REIS (D. Maria Guilhermina da Silva)--ROMA (D. Amelia
Virginia)--SPERLING (Mad.)--TOLEDO (J. Garcia de).
D. Maria Reis, manifesta innegavelmente progressos notaveis e manifesta
um pincel firme e estudioso, e fecunda esthesia. Promette seguir de
perto Newton (Izaias) e tomando tão excellente guia não terá com
certeza a registrar desastre como o d’este anno no seu quadro: _Os
patos no tanque_.
Lave a talentosa artista a tela que desperdiçou n’aquillo e não se
irrite injustamente com a critica, que por isso que é conscienciosa,
lhe pede cousa melhor do que aquelle malfadado quadro, porque sabe que
muito melhor póde a artista produzir.
Dos criticos diz Ed. About, que teem: «_ ...pour ennemis naturels
tous les artistes qui fond bien et que pourraient faire mieux.
Leur devoir est de fondre sur eux sans déclarations de guerre,
de les harceler á toute heure et de leur pousser l’epée dans les
reins, jusqu’a ce qu’ils aient santé le fossé qui les sépare de la
perfection._»
Ora em outros quadros de D. Maria Reis, tenho eu a prova de que
esta artista póde _faire-mieux_ e de que a critica se não deve
alimentar a esperança de a vêr saltar o fosso que a separa da supposta
perfeição que sonha About, póde esperar que não se despenhe n’elle.
_Arrabaldes de Cintra_ é um quadro a que não faltam de certo
bellezas, que bem compensam os defeitos. Bom desenho, magnificos
_longes_, soffriveis _ares_ e o colorido suave e harmonico.
_Paizagem no Linho_, _A manhã_, e _O pastor dando agua
ao gado_, são quadros de incontestavel merecimento. Geralmente os
primeiros planos dos quadros d’esta artista são maus, ao passo que os
ultimos admiravelmente _tocados_ e estudados quasi sempre.
Os quadros de D. Amelia Roma denunciam uma certa
_feminilidade_,--permittam-me a expressão,--de pincel gracioso
e elegante, que mais encantaria se o assumpto denunciasse mais
cultivada esthesia ou mais elevada inspiração. N’este ponto,--diga-se
a verdade,--todas as artistas da exposição foram excedidas pela sua
distincta collega Quigilcar.
Apezar do quadro: _A mesa de gabinete_, que tem muitas bellezas
technicas, a artista de que ora trato parece dedicar-se apenas aos
_bodegones_ ou quadros de _natureza-morta_, de que apresenta
dois exemplares, que não chamarei magnificos, depois de ter dado
epitheto egual á pintura de Lessere, mas que decerto promettem muito e
denunciam já um pincel consciencioso e fecundo.
O quadro: _O monte Branco, visto da aldeia de Chamounix_, é uma
soberba paizagem que passou quasi desapercebida para o publico da
exposição. É que como diz o critico que acima citei, _le public des
expositions court aux peintures bruyantes comme dans les rues ... la
foule s’attroupe au tour d’une maison où l’on crie_.
Pois o quadro de mad. Sperling, em desenho como em colorido, pouco
deixa a desejar.
É uma habil artista.
É um paizagenista notavel Toledo. Ha nos seus quadros uma certa
illuminação monotona e fria que não parece ser de pintor nascido n’este
calido ambiente de luz meridional.
Os seus quadros teem todos aquelle cunho. Esta _identidade_
constante, que como diz Musset, difficulta muito a critica, não é
decerto simplesmente um defeito de pincel. Toledo, verdadeira antithese
de Christino, é comtudo como elle um artista que _ne peut lever
la main sans que sa main le trahisse et sans que son œuvre ne le
nomme_.[30]
Desapparece por vezes a verdade da natureza n’esta personalidade da
arte.
A _Serra Nevada_ porém é um excellente quadro. A _mancha_ é
geralmente boa, o desenho correcto, e os _ares_ pouco deixam a
desejar.
Não lhe é inferior o quadro _Sobreiras_, o que já não acontece com
a _Paizagem com gado_, etc.
O _ar_ é uma das grandes difficuldades da technica pictorica e
onde os _processos_ melhor podem comprovar as suas vantagens
relativas. E assim a _agua_ tambem.
Para o pintor é bem verdadeira a phrase do grande poeta inglez:
_perfida como a onda_.