Por mais d’um motivo merece o artista hespanhol um artigo especial
n’esta revista. Não póde elle ser tão desenvolvido quanto o requeria a
_originalidade_ de pincel e assumpto que n’este artista se revela
e o merecimento incontestavel d’elle, tudo correlativamente a esta
exposição, já se vê.
O primeiro quadro exposto é o que representa: «_A Virgem da
Conceição_», reminiscencia de certo quadro bem conhecido de Murillo.
É uma ascenção. O assumpto está tractado com notavel graciosidade, mimo
e singeleza.
Na pintura sacra do sul a plastica pagan impõe-se caracteristicamente.
A concepção christã só a arte do norte a soube realisar nos tempos
da sua fecunda autonomia esthetica, tempos de _renascença_
septentrional, como dizem os allemães; anteriores aos da
_renascença_ do sul, lufada ardente que ao descer as serranias
alpinas apaga na face pallida da Virgem gothica o clarão do extasis
ascetico para lhe pôr nos labios o sorriso das Venus humanisadas e
denunciar-lhe sob a tunica as fórmas das Phryneas.
«Estas bellas santas, com a sua expressão christã--dizia
Prudhon,[26]--me parecem seguramente mais bellas, que as deusas
impassiveis dos Gregos ... Amo as santas de Raphael, apesar de santas,
virgens, martyres e vestidas como são; o mesmo ainda da virgem Maria
até ao seu casamento. Sim, fico amoroso d’esta bella e grande rapariga,
imitada da Diana caçadora, e dada a um velho predestinado ao papel
d’anjo guardião; não me acontece o mesmo das deusas antigas, apesar de
nuas, nem de Diana, nem de Pallas, nem da Venus, etc. A _Madona_
só escapa ao meu amor pela criança que tem nos braços: é o respeito da
maternidade que a salva.»
«Por mais que se diga da arte ascetica, d’uma arte hostil ao culto da
fórma, d’uma antithese da arte, se me atrevo a dizer assim, esta arte
não é menos positiva e especifica; tem sua razão de ser, seu caracter,
sua ideia, seu fim; produziu monumentos tão marcados com o cunho do
genio como os dos gregos.»
«Rachitica e chorosa nas suas figuras, monstruosa na sua architectura
(vede esses botareos, contra-fortes, esses pilares giganteos servindo
como de muletas ás abobadas vacillantes), ella affirma-se com tanta
potencia e mais sublimidade que as suas antecessoras. A renascença
como genialidade, originalidade, ideia artistica, fica-lhe inferior: é
que no seu arrojo, na immensa maioria das suas producções, tem por fim
alliar e fundar duas cousas as mais incompativeis, a espiritualidade do
sentimento christão e a ideia das figuras gregas.»
«Mixto de paganismo e espiritualidade ... attinge como a arte dos
gregos o culto idolatrico da fórma. As Virgens de Raphael, se não
são filhas de Venus, são menos filhas da compuncção: o _ar_ de
espiritualidade que ha nas suas physionomias lucta com a sua belleza, o
seu talhe, as suas mãos, os seus braços, o seu seio de nymphas. Menos
divinas, mais humanas que as deusas do Olympo, inspiram um sentimento
menos puro que o que se resente á vista d’uma estatua grega. A Venus de
Milo, apesar de nua, é mais casta que a mais respeitavel das Madonas
vestida até ao queixo e tendo nos braços o menino Jesus.»[27]
De feito, como já atraz largamente se expôz, o _ascetismo_ da arte
medival do norte traduz a espiritualidade christã; a concepção mystica
da sobrenaturalidade por um lado e a degradação da materia por outro.
O culto da plasticidade pagan, ou natural, corresponde a outro ideal, a
outra concepção, e a sua alliança na renascença com a espiritualidade
catholica prova simplesmente a dissolução, o derrocamento,--deixem
assim dizer,--do modo de ser concepcional, collectivo, sem affirmar uma
concepção nova.
É a epocha das transformações, a epocha intermediaria e por isso
eccletica e por isso da arte _ambigua_ como lhe chama Prudhon.
Uma das autonomias mais accentuadas e caracteristicas da arte
renascente do sul é a da pintura hespanhola, a da chamada eschola
sevilhana principalmente.
A idealidade da fórma envolve-se aqui n’uma religiosidade profunda,
sincera, tradiccional, imaginosa até, que por causas complexas não
attinge o ascetismo do norte nem se deixa dominar completamente pelo
culto da plasticidade classica. É uma feição original, esta.
Não chega, porém, a ser uma excepção ao que acaba de dizer-se.
No fim de tudo o _meio_ impõe-se sempre á arte atravez do homem,
e Murillo, o pintor popular e nacional, dá ás suas virgens o rosto das
mulheres meridionaes «con sus rasgados e negros ojos, con su cútis
moreno y con sus formas morbidas y sensuales»,[28] quer dizer: não
renega na sua religiosidade o amor da fórma, o sentimento da carne
emfim, a idealidade plastica, sensual, do meio-dia, não comprehende,
não attinge o psychismo exclusivista christão. É um pintor catholico,
e o catholicismo, attenda-se bem, é já a transformação do pensamento
christão todo espiritualista, cujo _reino não é d’este mundo_,
n’um pensamento social.
N’esta differença está talvez em germen a reforma lutherana, producto
genial do norte como o gothicismo.
Simplesmente Murillo era um catholico profundamente crente, um filho
d’aquelle povo «que creia servir á Dios quemando hereges»,[29] não
tem o ascetismo do norte, mas não se deixa tambem absorver pelo
classicismo pagan, e como nenhum pintor da renascença, sabia derramar
sobre os seus personagens a luz d’uma beatitude ingenua, pura, que
como que os isolava do mundo; dava a essas virgens de «formas morbidas
y sensuales», «tanta idealidad sublime en la mirada, tanta dignidad
en las actitudes, tanto recogimento en la espresion, que concluia
por santificar aquellos mismos typos que en otras manos hubieran
constituido ocasion de peligro sos estravios.»
E o mesmo se póde dizer de Zurbaran e outros.
Nos nossos tempos a pintura religiosa (catholica) corre mais perigos
que nunca de falsidade, affectação e _pastiche_. Como feição
collectiva é claro que não existe, como não existe arte pagan, nem arte
alguma. É exactamente na carencia d’um ideal collectivo que está a
feição e se querem a decadencia ou pelo menos a impotencia relativa da
arte contemporanea. No acanhado individualismo das suas affirmações é
tambem mais que duvidosa a verdade e espontaneidade da sua idealisação
plastica.
É por isso que nas poucas tentativas de pintura _catholica_
vemos simplesmente a apropriação mais ou menos disfarçada das velhas
concepções, a _imitação_, quando não vemos a contrafacção e
o _pastiche_ mercantil. É claro que ponho de parte a pequena
parcella da pintura sacro-symbolica, ou da arte christã-racionalista a
que falta a orthodoxia catholica. O Christo de Scheffer é pelo menos
o Christo de Renan, e estas duas concepções artisticas não entram de
certo no genero de que temos tratado.
Voltemos porém atraz.
Nas producções de Sanches denuncia-se muito trabalho de _copia_
dos mestres hespanhoes, de Murillo principalmente. Nas roupagens parece
por vezes manifestar-se estudo de Zurbaran.
Ha quadros porém de Sanches, d’uma precipitação e desleixo deploravel e
em todos se vê falta de estudo do natural.
A «Conceição» tem, como outros d’este artista, admiravel suavidade de
contorno que quasi supprime a _linha_, doçura de expressão, bella
e difficil harmonia de tons. As tintas estão bem postas geralmente,
apresentando um certo macio e brilho pouco vulgares.
O que se diz da «Conceição» póde dizer-se aproximadamente da «Nossa
Senhora de Belem» e da «Divina Pastora».
Como _retratista_, Sanches tem tambem bastante merecimento. Não
pinta á Debufe nem escolhe o _incidente_ como certos retratistas.
O desenho é geralmente bom e o colorido tem quasi sempre verdade. Os
fundos é que ás vezes são mal escolhidos, provocando difficuldades
d’harmonia com o que parece gostar de arrostar o artista; os
accessorios pouco cuidadosamente estudados.
Além d’estes ha ainda outros notaveis defeitos com outras bellezas nos
retratos do «ex.^{mo} snr. Avellar» «Barão de Paiva Manso,» «ex.^{ma}
snr.^a D. Carolina de N.», «D. Fernando Alegro», etc.