Os Van Eych, marcam talvez uma revolução na arte. Os
_fundos-d’ouro_ cedem o logar aos _fundos de luz_, ao
panorama, á paizagem.
A auréola, o _esplendor_ beatifico é substituido pela perspectiva
da natureza. A desmystificação da arte começa. Relanceae a vista para
além da arte. Distante vos fica já João Scot ou Thomaz d’Aquino.
Aproxima-se Spinosa.
Tudo isto se encadêa e explica como manifestações d’uma evolução. Não
nos afastemos porém. A paizagem é um accessorio ainda. O pantheismo não
suprime completamente o mystico. Conquista ou reconquista um logar.
Alarga-o, expande-se e abarcará por vezes a tela flamenga ou a tela
hollandeza.
A evolução caracterisa-se exuberantemente em Hemling, nos admiraveis
panoramas de Albert van Ouwater, etc.
Quando a Italia invadir o norte, quando a arte do sul imprimir na arte
septentrional o cunho do seu idealismo pagão, ha de aceitar o elemento
revolucionario, ha de pactuar e alliar-se com elle.
Já em Lucas Dammesz ou Lucas de Leyde se denuncia no naturalismo
flamengo o idealismo grego e a sciencia de Leonardo de Vinci[18]
Bernardo van Orley, não renegará Jan van Eych.
Mas que distancia enorme!
Em Winckebooms, (1478) como em Joaquim Patanier (1487) a natureza
apresenta-se ainda enfaixada no _mystico_.
Patanier tem um rival, grande como elle, tamanho como Grossært.
É Henrique Met de Bles. Na paizagem hombrea com o primeiro e pinta a
architectura como Jan Grossært ou _Genni Grossært_, (1490) como
elle assignava ás vezes.
Este annuncia já o italianismo.
Não esquece porém as tradições da eschola de Bruges.
A proposito: a eschola nacional tem ainda valentes campeões. São
Quintino Messys, (1450), os Van Bruyn, João Schoorel d’Utrecht, Martin
van Veen (Hemskerk) etc.
E convém dizer ainda: a arte hollandeza abysma-se n’uma revolução
politica e religiosa. É indispensavel attender a isto. Na eschola
flamenga é facil ligar Rubens aos Van Eych.
Na hollandeza é profunda a differença entre Rembrandt e a eschola de
Leyde.
Creio que Fortoul faz esta observação. Ha um ponto de contacto: a
natureza do _meio_. O lutheranismo umas vezes destaca, outras
aproxima. Virá Gerard Dow: uma revolução nova, como o calvinismo é uma
revolução no lutheranismo.
Póde contar-se porém de Wynautz (1606) a emancipação da paizagem.
A vida animal não desapparece, mas o principal passa a ser
accessorio,--formoso accessorio decerto,--como o podiam tractar nas
paizagens esplendidas do mestre, discipulos que se chamam Wouwzermanz,
habil _à croquer les cheveaux_ como diz Fortoul, se bem me
lembro, Adriano van der Velde, _especialista_ de rebanhos,
e--diga-se sempre,--paizagenista de primeira plana, e Lingelbach emfim.
Não esqueçamos Berghem, Nicolau Berghem ou Nicolau d’Arlem (1624-1683)
e o seu patricio e contemporaneo Ruysdael, já que estamos com os
hollandezes.
Não esqueçamos tambem Alberto Cuyp, soberbo animalista e paizagenista
que sabe illuminar um quadro, diffundir e condensar a luz,
_vaporisar_ a côr, como o Lorraine.[19]
Berghem, diz algures um escriptor, é um hollandez da Italia.
E João Booth, o seguidor de Claudio o Lorraine, que como Wynautz, tem
quem lhe affirme,--o irmão, André Booth,--nas aureadas paizagens a vida
animal?
Jacques Ruysdael, (1639) o triste exilado de Harlem, a todos excede:
tem mais encantos que todos; é o Ossian do pincel.
Exilado na propria patria!
Ruysdael nunca sahiu d’Harlem. Quando tantos seus irmãos em arte e em
patria, se iam alegres e enthusiastas, aquecer-se ao sol do meio dia,
quando a Italia era a Jerusalem, e para tantos, os jardins de Armida
dos artistas, Ruysdael ficava-se na patria, triste e scismador.
Por isso as paizagens d’elle são melancolicas, saudosas, elegiacas,
quasi, dizem.
E comprehende-se: que uma das maiores grandezas e das maiores
desgraças, tambem ás vezes do homem, é poder identificar-se, fazel-o
até involuntariamente, com a situação psychica do seu similhante, e
tanto mais facilmente quanto as situações d’um e outro se aproximam na
aspiração.
Que de mundos luminosos não se agitaram para além dos horisontes
sombrios que te apertam em circulo de ferro a inspiração enorme; oh
pobre artista!
Que de formosos panoramas hão desenrolar-se para além d’estes panoramas
em que espalhas tristemente a vista? Nada d’isso verás, meu pobre
sonhador! Nada d’isso é para ti, meu grande poeta! Os felizes são
Wynautz, Bergham, Cuyp, o Lorraine, Booth, Pynaker e tantos mais.
Creio que é Proudhon quem affirma não poderem viajarem os artistas.
Porquê?
Perdem a nacionalidade, a originalidade local dos seus pinceis ou das
suas concepções!
Pois o ideal conhece lá fronteiras?
Pois a faculdade esthetica hade amarrotar-se, circumscrever-se a uma
convenção patriotica, sacrificar-se á geographia politica?
Pois se uma planta não encontra no solo em que germinou, condições
de largo e fecundo desenvolvimento, que outro lhe póde dar, haveis
deixal-a fenecer e estiolar-se antes, do que transportal-a e buscar-lhe
condições de vida melhor?
Pois não vedes como o arbusto ou a arvore sombreada se lança
naturalmente para onde póde receber os raios solares?
O nenuphar ergue-se até á superficie das aguas para ali se expandir em
florescencias.
A andorinha busca o ambiente que lhe convém, emigra do que deixou de
convir-lhe.
Pois o artista,--e porque não diremos o homem?--é como o arbusto, o
nenuphar e a andorinha.
Busca tambem o seu solo, ou seu clima. O seu clima moral deixem dizer
assim, como o seu clima phisico.
Busca o meio da sua ampla florescencia, que bem póde não ser o meio da
sua germinação. As condições d’um facto não são as de outro, é sabido.
Sabeis o que é a nostalgia?
Ha uma nostalgia ás avessas.
Ha saudade do que se não gosou, como ha saudade do que se viu e ama.
Tirados do meio em que nascemos, e nos fizemos homem, para outro a que
não estão porventura adequadas, mysteriosas ou conhecidas condições de
vida,--na mais larga accepção da palavra,--sentimo-nos mal, intimamente
ou physicamente infermados, sentimos ou o «gosto amargo d’infelizes»,
o «delicioso pungir d’acerbo espinho» de que falla o poeta, ou o
empobrecimento e o estrago da vida organica, ou ambas as cousas juntas,
que por ventura andam a ella intimamente ligadas.
Vem isto a ser a nostalgia.
Pois tambem nos sentimos ás vezes mal, no meio em que nascemos e
vivemos; não nos basta o solo e o estado natal, tambem sentimos
ir-nos fenecendo a vida physica ou psychica, tambem sentimos um
desejo profundo, immenso, uma necessidade intima, irresistivel,
violenta de sahirmos d’ali, de mergulharmos nos horisontes que nos
rodeiam, de respirarmos outros ares, de pisarmos outro solo, emfim o
«delicioso pungir do acerbo espinho» do ignoto, da ambição, do goso, da
experiencia desconhecida e desejada, d’uma anciedade mysteriosa, mas
angustiosa e persistente.
É uma nostalgia ás avessas.
Conservae um eucalyptus ou um cedro no vaso em que elle germinou, e de
certo que fenecerá bem cêdo, podendo, transplantado para largo e bom
terreno, assumir proporções giganteas, como a begonia se estiolará na
charneca podendo viver largamente na estufa.
O que é a emigração politica?
Uma transplantação; é a individualidade politica que não encontra no
_meio_ que abandona as condições de vida peculiar que, ou buscou
realisar n’esse meio e não conseguiu, ou vae procurar n’outro.
E o mesmo a emigração economica, se póde dizer-se assim: falta de
determinadas condições economicas para determinada individualidade
laboriosa.
Porque havemos pois de condemnar a emigração artistica?
Condemnaremos o homem que vae a terra estranha procurar os meios de
vida que lhe escaceiam ou faltam na sua, porque no regresso póde ter
esquecido o cunho da moeda nacional?
O cunho que se exige na moeda artistica é o da verdade na manifestação,
e da individualidade no ideal.
E por isso mesmo não queiramos impôr feição determinada nossa á
manifestação d’um ideal, tambem, por assim dizer, imposto.
Tenhamos antes conta em não acceitarmos moeda falsa por legitima, só
por que traz cunho que nos lisongeie as paixões ou a doutrina.
O estudo do quilate, da liga, da natureza da moeda, das condições
d’impressão do cunho, da configuração, relevo, feitura e significação
ou symbolisação d’este, a explicação e a historia do conjuncto de tudo
isto é o que pertence á critica, é que é a critica applicando-se e
affirmando-se.
Deixae, que não será a individualidade quem desmentirá o _meio_.
Este hade attestar-se sempre n’ella como na determinada collectividade
artistica. Nem serão as indicações ou restricções da critica que farão
isto, nem ellas o podem evitar. Das sensações nos véem as ideias, e do
_meio_ nos véem as sensações. O temperamento, o genio proprio,
a individualidade emfim, tem suas condições de desenvolvimento e
de manifestação, suas exigencias de esthesia e de laboração, que
deveis ter em linha de conta quando fazeis a critica da arte, que é
a manifestação sensivel do ideal e cuja feição collectiva se fórma
natural e fatalmente sem imposições de critica, como a civilisação se
fórma e transforma sem a imposição da vontade individual, contra ella
ou fóra d’ella.
Talvez se os artistas não viajassem, maiores fossem as differenças
de escholas, de estylo, de feições artisticas, ou mais lentamente
se realisariam certas evoluções, ou mais _nacionaes_, se póde
dizer-se assim, seriam as artes.
Mas seriam decerto mais pobres, mais lentas no seu desenvolvimento,
menos exuberantes no seu progresso, menos espontaneas,--permitam a
expressão, nas suas affirmações.
E depois, que proveito?
E depois, que necessidade?
Tambem se os povos andassem mais arredados uns dos outros na sua
vida moral, politica, economica, etc., mais se distinguiriam, mais
conservariam seus habitos e feições peculiares, e tradições proprias,
etc.
E depois? Menos ricos seriam em civilisação.
Não é a communicabilidade que atrophia, não é a riqueza que debilita.
No aproveitamento d’uma e na applicação da outra é que a critica tem
larga e fecunda acção.
O culto da arte e o culto da patria são cousas independentes.
Condemnae-lhes as reciprocas intolerancias, as repulsões e absorpções
forçadas; não lhe condemneis a autonomia, a fecunda liberdade.
As suas relações são lei ou facto natural e fatal.
A natureza não se supprime, a fatalidade não se evita.
=Longe porém vae este discorrer.=
Isto porém,--disse-o já,--é jornadear de _tourist_.
Que cousa mais natural do que subir a gente um outeiro que nos fica
no caminho e ficarmos alguns momentos espraiando a vista pelos vastos
panoramas que se estendem de redor?
E já agora antes de me pôr de novo a caminho, deixem que demore a vista
um momento mais na incidental inspecção.
Comecei por fallar da paizagem.
Citei alguns factos ou alguns nomes, da evolução naturalista da arte.
Tateemos-lhe a explicação critica.
Quando o pensar humano se resolve ou synthetisa na visão intima,
na aspiração e na affirmação d’um mundo melhor ou antes d’uma
vida espiritual eterna, immutavel, _sobrenatural_, além,
acima ou fóra da natureza que nos rodeia e que somos, da natureza
_material_;--quando a lucta ou dualismo, acreditado como real, do
Mal e do Bem, acreditando como principios distinctos, se desdobra na
crença da eternidade do Premio e do Castigo, da beatitude eterna e do
eterno tormento, no triumpho do Bem e na sujeição do Mal a executar a
lei ou arbitrio d’aquelle;--quando a concepção da vida presente é a
affirmação d’uma dolorosa e fatal penitencia em que o Mal nos flagella,
persegue, e tenta e seduz a cada momento e em cada logar, (_ubique
daemon_)--quando a crença religiosa é a crença dominadora, renega
a vida material, condemna ou previne os prazeres e as affirmações dos
sentidos e faz do homem um viajeiro fraco, trôpego, impotente, cego,
que só póde e só deve procurar guia, consolação e ensino na fé d’uma
vida melhor e d’um melhor mundo, sua unica meta;--quando emfim o «meu
reino não é d’este mundo,» isto é, quando este mundo é apenas pousada
pobrissima e perigoso no caminho do _outro_, do sobrenatural:
comprehende-se que o artista esqueça ou desdenhe o mundo que habita,
a vida que o rodeia e a propria vida, os panoramas sensuaes que se
lhe desenrolam de volta, e as sensações e inspirações que d’elles
lhe venham; não veja ali o _bello_, não queira receber d’ali o
_ideal_ artistico, porque o seu _bello_, o seu ideal renega
a natureza, está fóra da natureza, no mundo das absolutividades, da
perfeição suprema, do ignoto, do subjectivismo puro.
O seu ideal reside em Deus.
Forma-se pela abstracção, pela negação da materia, quasi.
A expressão sensivel é uma necessidade da pequenez humana, a
necessidade do hieroglypho, do signal, do symbolo.
A plastica não é propriamente uma arte. Reduz-se a uma iconographia
official ou tradicional, tem uma hermeneutica, vive n’um formulismo
orthodoxo. Póde dizer-se que é uma orthodoxia iconographica, para os
pintores-mosaistas de Bysancio, como em toda a pintura italo-bysantina
de que Cimabue é o ultimo representante, por exemplo.
E cousa curiosa: a tradição formulistica da arte do tempo de Andronic
1.^o prolonga-se no oriente christão, na arte isolada dos conventos,
até modernamente.
Haviam livros de lithurgia para a arte como para o culto,[20] e os
chefes da Egreja tanto decretavam para os pinceis dos pintores como
para a communhão dos fieis.[21]
Ainda mesmo no fundo d’esses enormes _cœmeteria_ (_aræ
sepulturarum_), chamados catacumbas de Roma, o symbolismo domina a
arte nascente.
Comprehende-se pois que o culto da _fórma_, que o amor da
paizagem, que emfim a contemplação e a exploração da natureza
material seja substituida,--elementos climatericos ou tradicionaes á
parte,--na arte medieval pela ataraxia, pela serenidade beatifica,
pela mystica aspiração, pelas figuras esguias em que o artista parece
querer supprimir a _carne_, pelos _fundos-d’ouro_ em que ha
alguma cousa da luminosa bemaventurança, ou de impotencia genial do
artista para tractar o meio em que se agitam e mergulham as almas;
pelas convulsões de pedra que parecem manifestar as perturbações,
as aspirações, as nevroses do mysticismo; por todo este systema da
_linha ascendente_ que exprime a sua aspiração, na phrase de
Fortoul.
Quando porém se vae alargando o sentimento positivo,--e o facto
pertence mais á historia philosophica do que á historia da
arte,--quando a vida real na fatalidade da sua acção, na exuberancia
e continuidade das suas manifestações, na crescente multiplicidade
das suas exigencias, estimulos e progressos, vae absorvendo o pensar
humano, ao passo que elle á força de se exercitar e fortalecer
por um lado na laboração metaphysica, e por outro na averiguação
e estudo archeologico, vae tateando fóra da concepção mystica
caminhos defesos ou despresados por ella--, quando saciado d’uma
sobrenaturalidade vaga e mysteriosa, volve a procurar em a natureza
material a revelação, a manifestação, a sede d’essa intelligencia
infinita, d’esse infinito poder, para o qual debalde procurára formar
um mundo ultra-ideal;--então tem já outros encantos para a arte a
_realidade_, a natureza, ha n’esta uma vida e uma intelligencia
opulentas; a plastica tem uma idealisação--isto é: póde ser uma arte,
porque não é apenas um symbolo, mas uma revelação genial e completa;
a paizagem poderá ser mais que um accessorio porque é mais do que uma
passividade; unifica-se a natureza e a vida, sente-se o homem, não um
viajeiro simplesmente, mas um habitante, ou companheiro ou filho d’essa
natureza de exuberantes fórmas, de fecundia inesgotavel de sensações
e existencias: a natureza geologica, athmospherica, vegetal, animal,
etc., a realidade universal, a _materia_ emfim.
Entra breve a arte n’um periodo realista, na larga accepção do termo.
Ramificar-se-ha em arte socialista: a idealisação dos elementos,
das phases da _realidade_ social; arte _animalista_, a
idealisação da realidade _animal_; arte _naturalista_, a
idealisação da realidade _natural_ na convencionada accepção da
natureza extra-animal, etc.
A idealisação é a affirmação do homem na natureza. Por isso dizia
Bacon: a arte é o homem junto ás cousas.
O homem, ou antes o pensar humano, modificou-se: outro é o ideal,
por outro modo se affirma. Não renega a natureza; não a sacrifica.
Abraça-a, reconhecea-a, explora-a.
Não darão estes rapidos traços ideia d’uma evolução historica da arte?
Evolução repetida, salva a chronologia e a geographia da ideia,
encontramol-a talvez na Grecia, em Lyssipo, e nos revolucionarios
da esculptura phideana, em Eupomdo, eschola de Sycione, nos
revolucionarios da velha pintura dorica, como a encontramos nos fins do
periodo medival, e na renascença do Sul.
Que distancia enorme, percorrida!
Os artistas já não procuram na oração purificar as suas inspirações
como Vicente Joannes ou Fra Angelico, nem se maceram como Luiz de
Vargas para calar as paixões da carne.
Não cessam de ser homens á força de quererem ser divinos,--na phrase
de Sadolet--e preferem á penitencia e aos extasis do ascetismo, a
expansiva alegria e a dôce communicabilidade d’aquelles famosos
banquetes,--que fazem lembrar os velhos _Komos_,--aconselhados e
regrados por Marsilio Fiscino.
A carne triumphou, ou antes triumphou a natureza.
Na chamada peninsula iberica a arte tem especiaes elementos de
desenvolvimento pelas especiaes condições historicas do _meio_,
mas--um facto bem proeminente é a alliança da arte do norte, realisada
pelos artistas que vão á Italia estudar-nos ou com os grandes mestres e
pelos que do norte veem viajar ou estabelecer-se aqui.
Bem conhecidos são os nomes dos principaes d’uns e d’outros e a
historia da chamada eschola da Andalusia ou Sevilha dá sobeja
comprovação.[22]
Em Portugal, apesar dos esforços mais patrioticos que sensatos,
d’alguns que pretendem affirmar a existencia d’uma eschola distincta de
pintura, apenas póde reconhecer-se certa independencia e originalidade
_nacional_ n’um curto periodo da historia da architectura.
Fallando porém apenas da pintura, a existencia d’uns velhos e
magnificos quadros de duvidosa procedencia, tem servido de base a
numerosas hypotheses e questões, mas está bem longe de confirmar a
existencia d’uma eschola distincta.
O que ali se revela é a influencia directa do Norte e da Italia,
demais, testificada pela historia, e que não chega a diluir-se, por
assim dizer, na concepção d’um Velasquez ou d’um Murillo.
Este assumpto é para tractar-se detidamente. É claro porém que
a evolução naturalista, lentamente realisada no Norte e na arte
italiana se reflecte aqui, onde a arte poucas vezes póde deixar de ser
considerada nos elementos de progresso como uma importação.
Deixemos agora o outeiro d’onde temos estado espalhando a vista por
tão vastos e formosos horisontes, e continuemos o caminho pelos pobres
campos da nossa arte contemporanea, onde não é raro encontrar bellas
e promettedoras plantas a que só faltam talvez os mimos do clima
artistico e as correcções da horticultura chamada critica.