O «Malmequer» é um mau quadro que podia ser um quadro excellente se o
author attendesse mais á expressão que ao effeito do colorido, mais á
verdade da natureza que á technica e á _convenção_.
É a historia tantas vezes repetida de amorosa donzella que pede á flôr
campesina o segredo d’um coração por cujo amor anhela.
A palavra fatidica _malmequer_ foi a resposta da ultima folha
cahida no regaço. No quadro em questão a enamorada donzella é uma
mulher avermelhada, não sabemos se por abundancia de saude, se por
voluptuosos desejos, se por epidemica enfermidade, contrastando-lhe
desagradavelmente o acerejado das faces com a expressão d’intima
tristeza, d’indizivel saudade que o artista soube dar-lhe
magnificamente ao olhar scismador.
Traja exoticas vestiduras de côres vivas e feias, não se perdendo
apesar d’isso a harmonia do colorido, mas revelando-se mais ainda a
falta de harmonia de expressão que é o grande defeito do quadro.
«Os peixes» é um quadro admiravel. É dos taes que têem o «_brio des
belles choses_». Desenho e colorido maravilham pela verdade e pelo
estudo que patenteiam, e Rodrigues póde bem registrar n’esta soberba
composição uma gloria do seu pincel.
De todos os pintores da Exposição é seguramente este o que menos
denuncia uma especialisação artistica, posto que o retrato seja
geralmente como o genero em que prima.
Talento vasto, pincel fecundo e inspirado por vezes, imaginação
delicada e vontade energica para o estudo, Rodrigues é um dos nossos
artistas que mais promettem dar para a arte nacional contemporanea se
aquellas qualidades brilhantes lhe não forem atrophiadas, como a outros
tem acontecido, pelo orgulho pedante e infecundo soprado sobre a tela
pela critica parva e inconsciente das nossas theocracias litterarias,
que felizmente para todos, vão sendo diariamente cerceadas e reduzidas
ás suas justas proporções.
«Penhascos da Mancha», «Dois marroquinos», «O antigo vendedor de
agriões em Cintra», «O rapaz pedinte», e «A sésta do porco», são
quadros que bem mereciam minuciosa crítica, que encerram numerosas
bellezas e que confirmam os bons creditos de Rodrigues.
Aquelle encyclopedismo artistico,--permittam-me a expressão--podia
bem ser um _tour de force_, que o mercantilismo actual da arte
justificasse e a verdadeira crítica tivesse de lastimar.
Mas não é. Sem aconselhar a Rodrigues que inscreva sobre o portal
da sua officina o _De omnibus rebus et quibus dei alius_,
desejo sinceramente que elle se conserve independente dos exaggeros
anti-estheticos do exclusivismo e da especialisação.
A _Scena oriental_, excepção feita d’alguns accessorios, é um
quadro _quasi_ mediocre.
E já que fallei em accessorios, direi que o accessorio é o grande vicio
e a grande virtude, o grande defeito e a grande belleza do pincel de
Rodrigues.
Parece isto um paradoxo e não é.
Ninguem entre nós, como este artista, sabe pintar os accessorios, a não
ser Bordallo, pae.
Ninguem porém como Rodrigues esquece por elles o assumpto principal.
Vêde-lhes os retratos. São d’um artista que se dedica fanaticamente
_au culte de la dentelle et du satin_, como diz About.
No _Retrato de D. Pedro V_ o rosto não tem vida, mas que immensa
distancia não vae d’aquellas douraduras da farda aos _amarellos_
da do retrato do rei D. Luiz. Que cuidados, que estudo minucioso dos
accessorios!
Os _Retratos do snr. Y. Y. e sua esposa_ dão honra ao author.
O defeito porém lá apparece tambem. Lá se revela tambem a brilhante
qualidade.
Rodrigues é retratista do accessorio, como outro artista da Exposição
se revela retratista do incidente.
O genero é difficil e está sujeito a estas aberrações. O verdadeiro
retrato não é aquillo, mas diga-se a verdade: Nunes (no retrato do
padre Antonio Vieira), Ramos e Rodrigues são os unicos retratistas
toleraveis da Exposição, os que mais se aproximam da verdade do genero.
O _Retrato de Henrique Feijó da Costa_ é excellente.
_O guarda da linha ferrea_ é um quadro mediocre. Tem seus pontos
de contacto com o quadro da _tœnia_ olympica de Thomasini.