RODRIGUES (José)

O «Malmequer» é um mau quadro que podia ser um quadro excellente se o

author attendesse mais á expressão que ao effeito do colorido, mais á

verdade da natureza que á technica e á _convenção_.

É a historia tantas vezes repetida de amorosa donzella que pede á flôr

campesina o segredo d’um coração por cujo amor anhela.

A palavra fatidica _malmequer_ foi a resposta da ultima folha

cahida no regaço. No quadro em questão a enamorada donzella é uma

mulher avermelhada, não sabemos se por abundancia de saude, se por

voluptuosos desejos, se por epidemica enfermidade, contrastando-lhe

desagradavelmente o acerejado das faces com a expressão d’intima

tristeza, d’indizivel saudade que o artista soube dar-lhe

magnificamente ao olhar scismador.

Traja exoticas vestiduras de côres vivas e feias, não se perdendo

apesar d’isso a harmonia do colorido, mas revelando-se mais ainda a

falta de harmonia de expressão que é o grande defeito do quadro.

«Os peixes» é um quadro admiravel. É dos taes que têem o «_brio des

belles choses_». Desenho e colorido maravilham pela verdade e pelo

estudo que patenteiam, e Rodrigues póde bem registrar n’esta soberba

composição uma gloria do seu pincel.

De todos os pintores da Exposição é seguramente este o que menos

denuncia uma especialisação artistica, posto que o retrato seja

geralmente como o genero em que prima.

Talento vasto, pincel fecundo e inspirado por vezes, imaginação

delicada e vontade energica para o estudo, Rodrigues é um dos nossos

artistas que mais promettem dar para a arte nacional contemporanea se

aquellas qualidades brilhantes lhe não forem atrophiadas, como a outros

tem acontecido, pelo orgulho pedante e infecundo soprado sobre a tela

pela critica parva e inconsciente das nossas theocracias litterarias,

que felizmente para todos, vão sendo diariamente cerceadas e reduzidas

ás suas justas proporções.

«Penhascos da Mancha», «Dois marroquinos», «O antigo vendedor de

agriões em Cintra», «O rapaz pedinte», e «A sésta do porco», são

quadros que bem mereciam minuciosa crítica, que encerram numerosas

bellezas e que confirmam os bons creditos de Rodrigues.

Aquelle encyclopedismo artistico,--permittam-me a expressão--podia

bem ser um _tour de force_, que o mercantilismo actual da arte

justificasse e a verdadeira crítica tivesse de lastimar.

Mas não é. Sem aconselhar a Rodrigues que inscreva sobre o portal

da sua officina o _De omnibus rebus et quibus dei alius_,

desejo sinceramente que elle se conserve independente dos exaggeros

anti-estheticos do exclusivismo e da especialisação.

A _Scena oriental_, excepção feita d’alguns accessorios, é um

quadro _quasi_ mediocre.

E já que fallei em accessorios, direi que o accessorio é o grande vicio

e a grande virtude, o grande defeito e a grande belleza do pincel de

Rodrigues.

Parece isto um paradoxo e não é.

Ninguem entre nós, como este artista, sabe pintar os accessorios, a não

ser Bordallo, pae.

Ninguem porém como Rodrigues esquece por elles o assumpto principal.

Vêde-lhes os retratos. São d’um artista que se dedica fanaticamente

_au culte de la dentelle et du satin_, como diz About.

No _Retrato de D. Pedro V_ o rosto não tem vida, mas que immensa

distancia não vae d’aquellas douraduras da farda aos _amarellos_

da do retrato do rei D. Luiz. Que cuidados, que estudo minucioso dos

accessorios!

Os _Retratos do snr. Y. Y. e sua esposa_ dão honra ao author.

O defeito porém lá apparece tambem. Lá se revela tambem a brilhante

qualidade.

Rodrigues é retratista do accessorio, como outro artista da Exposição

se revela retratista do incidente.

O genero é difficil e está sujeito a estas aberrações. O verdadeiro

retrato não é aquillo, mas diga-se a verdade: Nunes (no retrato do

padre Antonio Vieira), Ramos e Rodrigues são os unicos retratistas

toleraveis da Exposição, os que mais se aproximam da verdade do genero.

O _Retrato de Henrique Feijó da Costa_ é excellente.

_O guarda da linha ferrea_ é um quadro mediocre. Tem seus pontos

de contacto com o quadro da _tœnia_ olympica de Thomasini.

Segundo livro de crítica · 第 67 / 103 题