XVI

REIS (D. Maria Guilhermina da Silva)--ROMA (D. Amelia

Virginia)--SPERLING (Mad.)--TOLEDO (J. Garcia de).

D. Maria Reis, manifesta innegavelmente progressos notaveis e manifesta

um pincel firme e estudioso, e fecunda esthesia. Promette seguir de

perto Newton (Izaias) e tomando tão excellente guia não terá com

certeza a registrar desastre como o d’este anno no seu quadro: _Os

patos no tanque_.

Lave a talentosa artista a tela que desperdiçou n’aquillo e não se

irrite injustamente com a critica, que por isso que é conscienciosa,

lhe pede cousa melhor do que aquelle malfadado quadro, porque sabe que

muito melhor póde a artista produzir.

Dos criticos diz Ed. About, que teem: «_ ...pour ennemis naturels

tous les artistes qui fond bien et que pourraient faire mieux.

Leur devoir est de fondre sur eux sans déclarations de guerre,

de les harceler á toute heure et de leur pousser l’epée dans les

reins, jusqu’a ce qu’ils aient santé le fossé qui les sépare de la

perfection._»

Ora em outros quadros de D. Maria Reis, tenho eu a prova de que

esta artista póde _faire-mieux_ e de que a critica se não deve

alimentar a esperança de a vêr saltar o fosso que a separa da supposta

perfeição que sonha About, póde esperar que não se despenhe n’elle.

_Arrabaldes de Cintra_ é um quadro a que não faltam de certo

bellezas, que bem compensam os defeitos. Bom desenho, magnificos

_longes_, soffriveis _ares_ e o colorido suave e harmonico.

_Paizagem no Linho_, _A manhã_, e _O pastor dando agua

ao gado_, são quadros de incontestavel merecimento. Geralmente os

primeiros planos dos quadros d’esta artista são maus, ao passo que os

ultimos admiravelmente _tocados_ e estudados quasi sempre.

Os quadros de D. Amelia Roma denunciam uma certa

_feminilidade_,--permittam-me a expressão,--de pincel gracioso

e elegante, que mais encantaria se o assumpto denunciasse mais

cultivada esthesia ou mais elevada inspiração. N’este ponto,--diga-se

a verdade,--todas as artistas da exposição foram excedidas pela sua

distincta collega Quigilcar.

Apezar do quadro: _A mesa de gabinete_, que tem muitas bellezas

technicas, a artista de que ora trato parece dedicar-se apenas aos

_bodegones_ ou quadros de _natureza-morta_, de que apresenta

dois exemplares, que não chamarei magnificos, depois de ter dado

epitheto egual á pintura de Lessere, mas que decerto promettem muito e

denunciam já um pincel consciencioso e fecundo.

O quadro: _O monte Branco, visto da aldeia de Chamounix_, é uma

soberba paizagem que passou quasi desapercebida para o publico da

exposição. É que como diz o critico que acima citei, _le public des

expositions court aux peintures bruyantes comme dans les rues ... la

foule s’attroupe au tour d’une maison où l’on crie_.

Pois o quadro de mad. Sperling, em desenho como em colorido, pouco

deixa a desejar.

É uma habil artista.

É um paizagenista notavel Toledo. Ha nos seus quadros uma certa

illuminação monotona e fria que não parece ser de pintor nascido n’este

calido ambiente de luz meridional.

Os seus quadros teem todos aquelle cunho. Esta _identidade_

constante, que como diz Musset, difficulta muito a critica, não é

decerto simplesmente um defeito de pincel. Toledo, verdadeira antithese

de Christino, é comtudo como elle um artista que _ne peut lever

la main sans que sa main le trahisse et sans que son œuvre ne le

nomme_.[30]

Desapparece por vezes a verdade da natureza n’esta personalidade da

arte.

A _Serra Nevada_ porém é um excellente quadro. A _mancha_ é

geralmente boa, o desenho correcto, e os _ares_ pouco deixam a

desejar.

Não lhe é inferior o quadro _Sobreiras_, o que já não acontece com

a _Paizagem com gado_, etc.

O _ar_ é uma das grandes difficuldades da technica pictorica e

onde os _processos_ melhor podem comprovar as suas vantagens

relativas. E assim a _agua_ tambem.

Para o pintor é bem verdadeira a phrase do grande poeta inglez:

_perfida como a onda_.

Segundo livro de crítica · 第 62 / 103 题