PINHEIRO (Manoel Maria Bordallo).
Chama-se: «A prova do vinho novo», um dos quadros.
É uma adega. A construcção denuncía gothicismo. Um _senhor_, um
fidalgo vestido no gosto da epocha de Francisco I, aproximadamente,
sentado n’uma poltrona antiga, parece ter vindo tomar contas aos seus
_caseiros_,--deixem a palavra mais portugueza e menos humilhante
que a de servos,--e provar o novo vinho dos seus vinhedos, após algum
passeio ou caçada pelos arredores. Segura n’uma mão, que descansa em
velha meza, um livro. Em pé, defronte d’elle, uma aldeona rechonchuda,
boçal e acerejada, lança-lhe o vinho, d’um jarro que porventura destôa
bem como outro que está no chão, da singeleza da scena que já não é
das mais verosimeis, e da rudeza do _local_, pela luxaria das
fórmas que parecem pertencer ao estylo de Cellini, e pelo metal do
fabrico que semelha prata.
Junto da moçoila, em pé tambem, em posição embaraçosa e
humilde,--naturalissima,--com as duas mãos a segurarem nas abas do
chapéo camponio que cahe sobre os joelhos, está um velho aldeão, em
cujo rosto transparece o respeito tradiccional da dependencia convicta
e a rusticidade ingenua da gente campesina.
Esta é a scena.
O colorido em geral é excellente e notavelmente vigoroso, e póde
observar-se aqui ou ali alguma cousa da subtileza e desafogo da arte
flamenga em que este quadro póde filiar-se.
A luz e a sombra estão delicada e naturalmente distribuidas, e os
trajes, como os accessorios, estão muito bem tratados.
A expressão e contrastes de physionomias são cousas magnificas.
«A Prova do Vinho Novo» é uma esplendida tentativa,--e das primeiras
entre nós,--no genero em que Meissonier, sem exceder Metzu, imprimiu o
cunho d’uma originalidade robusta e fecunda. É innegavelmente um dos
primeiros quadros da Exposição, posto pareça não ter sido como tal
considerado pelo criterio do _conselho dos competentes_.
Escassissimo ou parcial criterio!
E se ha a receiar em Bordallo os defeitos e aberrações em que tem
cahido alguns discipulos de Meissonier, ha a reconhecer-lhe tambem
o estudo, a boa vontade e a fina intelligencia de Chavet, _la plus
heureuse victime_, como diz About do grande pintor de quadros
microscopicos.
Ha n’aquelle quadro, como em quasi todos d’este genero, de Bordallo,
defeitos de perspectiva notaveis.
Curiosa cousa!
De Meissonier dizia em 1855 Theophilo Gauthier:
«_Les seuls defauts qu’on pourrait relever chez lui, c’est de
prendre en general despoints de perspective trop rapprochés et de ne
pas faire flotter assez d’athmosphere autour de ses personnages: cela
produit des lignes ascendantes désagréables; et fait venir les fonds en
avant_...»
Bordallo apresenta estes mesmos defeitos aggravados pela incorrecção do
desenho de perspectiva linear, facto que eu não sei explicar em vista
do trabalho minucioso e cuidadoso, do amor com que são tractados os
accessorios e _detalhes_ que faz lembrar até o que de Granet dizia
Musset em 1836.
«O copo d’agua» é outro quadro no mesmo genero e menos singelo do que o
titulo parece indicar.
Um cavalleiro trajando á Luiz XV, segundo a accepção commum, sentado
junto d’uma dama, a quem parece ter vindo fazer uma visita, toma d’uma
bandeja que uma moçoila negra lhe apresenta, um copo d’agua; mais além
um vulto de frade parecendo comer qualquer cousa; nos primeiros planos
um gato adormecido e um traste que lhe é adequado; os fundos adornados
de velhos quadros, etc.
Eis o «copo d’agua».
O desenho das figuras é correcto, o colorido vigoroso e estudado com um
cuidado e amor que encanta.
Os accessorios são admiraveis; citarei apenas os azulejos da parede á
esquerda, e o quadro sacro que lhe está sobre-posto. As roupagens são
n’um ou n’outro ponto uma maravilha.
O mesmo apoucamento de espaço, d’_ar_, e a mesma incorrecção de
perspectiva já citada, se observa aqui.
O «Reclamo», quadro de diminutas dimensões tambem, é pintura de
muita singeleza, naturalidade e frescôr, muito diversa de todas
as composições, que conheço d’este artista e dos de quadros de
_métier_ que por ahi vemos decantados.
A este genero de _effeito_, antes que aos mentirosos effeitos
de technica, deviam mirar certos artistas que só estudam em Troyon o
processo e em Rose Bonheur o desenho.
Um rapasola córado e alegre em trajes alemtejanos, n’uma velha
janella com tendencias ogivaes, das que abundam nas estalagens
provincianas,--tira d’uma flauta tosca alguma ariasinha campestre que
vae annunciar á namorada a presença ou regresso do seu _bem_, como
se diz na pittoresca e ás vezes tão expressiva locução rural.
Ha tanta vida n’aquelle rosto franco e varonil, que se esquece quasi
a gente de notar a _dureza_ exagerada da mão e a falta de relêvo
n’alguns accessorios.
E já que n’estes fallei, devo notar a roseira plantada n’uma caixa
preza no peitoril da janella e a rosa branca n’um copo sobre aquelle.
Concorrem para o effeito singelo e commovente do quadro e estão
excellentemente tractadas.
Esta rosa é quasi um symbolo. Lembra aquellas phrases de João Paulo:
«A alma d’uma donzella semelha-se a uma rosa desabrochada: arrancae do
calice uma só folha e todas as outras cahirão prestes.»
«Juntae terra em redor da raiz que nutre esta planta delicada, mas não
lh’a deixeis cahir no calice.»
O desenho do quadro é em geral bom, o colorido muito estudado,
apresentando uma suavidade e harmonia de tons que convergem para o
effeito attrahente e immensamente sympathico do quadro.
Bordallo parece tentar seguir a arte flamenga e hollandeza na
exploração da vida domestica ou das phases obscuras e modestas da vida
commum, n’alguns quadros recentes.
É isto origem de muitos desdens e de muitas hesitações.
O naturalismo franco, o ingenuo positivismo d’aquella chamada
pintura flamenga e hollandeza,--e está-nos naturalmente acudindo á
memoria o nome de Rembrandt,--não se casa com as _academias_,
as _poses_ regulamentares ou phantasiosas, as convenções
tradiccionaes ou as aberrações da arte classica ou romantica, ou
eccletica, ou ambigua, que affirmando um ideal immobilista e
ultra-natural, fixa as fórmulas de interpretação ou entrega esta á
phantasia individual.
Para a fórma como para o assumpto, para o sentimento esthetico como
para a realisação plastica, ha um Deus Termino na velha critica
artistica, desprezado o qual para passar além, cahe-se no _baixo_,
no _grosseiro_, no _trivial_, profana-se a arte, rebaixa-se o
artista, e conquistam-se os desdens e os anathemas dos aristocratas ou
aristocratisadores da arte.
E se mais complacente, como revolução, o romantismo permitte até
certo ponto a exploração da vida real, commum, _humanisada_, é
impondo-lhe alambicamentos e suppostos embellezamentos idealistas que a
falseam e deturpam, é mutilando-a ou mascarando-a; é fazendo _a arte
pela arte_.
Decerto taes considerações, como outras que para traz ficam, mal podem
applicar-se á nossa comesinha arte, que vive n’um circulo bem apoucado
de doutrina e critica, mas o que é certo é que ellas explicam em grande
parte as censuras e as hesitações de que fallamos, com relação a
Bordallo.
Não tem este larga força concepcional e larga illustração de criterio
para umas e outras combater.
A maioria das suas composições são insignificativas e phantasiosas.
Geralmente póde applicar-se-lhe o que About dizia de Meissonier,
guardadas as respectivas distancias:
«_Précieux sans originalité, ingénieux sans imagination, adroit sans
verve, serré sans puissance, élégant sans charme, subtil et fin plutot
que délicat_...».
Comtudo n’algumas outras composições ha pensamentos fecundos,
inspiração sadia e propria, certa finalidade moral.
Demais, Bordallo, é um innovador: enceta, tenta, tatêa. Não tem
antecessores.
Terá porém seguidores e fará victimas como o brilhante artista que
acabei de citar.
Não é a reducção das dimensões usuaes, a reducção da chamada grande
pintura a pequenos quadros, a innovação mais importante decerto.
Fortoul explica judiciosamente pelas condições climatericas,--causa
mediata,--e pelas condições da _habitação_,--causa immediata,--a
differença caracteristica de dimensões da pintura _profana_ do
norte e do sul.
O que mais ha a notar e admirar na pintura de Bordallo é o assumpto e a
execução. Esta é d’uma minuciosidade escrupulosa e desesperadora, d’um
toque, que, como diria About, á força de ser pertinaz quasi se torna
impertinente, d’um colorido vigoroso, e trabalhado, imitando os nossos
chamados quadros gothicos, etc.
«_Il vide son sac dans chaque tableau et même dans chaque partie de
tableau_.»[25]
Os seus personagens trajam geralmente _costumes historicos_, mais
ou menos phantasiosos. Os trajes modernos assustam ainda os artistas e
de feito não se prestam facilmente a grandes effeitos e combinações de
luz. Por isso procuram os artistas, entre elles, os mais pittorescos,
ou lançam-se na phantasia mais ou menos franca.
Ha n’isto muito de rotina e de apêgo ás tradições technicas e
estheticas demais falseadas.