Esculptura.--Desenhos.--Gravura.--Photographia.
Calmels (Anatole Celestin) parece-me um esculptor consummado.
Technicamente o busto do rei D. Luiz está excellentemente trabalhado, e
os _Retratos dos filhos do snr. J. Larcher_ (medalhão em gesso) é
um soberbo specimen.
_Mais um anjo no céo_, é uma composição allegorica representando
uma mãe pranteando junto d’um berço que a morte tornou solitario, e um
anjo de proporções porventura relativamente exageradas, que leva nos
braços a creança que se finou. É pouco mais ou menos que uma banalidade
de necrologio. A posição da aza esquerda do celeste raptor é falsa:
sacrificou-se a verdade á _convenção_ technica. O quadro está bem
trabalhado.
O _Amor da patria_, estatua em gesso de Nunes, é uma outra
composição allegorica, cujo sentido não se adivinharia se o catalogo o
não désse. Inconvenientes do genero. É um ferrabraz de capacete e corpo
semi-nu, se bem me lembro, especie de Leonidas mestiço, como se aprazem
os artistas sempre em symbolisar-nos o patrio amor.
Cópia de cópia é a que se reduz esta arte _symbolica_, insignifica
e mentirosa do nosso tempo.
Lembram-me os nossos Mirabeau de casaca e luva branca que precisam
despertar a fecundia e estimular a inspiração com alguns copos de
cognac de Champagne, antes de fazer estremecer a fibra patriotica aos
burguezes do bairro já preparados convenientemente pelos hymnos de
qualquer phylarmonica, para o embasbacamento ante os feitos dos seus
maiores.
Segredos do officio. Tambem Napoleão recommendava aos seus
quarteis-mestres o cuidadoso fornecimento d’agua-ardente, optimo
estimulante de grandes enthusiasmos na soldadesca.
É pois geralmente a que se reduz a arte _symbolica_ do nosso
tempo: cópia de cópia, machina de _effeitos_, adulação e
convenção. Fallece a inspiração sincera, desassombrada, vigorosa,
porque escassea a crença, a convicção profunda, o _ideal_.
Substitue-o a _academia_, o modêlo, o canon consagrado, a
iconographia. Ha livros que ensinam como se ha de representar o amor
patrio, o amor filial, todas as grandes paixões, ou antes todas as
grandes existencias psychicas. Ha compendios para isto tudo.
Depois, tal mestre _personalisou_, symbolisou por tal fórma tal
paixão.
_Abyssus, abysmum invocat._ Este é o extremo abysmo da arte.
Mas emfim ha excepções. Uma, brilhantissima conheço: é Scheffer.
Technicamente o trabalho de Nunes é uma maravilha de artista obscuro e
trabalhador e uma das melhores cousas da Exposição.
Brilhantemente se apresentam tambem os dois alumnos da Academia, Sá e
Silva.
O busto em gesso do primeiro é obra de mestre.
Os desenhos de Keil confirmam as boas esperanças que a proposito d’este
talentoso artista manifestei em artigo anterior.
_Silva_ (Caetano Alberto da) é um gravador estudioso e delicado.
Pelo menos como tal se apresenta nos trabalhos que expõe, trabalhos
onde a par de muitos defeitos, não faltam bellezas.
_Guimarães_ (João V. Pereira) expõe quatro photographias,
representando os quatro quadros expostos de Annunciação. Provam bom
estudo e promettem progresso.
Pardal e filho (A. C.) confirmam uma vez mais a boa conta em que todos
os teem de excellentes photographos. As suas photographias revelam
estudo e boa vontade de progredir.
As photographias de Relvas (Carlos) encantaram justamente o publico da
Exposição. São esplendidas. Hombreiam muitas d’ellas com as melhores
photographias inglezas e austriacas. Bem mereciam decerto um artigo
especial e longo fôra elle se minuciosamente quizesse eu registrar
todas as bellezas d’aquelles magnificos exemplares. A photographia não
é decerto uma arte na mais elevada ou restricta accepção da palavra,
e bem andou o conselho em fechar a Exposição ao diluvio de retratos
com que o _processo_ photographico ameaçava invadil-a, mas as
photographias do eximio _amador_ Relvas é que mereciam bem a
excepção, e tinham direito a figurar ali.
Isto mesmo deveriam reconhecer os despeitados, que melhor andariam
promovendo uma exposição de photographias do que gastando tempo e tinta
era manifestações d’injusto resentimento.
D’alguns sabemos que fariam ali esplendida figura.