O pai, acompanhado por alguns amigos, trouxe, uma noite, o feretro da
filha para a capella de familia, onde se acha depositado.
Do fim de José Maximo da Fonseca sabemos pelo livro do sr. Martins de
Carvalho, intitulado _Apontamentos para a historia contemporanea_.
«No dia 15 de dezembro de 1865—diz este livro, a pag. 102—falleceu em
uma casa da misericordia de Lagos, no Algarve, um individuo com o nome
supposto de Manuel do Nascimento, e conhecido pela alcunha de _Fresca
Ribeira_.
«Este individuo, que tinha por profissão habitual concertar pratos e
outros objetos de louça, e que se apresentava como caldeireiro ambulante,
tinha o rosto desfigurado com polvora e com algumas cicatrizes.
«Era em todo o Algarve, em Beja e outras povoações do Alemtejo, voz geral
que este homem fôra um dos que tomaram parte no crime commettido no dia
18 de março de 1828.
«Via-se que não era o que inculcava, porque mal podia comprehender-se
que, sendo elle o que dizia, fallasse com correcção as linguas francesa e
hespanhola, e tivesse conhecimento muito regular do latim.»
Os ultimos annos da existencia de José Maximo foram a suprema miseria de
um desgraçado.
Quando em Beja apurou discretamente que D. Anna de Vasconcellos tinha
morrido, torturada por tão longos soffrimentos, começou a embriagar-se, o
que até ali jámais havia feito.
Os curiosos, explorando o ébrio, faziam-lhe perguntas, a que elle
então respondia, dizendo inconscientemente a verdade: Que tinha sido
estudante de um e outro direito em Coimbra; que tivera parte no crime do
Cartaxinho; que fugira e andára emigrado pela Belgica, França e Hespanha;
e que ainda durante o governo de D. Miguel viera por algumas vezes a
Portugal a vender _matala-uva_, sem que ninguem o reconhecesse, graças ao
seu completo disfarce.
Apesar de embriagado, José Maximo chorava, n’uma funda tristeza, quando
fazia estas revelações.
Mas nunca pronunciou uma unica phrase allusiva a D. Anna de Vasconcellos.
Esse segredo era para elle tão instinctivamente inviolavel, que nem a
«verdade do vinho» lh’o podia arrancar.
O sr. Martins de Carvalho completa as suas informações escrevendo:
«Dizia-se em Beja e no Algarve que este homem era natural d’uma terra do
Alemtejo, onde tinha familia.
«Em Beja ensinava aos estudantes do lyceu, quando com elles se encontrava
no largo d’este edificio, latim, logica, e outros preparatorios,
recebendo por isso o que lhe queriam dar.
«Conta-se que um seu contemporaneo do Alemtejo, fallando com elle, o
reconhecêra; que instara para que deixasse a vida em que andava, e que
até lhe dera facto novo para vestir. Apesar d’isso, continuou sempre até
morrer no seu modo de vida.»
Faremos ligeiros commentarios a estas informações.
O dizer-se que o Fresca Ribeira era natural do Alemtejo proviria do facto
de elle, no tempo em que no Porto adoptou aquella alcunha, se inculcar
como natural d’essa provincia.
A circumstancia de José Maximo, no regresso a Portugal, onde certamente
o attrairia a saudade da patria que refina nos desgraçados, não sahir
das provincias meridionaes, a mim mesmo a explico pelo horror que
experimentaria em tornar a vêr as regiões do norte do paiz, onde a
felicidade lhe tinha sorrido no amor.
Era-lhe dolorosa consolação poder erguer os olhos ao ceu da patria e
pisar terra portuguesa, sem comtudo ter animo para transpor a linha
ideal, que na carta geographica de Portugal separava o seu passado do seu
presente.
Para atormental-o, bastavam-lhe as dilacerantes recordações que levava
em si mesmo para toda a parte. Mas aclarar a memoria de tantos logares
conhecidos, visitando-os, reconstituir scena a scena o drama da sua
existencia pela exacta renovação do proscenio e do scenario, seria
sacrificio superior ás forças de quem já tão quebradas as trazia pelos
embates e conflictos de um amargo destino.
O contemporaneo que, fallando com elle no Alemtejo, o reconhecêra, devia
ter sido talvez Jayme de Carvalho, o marido de Ernestina.
Assim acabou no catre de um hospital, ultimo paradeiro de todos os
desgraçados, aquelle enthusiasta poeta da liberdade, que, melhor
orientado, poderia haver prestado ao seu paiz relevantes serviços e
occupado os mais honrosos cargos na gerencia dos negocios publicos.
Mas, na miseria em que viveu, a morte foi para elle um beneficio da
Providencia. Desde 1828, José Maximo da Fonseca não era senão o epitaphio
ambulante de si mesmo: epitaphio em que não se lia um nome, nem uma data,
mas apenas, como acontece algumas vezes, uma simples invocação á piedade
dos viandantes.
Quem em Beja ou no Algarve via passar o caldeireiro, coberto de remendos
e cicatrizes, e sabia que elle preleccionava aos estudantes varias
disciplinas, teria porventura dó d’esse mysterioso homem, que, apesar de
redusido a tão humilde mister, denunciava haver tido mais alto nascimento
e uma selecta educação litteraria.
A piedade que elle inspirava era como que o _Pater noster_ do viandante
ao passar pela cruz negra das encruzilhadas sinistras.
Havia ali uma victima, cujo nome se ignorava.
«Emquanto ao seu verdadeiro nome—perora o sr. Martins de Carvalho com
referencia ao _Fresca Ribeira_—e á sua naturalidade, nem mesmo embriagado
o revelava.»
Os restos mortaes de frei Simão de Vasconcellos foram em 1836
trasladados, com os dos seus guerrilheiros e outros martyres da
liberdade, por iniciativa de uma commissão patriotica, para um mausoléo
de honra levantado nos claustros da Sé de Vizeu.
A trasladação realisou-se com grande pompa religiosa e apparato civico.
A tradição refere que o corpo de frei Simão estava ainda incorrupto
quatro annos depois do fallecimento, quando o transferiram da capella de
S. Martinho, que já não existe, para o moimento da Sé.
Tambem em Cezár me asseverou um contemporaneo de frei Simão, e seu
intimo, que elle costumava trazer cilicios por baixo do habito monastico.
A inscripção lavrada no mausoléo dos liberaes arcabusados em Vizeu consta
de texto latino e respectiva traducção, que diz assim:
«_Pela adhesão á liberdade, carta e rainha Maria II, por iniquas
sentenças foram innocentemente condemnados e fusilados no anno de 1832 e
1833_,
(Seguem-se os nomes dos liberaes portugueses, incluindo o de frei Simão,
e de alguns hespanhoes).
«_Descançam suas cinzas n’este monumento, o qual em detestação da
execranda tyrannia d’aquelle tempo, e para memoria perpetua de varões tão
benemeritos da patria os cidadãos de Vizeu religiosamente e por commum
subscripção lhes dedicaram no dia 26 de agosto de 1836._
Esta glorificação pósthuma explica o motivo por que, na capella de
familia, em Cezár, falta o cadaver de frei Simão de Vasconcellos.
Frederico Pinto, que, durante o cêrco do Porto, voltou, espontaneamente,
ao serviço militar, sendo ajudante do batalhão de voluntarios de Santa
Catharina, foi mais tarde empregado publico ao serviço da fazenda
nacional.
Casou em segundas nupcias com D. Anna Clementina Pereira Berredo, da
illustre familia dos Berredos de Gaya.
Morreu desastrosamente no sitio das Barrancas, estrada dos Carvalhos, por
se ter empinado a égua que montava, ficando elle esmagado na quéda, sob o
peso do animal.
O cadaver de Frederico Pinto foi condusido á capella de familia, onde jaz.
Um filho de Frederico Pinto, o major Augusto Cezár de Vasconcellos,
morreu tragicamente, cumprindo o seu dever de militar, ás mãos dos
soldados que o desrespeitaram na revolta de Braga, em 1862.
Tambem os seus restos mortaes estão na capella de Cezár.
O primogenito de Frederico Pinto teve o nome do pai, e já não existe.
Foi elle que forneceu ao dr. Henriques Sêcco as ligeiras informações que
a respeito de frei Simão este professor agrupou no primeiro volume das
_Memorias do tempo passado e presente_.
Na casa de Cezár vive actualmente, como representante da familia
do Outeiro, outro filho de Frederico Pinto, o sr. Alfredo Praça de
Vasconcellos, engenheiro civil, que ha alguns annos abandonou a
engenheria pela vida agricola.
Foi elle, mais uma vez o direi, que teve a paciencia e a bondade de me
dar muitos esclarecimentos que lhe pedi sobre a vida e morte de seu tio
frei Simão.