Mas não só «_eramos fortes e politicos_.»

Mais assevera Teixeira de Vasconcellos:

«Eramos doutos.»

«Eramos artistas.»

«Eramos estadistas», diz elle.

Podiamos observar-lhe que tambem ha hoje, como outr’ora, doutos,

artistas e estadistas, o que não quer dizer que sejamos ou fossemos

todos estadistas, artistas e doutos.

Caracterisar um povo por qualidades geraes, determinar criticamente

n’uma synthese a feição original d’uma collectividade politica, é

difficil e perigoso, mas comprehende-se e justifica-se.

Com relação a nós póde dizer-se que é impossivel. Não temos

caracteristica exclusiva e propria. Póde o dizer isto quisilar

certo patriotismo. Optimo remedio, é elle deixar as berratas e as

_lanterninhas_ pelo estudo, e descobrir na exegese historica da

nossa nacionalidade, o que se dá por assentado que não existe. No

entanto, podemos socegar que não periga com tal asseveração a nossa

independencia nacional. A legitimidade d’esta perante os mais povos

está em a nossa vontade, e perante a sciencia em o nosso interesse.

Mas vae distancia immensa de estudar o genio e indole d’um povo,

resultante de tantas condições diversas e exprimil-a n’uma synthese

caracteristica, a realisar esta pela reunião arbitraria d’um pequeno

numero de factos individuaes e não só essencialmente individuaes, mas

principalmente filhos de condições especiaes em que se collocaram

certos individuos.

Diz-se que um individuo é douto quando adquiriu pelo estudo um certo

peculio scientifico. Diz-se que um individuo é estadista quando se

realisam n’elle condições que não são ingenitas. Mas chamar estadista

a uma nação é querer substituir o que se chama caracter nacional, não

pelo caracter individual sequer, o que seria já um erro enorme, mas

pelo caracter professional ou scientifico,--excepcional até,--d’um ou

d’alguns individuos, o que tem alguma coisa de ridiculo a final de

contas.

Suppôr nos membros d’uma collectividade nacional, certas qualidades

proprias d’ella, é rasoavel, mas querer impôr ao grupo qualidades

especiaes d’um ou d’outro ou de alguns membros d’ella, é simplesmente

absurdo.

E por que _fomos_ doutos?

1.^o Porque: «_avultamos_ na Europa civilisada pela reforma da

legislação e pela cultura das sciencias e lettras.»

Não discutamos se avultamos e em que avultamos, o que não seria mau

saber-se comtudo, por que de certo não fomos só nós que reformamos

a legislação e cultivamos lettras e sciencias. Mas avultamos tambem

n’algumas epochas por não reformarmos ou reformarmos mal e por

cultivarmos mal e pouco sciencias e lettras. É escusada, cremos, a

exemplificação.

2.^o Porque «foram as ordenações affonsinas o _primeiro_ codigo

civil _do seu tempo_.» Qual tempo? Primeiro, em quê?

As «Ordenações Affonsinas», mandadas codificar por João I, continuadas

por Duarte, e terminadas na regencia do duque de Coimbra e menoridade

de Affonso V, em 17 de julho de 1446, não foram,--é clarissimo,--na

ordem chronologica a primeira codificação da Europa moderna, nem são

na ordem critica um verdadeiro codigo civil e sobretudo o primeiro

codigo civil do tempo, durante o qual vigoraram. Cremos que não é

necessario exemplificar isto. Não vale a pena incommodar Walter ou

Canciani, citar a _lei gombetta_, o _Papiniano_, o codigo

Wisigodo, o breviario d’Alarico, a lei Salica, o codigo frank, as

_capitulares_ de Karl, o grande, o _Magnus Ericson_, etc.,

etc. Isto, já se vê, com relação á chronologia; que, com relação á

critica, nem merece a pena discutir o que seja um codigo civil, nem

precisa de defeza a jurisprudencia do _tempo_, que deve ser os

seculos XV e XVI.

Nem é necessario por tão pouco vascular a legislação medival e da

renascença, nem desempoeirar os _Articuli Magnæ Chartæ_, o

_Confirmatio Chartarum_, etc. etc.

3.^o Porque: _Os Lusiadas ainda são_ a principal epopeia do mundo.

_Os Lusiadas_ são obra d’um homem, e a prova de que elle se

elevava muito acima do nivel da sua nação, é que não foi comprehendido

e apreciado; viveu e morreu obscuro e pobre. Não é a revelação

artistica da alma social da sociedade em que apparece. Com que direito

se diz: _eram doutos_ ... porque _fizemos Os Lusiadas_?

Podiamos dizer com mais acerto: tão indoutos e miseraveis eramos que

não comprehendemos _Os Lusiadas_ e deixamos morrer á fome o seu

auctor. Parece-nos que haveria injustiça em ambas as asseverações. Não

discutiremos agora a supposta primasia. De que bitola se servirá para

estas apreciações Teixeira?

4.^o Porque: a _Castro_ de Ferreira se não póde chamar

chronologicamente a primeira tragedia da Europa, merece este nome pela

incontestavel primasia que leva á _Sophonisba_ de Trissino.

Ainda bem que o distincto litterato não se lembrou d’esta vez de nos

angariar para o nosso pobrissimo theatro as honrarias da prioridade.

Admittamos a primasia dogmaticamente proclamada incontestavel da

_Castro_ sobre a _Sophonisba_.

Duas observações porém. Ainda a _Castro_ não apparecêra e já

os gentis homens do _Inner Temple_ representavam (1561) a

_Gordobuc_, de lord Buckhurst, que tanta sensação produziu e

tantos encomios mereceu a Sydney.

A _Castro_ publicou-se em 1587. Dez annos antes, em 1577,

publicara o dominicano gallego fr. Jeronymo Bermudes a _Nise

lacrimosa_. Comparando-se verso por verso as duas obras, vê-se que

são quasi sempre exactamente a mesma, com a unica differença de que a

_Nise_ é escripta em castelhano e a _Castro_ em portuguez.

Isto é grave. Plagiou Ferreira? Póde desconfiar-se, mas no estado da

questão não póde asseverar-se positivamente. Mas tambem seria grave

injustiça affirmar que Bermudes, ou Antonio da Silva como querem

outros, plagiasse a obra que dez annos depois appareceu sem protesto ou

noticia alguma de tal facto.

É sabido que a _Nise lacrimosa_ tem um complemento na _Nise

laureata_ e que ha especialidades de metrificação na _Castro_

que pertencem mais a Bermudes que a Ferreira. Ora ahi está como a

_Castro_ podia bem ser superior á _Sophonisba_ de Trissino,

ou á _Gordobuc_ de Buckhurst, sem que d’ahi nos viesse gloria

alguma. E demais, por ser douto--e ninguem nega que o fosse--Ferreira,

não se segue que possamos empavesar-nos com o fructo do trabalho d’elle

e bradarmos:--_Eramos doutos_.

Depois a _Castro_ será a affirmação mais cathegorica e completa

da tragedia _classica_ em Portugal, se póde dizer-se assim. Aqui

mesmo tem anterioridades identicas: não é primeira.

O _classico_ foi a apropriação das formulas da velha arte á

expressão da sociedade moderna; e Antonio Ferreira, versadissimo no

theatro grego e latino, já então representado e traduzido em Portugal,

soube realisar, como poucos, a aproximação. Mas criticamente «é a

_Castro_ a primeira tragedia da Europa?» E note-se que não se fixa

periodo historico, como não se determina feição critica! e que assim

a affirmação tanto contende com Eschylo, Sophocles e Seneca, como com

Shakspeare, etc. Para que proseguir?

«Que não fomos somenos em bellas artes» póde bem affirmar-se, mas

não devemos esquecer os tantos e tantos notaveis e obscuros artistas

estrangeiros que do norte e da Italia nos vieram ensinar a arte e

erguer-nos muitos d’esses grandes monumentos que ainda hoje tanto

admiramos, na architectura, como na pintura; e folgamos por vêr que

não é Teixeira de Vasconcellos dos que para ahi a esmo proclamam a

existencia de uma escóla de pintura nossa, para a qual arranjaram já

seis Grão Vascos, e descobriram critica confirmação n’um «fogareiro

nacional» e em moedas portuguezas pintadas n’alguns quadros.

Mas não pára ainda esta especie de ladainha patriotica, que nem por

artistica se recommenda, mas vamos nós parar na apreciação d’estas

syntheses criticamente falsas,--falsas na ideia e na fórma,--como se

tem visto.

Passemos pelo «Eramos navegadores», notando simplesmente que as

numerosas descobertas dos seculos 15.^o e 16.^o dão realmente á

historia portugueza uma feição salientemente caracteristica, filha de

circumstancias especiaes de época que fôra enfadonho expôr aqui, mas

que nem por isso aquella phrase se póde ter como verdadeira synthese

historica e nacional, caracteristica.

Passemos pelo «Eramos estadistas», sem nos demorarmos a estudar este

curioso periodo:

«Tratámos negocios importantissimos com todas as côrtes da Europa,

e assim nos congressos como nos gabinetes frustramos as machinações

dos nossos adversarios. Não nos intimidou a arrogancia de Cromwell;

soubemos ganhar a amisade poderosa de Richelieu; e conseguimos

triumphar da astucia italiana de Mazarino.»

Segue-se est’outro, tão curioso como o antecedente:

«_No seculo passado e nos annos já decorridos do actual, mantivemos

com firmeza o nosso direito contra inimigos poderosos, e das

negociações ou dos combates sahimos sempre honradamente._»

Nem sempre, se dá licença.

Nem sempre ... se a historia não é apenas o registro dos factos que

podem lisongear orgulhos nacionaes, algumas vezes illegitimos, tantas

vezes absurdos, e geralmente injustos.

Ora quem não se lembrará, lendo isto, de factos bem pouco lisongeiros

para taes e tantos orgulhos?

Lembrou-se de certo Teixeira de Vasconcellos, e, francamente,

envergonhar-nos-íamos, por elle, de os lembrar a quem tão solida e

antiga reputação de escriptor illustrado tem. Lamentamos apenas que

sacrificasse a illustração e o criterio ao _effeito_ patriotico,

á expansão verbosa de um patriotismo exagerado até o fanatismo, como

tantas outras vezes, como por exemplo, quando diz que «póde jactar-se

aos cincoenta e tres annos da sua edade de nunca ter tido _pensamento

que não fosse portuguez!_

Pensamento portuguez! Faz-nos isto lembrar certo professor de

geographia que indicava aos alumnos as divisões dos povos pela côr dos

atlas. «A Patagonia é um paiz amarello», dizia elle, e aprendiam os

rapazes.

Folgamos, porém, lendo as seguintes palavras após a extensa ladainha

patriotica que para cumulo da infelicidade Teixeira de Vasconcellos

fechou com a seguinte phrase:

«_Ainda eramos portuguezes_», já espirituosa e maliciosamente

interpretada por um periodico reaccionario.

Eis as palavras a que nos referimos, que se não são completamente

exactas, pela superfluidade critica de quem as escreveu, mostram

comtudo excellentes intenções e mais illustrado criterio do que as

citadas atraz:

«São mui diversas das que briosamente cumpriram os homens de outros

seculos, as obrigações dos portuguezes de hoje. Onde antigamente se

crearam esforçados cavalleiros, valentes homens d’armas e audazes

navegadores (podia tambem fallar de frades illustrados, de frades

ignorantes e fanaticos, de pirateadores sanguinarios, etc., etc.)

é mister agora principalmente educar cidadãos e preparar agentes

efficazes da civilisação moderna, etc. etc.»

Cabe aqui bem um protesto. Póde alguem accusar-nos de fazermos critica

negativamente patriotica. Simplesmente diremos que a critica é uma

sciencia e não tem nada com o patriotismo. Assim como na phrase de

notavel escriptor não ha duas economias politicas como não ha duas

algebras, assim não ha duas criticas como não ha duas historias na

accepção scientifica do termo, perante a geographia politica. Podiamos

acrescentar, substituindo a França pelo nosso paiz, as seguintes

palavras de Odysse Barot (_Lettres sur la philos. de l’histoire_).

...«não cedemos a ninguem em patriotismo; nem por isso, porém,

deixaremos de persistir em pensar que se abusa exageradamente da

_bandeira da França_, do _papel da França_, da _influencia

legitima da França_, da _preponderancia da França_, da

_missão da França_, do _pavilhão da França_, do _dever_

e do _poder da França_. Ha alguma simpleza e bem pouca modestia em

nos proclamar incessantemente o primeiro povo do mundo, os primeiros

soldados do mundo. Não ha primeiro povo do mundo, nem primeiros

soldados do mundo. Todas as nações se valem pouco mais ou menos.»

«Se muito nos orgulhamos de ser francez quando passamos na rua de

Castiglione, não nos cremos por isso auctorisado a olhar por sobre o

hombro, o universo inteiro.»

E já que citamos o talentoso redactor da _Liberté_, attenda o

snr. Teixeira de Vasconcellos a esta phrase d’elle: _Les idées les

plus respectables, revêtues d’une phraseologie banale perdent leur

parfum et deviennent mesquines et vulgaires. Ne vous semble-t-il pas

entendre l’ouverture de_ «Guillaume Tell» _exécutée par un orgue

de Barbarie?_

Bem sabemos que é este escriptor dos que não aceitam de boamente

e vontade as modernas e fataes evoluções da lingua e da concepção

philosophica. No _quinhentismo_ ou na «Arcadia» desejára

ficar-se e que ficassem todos a saborear os deleterios lambedores do

«_portuguezissimo de portuguezes e para portuguezes_», phrase

mascavada, guindada ás attitudes de sapiente conceito. E se, mais

talentoso e prudente do que outros escriptores, não rompe bruscamente

com a revolução que é fatal na arte e na sciencia, nem por isso deixa

passar occasião de por entre a sua phrase singela, fluente e arcadiana,

lavrar protestos que por mal de seus peccados lhe sáem geralmente como

o seguinte:

«O tratado de mr. Rottesk pertence ás _constellações nebulosas_ da

philosophia d’além do Rheno.»

É porém de justiça confessar, repetimos, que não é este escriptor dos

que tamanha animosidade, acinte e injustiça por ahi mostram, contra os

modernos estudos, e contra os que se afastam da sua rotina e idolatria.

Quizeramos fazer a critica d’um livro e não temos quasi sahido

do preambulo d’elle. É que estava aqui condensada a doutrina que

presidiu á sua formação, doutrina aceita e correntia geralmente, que

é necessario ir combatendo,--o que a final de tudo é facil,--nas suas

concepções falsas e prejudiciaes, nos seus conceitos intolerantes

e illusorios. Compõe-se o livro de quatro biographias, ou mais

propriamente, elogios historicos, exhumados da historia do seculo 18.^o

e parte do seculo 19.^o, em Portugal.

São elles: o de Silvestre Pinheiro Ferreira, vulto notavel e por muitos

titulos respeitavel, a quem comtudo não nos parece bem applicada a

denominação de «primeira gloria portugueza nos annos já decorridos

d’este seculo», José Corrêa da Serra, o duque de Lafões, D. João, e a

marqueza d’Alorna.

Não discutamos a escolha d’estes sugeitos, nem Teixeira de Vasconcellos

procura estabelecer-lhe as suas influencias no viver litterario ou

scientifico ou politico, que alguma teve o primeiro, comtudo. Justifica

o panegyrista a escolha nas seguintes palavras:

«Limitamos aos seculos decimo oitavo e decimo nono as nossas

investigações, por entendermos que as acções dos personagens d’esse

tempo são mais analogas aos costumes actuaes e servem melhor para lição

e exemplo.»

Aceite quem quizer o exemplo e a lição. Observaremos, porém, que o

seculo se destaca profundamente do nosso, nas ideias, nos costumes, e

na acção, na laboração philosophica e na laboração social. Ainda assim

parece-nos que personagens mais dignos de estudo, mais adequados a

lição e exemplo para o momento presente se podéra achar. Está o livro

fluente, correcta e por vezes eloquentemente escripto, e mais uma prova

é do que dissemos no começo d’esta apreciação. Acerca-se Vasconcellos,

da historia,--escriptor elegante ou elegante _flaneur_ da

arte,--como quem entra na alcova de fidalga dona para lhe escrever, em

album formoso, galante pagina.

Lembramo-nos muitas vezes, lendo-o, da fina ironia com que Rebello da

Silva fallava uma vez no curso superior de lettras dos que julgariam

ter commettido um crime, fallando d’um rei não lhe terem anteposto o

respeitoso: «senhor» «o senhor rei Fulano, a senhora rainha Sicrana».

Não falta a esta etiqueta cortezã o nosso escriptor.

Corrigidos os exageros patrioticos e as mystificações criticas de que

demos bastantes exemplos, é um livro excellente, este. Se não fizer

grande bem, não ha a receiar d’elle mal algum e foram as melhores, de

certo, as intenções de quem o escreveu. Antes procurassem escrever

livros d’aquelles certos litteratos,--_verbosi in refacili, in

difficili muti_, como diria Cujas,--do que andassem feirando umas

bugigangas de nulla valia.

Segundo livro de crítica · 第 77 / 103 题