ou menos, que actualmente soffrem na
terra, o mais que póde haver é duzentos milhões de catholicos. O
remanescente vive sem confissão, e o maior numero sem baptismo, na
ignorancia ou no odio da Egreja, e d'aqui vão como vieram sob o poder de
Satanaz. Tem elles culpa? Nasceram no abysmo e longe de soccorros.
Familia, tribu, cidade, patria, protectores naturaes, primeiros guias,
ultimos amigos, lições, exemplos, leis e costumes, tudo os engana. Quem
é que póde escolher o seu berço? Pois a nossa salvação póde depender de
circumstancias e successos que não dependem de nós? A nossa rasão
corrompida absolve-os; o velho Adão encontra sempre alguma desculpa ao
peccado; mas a fé essa não. A fé decreta a reprovação final dos gentios,
dos infieis, dos hereticos e até a reprovação final e eterna d'um
grandissimo numero de catholicos; crê n'isto como no peccado original,
como na hereditariedade do crime e do castigo, bem como na graça da
salvação--coisas correlativas e de todo o ponto inseparaveis. Adora em
silencio todas estas apparentes iniquidades, convicta de que ellas são
sómente apparentes, e que um dia virá em que os proprios gentios hão de
confessar que Deus fez bem amaldiçoando-os: tão profundamente justo,
equitativo e rasoavel é na essencia aquillo que exteriormente tão pouco
é.
Não ha pois duvidar que milhões de milhões de creaturas humanas estão no
inferno. As almas despenham-se ahi de todos os lados, densas e rapidas
como a chuva, chuva que dura ha mais de seis mil annos, e não
acabará nunca. Todos nós temos no inferno uma immensa familia: todos os
nossos antepassados pagãos, durante quatro mil annos, e Deus sabe
quantos avós christãos!
Os parentes e amigos de quem nos apartamos a chorar, o que fazem é ir
adiante de nós; os netos d'elles e os nossos, pela maior parte, lá vão
ter comnosco, e para tão horrivel fim é que nós nos reproduzimos.