XIII

PINHEIRO (Manoel Maria Bordallo).

Chama-se: «A prova do vinho novo», um dos quadros.

É uma adega. A construcção denuncía gothicismo. Um _senhor_, um

fidalgo vestido no gosto da epocha de Francisco I, aproximadamente,

sentado n’uma poltrona antiga, parece ter vindo tomar contas aos seus

_caseiros_,--deixem a palavra mais portugueza e menos humilhante

que a de servos,--e provar o novo vinho dos seus vinhedos, após algum

passeio ou caçada pelos arredores. Segura n’uma mão, que descansa em

velha meza, um livro. Em pé, defronte d’elle, uma aldeona rechonchuda,

boçal e acerejada, lança-lhe o vinho, d’um jarro que porventura destôa

bem como outro que está no chão, da singeleza da scena que já não é

das mais verosimeis, e da rudeza do _local_, pela luxaria das

fórmas que parecem pertencer ao estylo de Cellini, e pelo metal do

fabrico que semelha prata.

Junto da moçoila, em pé tambem, em posição embaraçosa e

humilde,--naturalissima,--com as duas mãos a segurarem nas abas do

chapéo camponio que cahe sobre os joelhos, está um velho aldeão, em

cujo rosto transparece o respeito tradiccional da dependencia convicta

e a rusticidade ingenua da gente campesina.

Esta é a scena.

O colorido em geral é excellente e notavelmente vigoroso, e póde

observar-se aqui ou ali alguma cousa da subtileza e desafogo da arte

flamenga em que este quadro póde filiar-se.

A luz e a sombra estão delicada e naturalmente distribuidas, e os

trajes, como os accessorios, estão muito bem tratados.

A expressão e contrastes de physionomias são cousas magnificas.

«A Prova do Vinho Novo» é uma esplendida tentativa,--e das primeiras

entre nós,--no genero em que Meissonier, sem exceder Metzu, imprimiu o

cunho d’uma originalidade robusta e fecunda. É innegavelmente um dos

primeiros quadros da Exposição, posto pareça não ter sido como tal

considerado pelo criterio do _conselho dos competentes_.

Escassissimo ou parcial criterio!

E se ha a receiar em Bordallo os defeitos e aberrações em que tem

cahido alguns discipulos de Meissonier, ha a reconhecer-lhe tambem

o estudo, a boa vontade e a fina intelligencia de Chavet, _la plus

heureuse victime_, como diz About do grande pintor de quadros

microscopicos.

Ha n’aquelle quadro, como em quasi todos d’este genero, de Bordallo,

defeitos de perspectiva notaveis.

Curiosa cousa!

De Meissonier dizia em 1855 Theophilo Gauthier:

«_Les seuls defauts qu’on pourrait relever chez lui, c’est de

prendre en general despoints de perspective trop rapprochés et de ne

pas faire flotter assez d’athmosphere autour de ses personnages: cela

produit des lignes ascendantes désagréables; et fait venir les fonds en

avant_...»

Bordallo apresenta estes mesmos defeitos aggravados pela incorrecção do

desenho de perspectiva linear, facto que eu não sei explicar em vista

do trabalho minucioso e cuidadoso, do amor com que são tractados os

accessorios e _detalhes_ que faz lembrar até o que de Granet dizia

Musset em 1836.

«O copo d’agua» é outro quadro no mesmo genero e menos singelo do que o

titulo parece indicar.

Um cavalleiro trajando á Luiz XV, segundo a accepção commum, sentado

junto d’uma dama, a quem parece ter vindo fazer uma visita, toma d’uma

bandeja que uma moçoila negra lhe apresenta, um copo d’agua; mais além

um vulto de frade parecendo comer qualquer cousa; nos primeiros planos

um gato adormecido e um traste que lhe é adequado; os fundos adornados

de velhos quadros, etc.

Eis o «copo d’agua».

O desenho das figuras é correcto, o colorido vigoroso e estudado com um

cuidado e amor que encanta.

Os accessorios são admiraveis; citarei apenas os azulejos da parede á

esquerda, e o quadro sacro que lhe está sobre-posto. As roupagens são

n’um ou n’outro ponto uma maravilha.

O mesmo apoucamento de espaço, d’_ar_, e a mesma incorrecção de

perspectiva já citada, se observa aqui.

O «Reclamo», quadro de diminutas dimensões tambem, é pintura de

muita singeleza, naturalidade e frescôr, muito diversa de todas

as composições, que conheço d’este artista e dos de quadros de

_métier_ que por ahi vemos decantados.

A este genero de _effeito_, antes que aos mentirosos effeitos

de technica, deviam mirar certos artistas que só estudam em Troyon o

processo e em Rose Bonheur o desenho.

Um rapasola córado e alegre em trajes alemtejanos, n’uma velha

janella com tendencias ogivaes, das que abundam nas estalagens

provincianas,--tira d’uma flauta tosca alguma ariasinha campestre que

vae annunciar á namorada a presença ou regresso do seu _bem_, como

se diz na pittoresca e ás vezes tão expressiva locução rural.

Ha tanta vida n’aquelle rosto franco e varonil, que se esquece quasi

a gente de notar a _dureza_ exagerada da mão e a falta de relêvo

n’alguns accessorios.

E já que n’estes fallei, devo notar a roseira plantada n’uma caixa

preza no peitoril da janella e a rosa branca n’um copo sobre aquelle.

Concorrem para o effeito singelo e commovente do quadro e estão

excellentemente tractadas.

Esta rosa é quasi um symbolo. Lembra aquellas phrases de João Paulo:

«A alma d’uma donzella semelha-se a uma rosa desabrochada: arrancae do

calice uma só folha e todas as outras cahirão prestes.»

«Juntae terra em redor da raiz que nutre esta planta delicada, mas não

lh’a deixeis cahir no calice.»

O desenho do quadro é em geral bom, o colorido muito estudado,

apresentando uma suavidade e harmonia de tons que convergem para o

effeito attrahente e immensamente sympathico do quadro.

Bordallo parece tentar seguir a arte flamenga e hollandeza na

exploração da vida domestica ou das phases obscuras e modestas da vida

commum, n’alguns quadros recentes.

É isto origem de muitos desdens e de muitas hesitações.

O naturalismo franco, o ingenuo positivismo d’aquella chamada

pintura flamenga e hollandeza,--e está-nos naturalmente acudindo á

memoria o nome de Rembrandt,--não se casa com as _academias_,

as _poses_ regulamentares ou phantasiosas, as convenções

tradiccionaes ou as aberrações da arte classica ou romantica, ou

eccletica, ou ambigua, que affirmando um ideal immobilista e

ultra-natural, fixa as fórmulas de interpretação ou entrega esta á

phantasia individual.

Para a fórma como para o assumpto, para o sentimento esthetico como

para a realisação plastica, ha um Deus Termino na velha critica

artistica, desprezado o qual para passar além, cahe-se no _baixo_,

no _grosseiro_, no _trivial_, profana-se a arte, rebaixa-se o

artista, e conquistam-se os desdens e os anathemas dos aristocratas ou

aristocratisadores da arte.

E se mais complacente, como revolução, o romantismo permitte até

certo ponto a exploração da vida real, commum, _humanisada_, é

impondo-lhe alambicamentos e suppostos embellezamentos idealistas que a

falseam e deturpam, é mutilando-a ou mascarando-a; é fazendo _a arte

pela arte_.

Decerto taes considerações, como outras que para traz ficam, mal podem

applicar-se á nossa comesinha arte, que vive n’um circulo bem apoucado

de doutrina e critica, mas o que é certo é que ellas explicam em grande

parte as censuras e as hesitações de que fallamos, com relação a

Bordallo.

Não tem este larga força concepcional e larga illustração de criterio

para umas e outras combater.

A maioria das suas composições são insignificativas e phantasiosas.

Geralmente póde applicar-se-lhe o que About dizia de Meissonier,

guardadas as respectivas distancias:

«_Précieux sans originalité, ingénieux sans imagination, adroit sans

verve, serré sans puissance, élégant sans charme, subtil et fin plutot

que délicat_...».

Comtudo n’algumas outras composições ha pensamentos fecundos,

inspiração sadia e propria, certa finalidade moral.

Demais, Bordallo, é um innovador: enceta, tenta, tatêa. Não tem

antecessores.

Terá porém seguidores e fará victimas como o brilhante artista que

acabei de citar.

Não é a reducção das dimensões usuaes, a reducção da chamada grande

pintura a pequenos quadros, a innovação mais importante decerto.

Fortoul explica judiciosamente pelas condições climatericas,--causa

mediata,--e pelas condições da _habitação_,--causa immediata,--a

differença caracteristica de dimensões da pintura _profana_ do

norte e do sul.

O que mais ha a notar e admirar na pintura de Bordallo é o assumpto e a

execução. Esta é d’uma minuciosidade escrupulosa e desesperadora, d’um

toque, que, como diria About, á força de ser pertinaz quasi se torna

impertinente, d’um colorido vigoroso, e trabalhado, imitando os nossos

chamados quadros gothicos, etc.

«_Il vide son sac dans chaque tableau et même dans chaque partie de

tableau_.»[25]

Os seus personagens trajam geralmente _costumes historicos_, mais

ou menos phantasiosos. Os trajes modernos assustam ainda os artistas e

de feito não se prestam facilmente a grandes effeitos e combinações de

luz. Por isso procuram os artistas, entre elles, os mais pittorescos,

ou lançam-se na phantasia mais ou menos franca.

Ha n’isto muito de rotina e de apêgo ás tradições technicas e

estheticas demais falseadas.

Segundo livro de crítica · 第 55 / 103 题