O quadro de Fonseca, representando uma pseudo-Venus, merecia um
capitulo especial pelas considerações que naturalmente provoca aquelle
representante da _pintura d’apparato_, pintura que parece querer
morrer impenitente, contestando a evolução artistica, deturpando as
concepções historicas e religiosas pelo plagiato, pela ignorancia,
pela imitação inconsciente e inscientifica, renegando o progresso,
que affirma, e o _meio_ que attesta; arte que se contradiz em
cada manifestação, que desmente e desordena a historia nos exageros
d’uma esthetica immobilista.--É a esthetica _official_, esthetica
d’umas Academias em que o ensino artistico-scientifico é mais
attinente ao aperfeiçoamento do officio e á imitação absurda dos
_canones_ de velha arte, do que ao avigoramento, cultura e riqueza
intellectual dos artistas.
Fonseca não vive no tempo de Praxiteles e Apelles, e as Phryné, se
existem, não lhes consente a policia que nos assombrem em fogos
olympicos com a sublime nudez da sua plastica.
O estudo do _nu_ anda esquecido e abandonado,--o que é o mal,--e
a perfeição geometrica da fórma, elemento primordial na concepção
artistica da Grecia, cedeu de ha muito o logar á expressão moral e á
verdade da natureza.
A idealidade transforma-se, como tambem se altera a fórma humana.
Ticiano pinta Venus que parecem _Virgens_ e Rubens creou algumas
á imagem das mulheres da sua terra, Venus de carnes flamengas, que
não se aprimoraram na gymnastica, e de cabeças que por terem mais em
que labutar do que as velhas Kypris guardam outras proporções com o
corpo.[14]
A Kypris, a verdadeira Venus grega, desapparece com o pensamento
religioso, artistico e social da velha Grecia.
Não é pois para admirar que Fonseca nos apresente a graciosa deusa sob
a fórma d’uma Marion desabusada. _«Eh quoi! le monde marche et vous
voulez retourner sur vos pas?»_--exclama com razão Carlos Perrier.
Como é facil de suppôr o quadro não tem um pensamento, não representa
uma ideia,--póde dizer-se:--não é uma concepção. Sob este ponto de
vista teria que dizer que Fonseca não fizera _arte_,--permittam a
expressão,--mas voluptuosidade. Ora eu prefiro suppôr e creio que mais
da verdade me aproximo,--que no meio d’esta degenerescença da arte, em
que o pensamento collectivo não existe, em que a concepção artistica
tem quasi sempre que se amarrotar n’uma impressão pessoal ou n’uma
imitação esteril, o velho professor procurou apenas um assumpto em que
melhor podesse comprovar a pericia do seu pincel, a correcção do seu
desenho.
Provou-nos simplesmente uma vez mais que como desenhador lhe fallece
por vezes a elegancia e a suavidade do contorno, e como colorista
não tem largo e desafogado sentimento da harmonia das côres e das
variantes da luz. E se o desenho pecca e se o colorido é desharmonico e
desnatural, não poucas vezes no quadro a que me refiro tambem este não
se salva pela composição, que é affectada e incompleta. Não se denuncia
ali o culto da linha de Ingrès, a côr valente,--segura por assim
dizer,--de Delacroix, nem a acção dramatica,--natural e energica,--de
Delaroche.
Na Venus a myologia superficial é mal estudada e n’alguns pontos
absurda.
Não posso affirmar que as proporções do corpo estejam ou não guardadas.
A cabeça é por ventura pequena de mais. Quiz o artista naturalmente
aproximar-se da verdade esculptural das Venus gregas.
A cabeça das estatuas gregas e principalmente das Venus era
pequenissima. Winkelmann, o Cuvier da arte, como lhe chama Thoré,
dando as fórmulas e as regras de proporções da estatuaria hellenica,
diz que a fronte para ser bella deve ser breve. A esthetica
mobilista e de _imitação_ de certos artistas d’hoje, arvorou o
formulismo classico em doutrina infallivel e unica, sem attender a
que contra aquelle protesta até o mundo physico e que a transformação
e variantes da cabeça humana no tempo e no espaço,--deixem dizer
assim,--comprovadas pelos estudos historico-phrenologicos, bastam para
contestar n’este ponto a theoria do _bello_ immovel e absoluto.
Como diz Thoré, as Venus gregas não teem necessidade de cabeça. «Basta
que lhes estejam bem collocadas as ancas sobre roliças coxas.»[15]
«Finalmente,--diz Veron--«pelos testemunhos que temos, é facil de vêr
que não é á cabeça que os antigos dão maior importancia. As partes que
elles mais admiram nas estatuas são os braços, os seios, os joelhos
e outras partes ainda, como o attesta o nome de Callipyge dado a uma
Venus.»[16]
E comprehende-se isto, alli na Grecia antiga, no seio do antigo
antropomorphismo.
Fonseca importou-se pouco com os braços; estudou e realisou um formoso
seio, e deu á sua Venus umas coxas carnudas e lizas, sem verdade de
_tom_ nem de desenho, geralmente, umas pernas que parecem cepos,
como já alguem escreveu.
Observe-se desde já que o joelho esquerdo está soffrivelmente estudado
e que o pé fica abaixo de toda a critica.
Antes porém de irmos mais além procuremos descrever o quadro.
O que o catalogo diz é o seguinte:
«A nympha Peristero, depois de transformada em pomba por Cupido, é
_acolhida nos braços de Venus_, a quem está beijando». (Dicc.
myth. de Chompré).
Diz pouco e diz mal. Chompré falla d’uma aposta havida entre Cupido e
Venus sobre qual apanharia em menos tempo certa quantidade de flôres.
A nympha appareceu, coadjuvou Venus, e Cupido irritado pela derrota
converteu Peristero em pomba. É mythologia _ad usum Delphini_, já
se vê.
O quadro é occupado em toda a sua largura por uma concha enorme,
_assentando em rodas_, que não destoariam de certo n’um wagon.
Dentro da concha ha um colchão verde,--a côr verde é o vicio de
Fonseca,--umas almofadas brancas ornamentadas de roxos e uma outra
cousa que póde ser um lençol ... olympico.
Creio que foi Ticiano quem pintou uma Venus sobre roupagens brancas, o
que o obrigou a prodigios de harmonia.[17]
Quiz Fonseca luctar com difficuldades identicas, e diga-se a verdade,
n’este ponto não foi infeliz.
Sobre tudo isto emfim recosta-se a nua Venus.
E a nympha Peristero? Peristero deve ser uma pomba,--das duas
atrelladas á concha, e que sobre a mão esquerda da graciosa deusa
faz exercicios acrobaticos, procurando achegar o bico aos labios
semi-abertos d’aquella. A pomba em questão é feia, mas está bem
pintada. Não sei se esta mythologia á Chompré conta algures que a
Peristero, depois de convertida em pomba, fosse atrellada ao carro de
Venus. O que me parece é que andára melhor o pintor que evitasse o
absurdo de duas pobres pombinhas pucharem um carrão immenso por duas
delgadas fitas. Prejudica isto a acção dramatica do quadro e cousa era
que facil fôra evitar. Collocasse aquelle grupo, por exemplo, n’um
meio _aerio_, permittam a expressão, em vez de querer alliar
as condições de tracção cá d’este mundo de simples mortaes, com os
predicados de locomoção olympica. Ou isolasse por exemplo a deusa do
«dôce desejo» na feição puramente humana, _mortal_, que ella tanto
gostava de tomar para se insinuar nos leitos dos felizes Anchises e
brindar a humanidade com terriveis Enéas.
Está-me lembrando aquelle magnifico hymno, attribuido a Homero, onde
se conta como «um mortal, pela vontade dos deuses e do destino dormiu
com uma deusa immortal, ignorando quem ella era.» Ali tinha soberbo
assumpto esta pintura pagan. Ou ainda, désse-nos uma Venus brandamente
«impellida sobre a molle espuma atravez as vagas do mar de tumultuosos
ruidos, pelo bafejo humido do Zephyro.» (Homero).
Volvamos porém ao quadro.
Em pé, ao lado da Venus, está um rapazola acerejado, que pela aljava e
arco denuncia ser Cupido. Em volta ha ainda uns meninos, cupidinhos,
ou anjos feios, insignificativos e encarniçados, typos obrigados nas
apotheoses de santos e nas concepções _pagans_ dos pintores
_catholicos_, umas vezes carregando em nuvens d’algodão varão
illustre ou respeitavel matrona do Christianismo, outras coroando de
parras e rosas um Baccho ou uma Venus e escorropichando a taça do
nectar olympico apoz uma orgia de _immortaes_. Do alto do quadro
cahe uma cortina purpurea, que ninguem sabe onde prende, porque a
regularidade monotona das prégas não permitte suppôr que os deuses
meninos a pendurassem nos galhos das arvores, de que se vê o tronco á
esquerda.
E que tronco aquelle! E que panorama além! E que ares e que céos!
Um _mestre_ não faz aquillo. Um homem que muita genta aceita e
apregôa como representante d’uma eschola que mesmo na decadencia é
grande como Ingrès, deve pelo menos, saber cumprir o preceito que
Pythagoras aconselhava aos seus discipulos. Deve saber calar-se. Deve
saber depôr a tempo o pincel e envolver-se no manto do seu renome, como
o Cesar, para que o ridiculo da queda e as convulsões do passamento,
não prejudiquem a grandiosidade do vulto e da ideia.
Fonseca é filho e apostolo d’uma eschola que tem graves crimes para
com a natureza, mas que tem grandes glorias na historia da arte. Que
os filhos saibam honrar a mãe moribunda! Que essa eschola saiba cahir
nobremente na arena como os velhos gladiadores no Circo! Este quadro
de Fonseca não é uma gloria para a eschola nem para o artista. Aquillo
não é de certo a Kypris graciosa, a deusa dos dôces sorrisos e dos
dôces desejos, dos cabellos d’ouro e dos labios rivaes da rosa _æmula
labris rosis_. As Venus que realisamos na arte são simplesmente
mulheres desabusadas que nos acirram a sensualidade e que a
sensualidade mais do que o culto puro da belleza plastica nos inspira.
A _venusidade_ era uma especie de véo em que a concepção religiosa
da Grecia envolvia na arte a nudez d’aquelle corpo incorruptivel. A
Phryné tomava no marmore ou no bronze a magestade olympica.
A hectaria desapparecia na _immortal_, e se Apelles a estreitava
nos braços como Anchises quando julgava estreitar a filha d’Otreu,
como este quando reconheceu em toda a sua magestade a grande deusa,
o pintor lançou, talvez olhos devotos, não lubricos, á concepção
realisada. O modêlo ali estava, mas acima d’ella estava o _ideal_
a um tempo--note-se,--religioso e artistico. Phryné era a mulher, em
quem cevava a sensualidade; a Venus era a deusa, a immortal. Venus era
uma religião. Essa religião passou. Ficou simplesmente a mulher nua, de
bellas carnes e bellas fórmas. Eis a differença caracteristica. Dava o
tratal-a para grosso volume.
Julgaes que condemno o nú? Não. Digo simplesmente em vez de «Venus»
escrevei: «Uma mulher nua». Estaes no vosso direito de nos dar o que
suppondes ideal plastico da mulher, como nós de vos dizer: «A vossa
obra é incompleta e falsa e immoral: a plastica é a arte da fórma, e a
fórma na arte não é uma ideia, é a sua revelação. Daes-nos um gosto,
não nos daes um ideal. Mentis á arte.»
Mas quando nos dizeis: «Eis a Venus,» mentis á historia e á philosophia
da arte. A Venus é uma concepção historica, religiosa e artistica
determinada,--mythica,--por conseguinte d’um determinado crêr e pensar
e idealisar.
Fonseca tem a par de grandes defeitos, verdadeiras qualidades
d’artista, e bem se póde chamar entre nós: um mestre. Ha pouco li em
algures que Annunciação era fundador e chefe d’uma eschola d’arte.
Impunha-se o monumental disparate com prosapia de verdade incontroversa
e correntia, e bem possivel é que ella tenha passado como tal no
julgado dos nossos critiqueiros piegas.
Não sei como elles hão de considerar Fonseca.
Pela minha parte considero-o como o unico homem que em a nossa pintura
actual representa uma eschola e tem direito ao epitheto convencional e
condicional de mestre. É claro que para o considerar assim não fico no
estudo d’este seu quadro _pagão_, que é quasi um desastre na vida
artistica de Fonseca, nem vou além da apreciação da sua technica, do
seu _savoir-faire_, e ainda restringindo este, bastante.
Duas palavras mais ácerca do quadro.
Ha ali bellezas de dezenho e de colorido, bem notaveis; exemplo: a
concha na sua totalidade quasi, algumas flôres, parte das roupagens,
os seios da Venus, etc.
Expõe mais Fonseca: «_O somno e a vigilancia_,» onde se patenteam
os mesmos defeitos e as mesmas bellezas aproximadamente do quadro
anterior.
Uma mulher, nova, fresca, demasiado rosada, adormecida n’um sophá,
sustem nos joelhos sobre uma almofada, de que perfeitamente se
prescindia, uma creança nua, gorda e nacarada. Ao fundo um cão,
sentinella domestica, parece guardar o somno dos dois.
A mulher mostra um seio turgido e bem modelado, que não é porventura um
seio de mãe. Ha ali alguma cousa de virginal.
Fonseca, que por vezes parece ter bem arreigado e fecundo aquelle
_sentimento da carne_, para me servir d’uma expressão
admiravelmente rigorosa e significativa de Diderot, o _sentimento da
carne_, que no dizer de Chaignet, é o desespero do artista e que
póde ser a sua grande gloria, Fonseca, digo, desmente-se outras vezes
pelo colorido desnatural, _repintado_, que dá ás suas figuras. É
o que acontece á face da mulher e ao corpo da creança n’este quadro
e em muitos pontos do anterior. A creança, além do colorido falso,
é d’um desenho incorrectissimo. A perna esquerda não póde saber-se
em que sitio do tronco prende. A cabeça parece a d’um velho rapado e
ebrio. O vestido da mulher não tem côr definida quasi. Adivinha-se
que é verde. Sempre a côr verde! chega-se a suspeitar que o artista
padeça de achromatopsia. Denunciam-se os joelhos em posição tal que
as pernas não poderiam ligar-se ao tronco. A cabeça e as mãos são
muito _duras_. O mesmo acontece á pintura do cão. O assumpto está
tractado com pouca naturalidade e é grande a _dissonancia_ de
côres. Ha _tintas_ porém muito bem postas como em quasi todos os
quadros de Fonseca.
Conserva este artista, depois d’um longo tirocinio artistico, o defeito
com que luctava Bandry na sua primeira maneira.
«_C’est une tendance au pastiche!_»
Como Bandry, é Fonseca geralmente incorrectissimo no desenho,
fantasioso até á aberração no modelamento das suas figuras, desordenado
na illuminação dos quadros.
Vê-se que não ama o estudo do _natural_. Vicio de eschola.
«_A morte d’Affonso d’Albuquerque_» é um esboço que Fonseca não
deve completar para não perder. Os agrupamentos são bons, a côr está
geralmente bem estudada e harmonisada, carecendo apenas a illuminação
de afrouxar alguma cousa.
O desenho é relativamente excellente, tanto tambem quanto o póde ser
n’um esboço. As figuras teem vida e ao effeito geral não falta a
unidade de pensamento e d’acção. É um quadro _condensado_, como
diria About.
A «_Cabeça de estudo_» é um estudo consciencioso que comprova
uma vez mais o vigor e firmeza admiravel de pincel que Fonseca sabe
conservar em tão avançada idade. Pena é que se lembrasse de pintar uma
cara alva e rosada,--demasiado rosada talvez,--e umas barbas louras em
fundo verde.
Tem porém o colorido d’este pintor uma gomma suave, um certo macio de
tintas que faz esquecer quasi a falta d’harmonia de tons. A poucos dos
nossos artistas acontece isto.