N’isto Roquelan é um ignorante ao pé de Ribera.[3]

Vêde a _Magdalena_ d’este: olhos cavos, bôca ennegrecida, faces

ossudas, peito sem carne:--a carne é o Diabo,--cabellos como os de uma

feiticeira de Shakspeare. «O bello é horrivel, o horrivel é bello.»

A phrase foi roubada ao cathecismo. O poeta gigante apanhou-a enroscada

nos artesões d’algum convento de monjas.

Entrei.

Uma esperança é pelo menos metade d’uma consolação.

Buscava isso ali.

Cá fóra vira a arte thuribulando Momo.

Cigana ebria, coberta de guisos e papeis dourados, fascinava as turbas

desmoralisadas com arremedos obscenos; embalava a geração no berço ao

som da phraseologia da tarimba; substituia a methaphysica da velha

moral pela embriaguez do lupanar, e dera um pontapé na tripode da

veneranda Sybilla, não para abrir caminho á humanidade emancipada do

velho erro, mas para chafurdar no chavascal do cynismo e salpicar de

lodo a tribuna onde a nova ideia iria cedo proclamar a boa nova do

futuro.

Vira a arte, corrupta como as velhas d’Aristophanes tripudiar em

aphrodysia devassa, sugar o veneno das cantharidas como se fosse o mel

que abelhas da Hellada depozeram nos labios de Platão.

Vira a arte, enfarinhada e grotesca, estorcendo-se n’uma aplestía torpe

fascinar a multidão com o desespero da propria impotencia senil.

Vira um Quasimodo d’intima fealdade, encarrapitar-se sobre o busto

venerando de Palestrina, e os homens a estudarem-lhe as momices, e as

mulheres aspirando-lhes soffregamente os halitos empestados.

Palestrina!

... nouvel Orphée, après l’Orphée ancien...

Que nome me cahiu agora dos bicos da pena!

Nome que nos eccos da historia da arte se transforma em Gluck, Haydn,

Beethoven, Mosart!

Nome que é uma revolução enorme, confluencia de dois oceanos, como

dizia Choron.

Palestrina! o Jesus Christo da musica, como o chamava nos estos da sua

mania sublime o mestre do Duprez e de Rachel.[4]

_Puissant Palestrina, vieux maitre, vieux génie

Je vous salue ici, père de l’harmonie_[5]

Que dirias meu pobre Choron, meu grande fanatico, que ao sahir da

egreja de Saint Geneviéve, fustigado por uma musica incorreta,

bradavas: «_os monstros! os monstros! esphacelam-me as

entranhas_», que dirias se visses assim sobre o altar dos teus

idolos luminosos vomitar Offenbach e Lecocq!

E eu via isto aqui n’este cantinho da velha Europa, n’esta

_Parvonia_ que tantas intelligencias gigantes tem alimentado ou

esmagado, que tantos corações generosos tem sentido pulsar ou tem feito

morrer, que tantas inspirações tem amamentado ou perdido e ia procurar

ali, á exposição dos nossos primeiros artistas, ao templo da nossa arte

que ousava abrir as portas, que ora deviam ser como as portas de Jano,

no meio da bachanal, eu ia, digo, procurar uma esperança, applaudir um

protesto, alentar uma crença.

Pois a adela que praguejava no palco podia ser a arte moderna?

Pois a esthesia do nosso tempo fallava realmente pela gaitinha de

Offenbach?

Pois a arte perdera de todo a harmonia nervosa de que falla Broussais,

e nem uma céllula cerebral vibrava sã e harmonica?

Pois a arte não produzia já uma concepção grandiosa e verdadeira?

Pois não podia sahir da immutabilidade absurda da concepção metaphysica

sem se precipitar nos exageros do onanismo torpe?

Na porta da galeria das bellas-artes portugueza, na ultima exposição de

Pariz, traçara Theophilo Gautiér um ponto de interrogação.

Fizera-lhes assim a critica.

Os nossos artistas iam desmentil-a ou confirmal-a.

Entrei e fiquei assombrado.

Na minha frente escarnecia das illusões que ali me levavam, o

_Camões_ de Rezende. Mais além, grudada na tela, sorria

maliciosamente a _Venus_ de Fonseca.

Não antecipemos juizos. Não tirem illações prematuras.

Fiz um esforço supremo, despeguei os olhos dos dous estafermos e

comecei a minha peregrinação na sala. Na _barraca_ queria eu dizer.

Um francez diria: _Nos artistes au salon_, começando estes

artigos. Tentado estive eu a epigraphal-os: «os nossos artistas na

barraca.» O _salon_ não existe cá. Temos a _baraque_. E ainda

bem que temos, que nem eu sei como n’esta epocha de economias, não se

lembrou o ministro do reino[6] de economisar o armazem onde vegeta

a Academia de _bellas-artes_, mandando pendurar os quadros nos

postes dos telegraphos.

É que postes e telegraphos tambem dão que pensar ao economico

_estadista_, que bem vê elle na sua alta sabedoria que podemos

viver optimamente com o macho e o almocreve.

Abramos o catalogo. Entre nós catalogo e indice é uma e a mesma cousa.

Para que lá por fóra nos não acoimem d’analphabetos, imprimimos em

todas as nossas cousas o cunho do _a b c_ nacional.

Segundo livro de crítica · 第 27 / 103 题