Epilogo

Estes são os espelhos, em que nos devemos todos vêr, e n’elles

ver-se a luz, e guia que deante vai.

Luiz de Souza de Lima—«Avisos do céu».

Em agosto de 1833 Margarida Candida teve occasião de recuperar a

liberdade, e recuperou-a.

Frei Simão não poude chegar a abrir-lhe as portas do mosteiro, mas a sua

familia, na primeira hora de triumpho, logrou não só cumprir a promessa

do frade, mas até vingar por um acto publico a morte d’elle.

Segundo a informação publicada pela _Chronica_ no seu numero

correspondente ao dia 31 d’aquelle mez e anno, o capitão-mór de Arouca,

sabendo que se tratava de acclamar ali a senhora D. Maria II, mandou

prender o capitão d’ordenanças, por suspeito de proteger a conspiração, e

com o fim de o enviar á commissão mixta de Vizeu.

«Este acto de violencia, diz a _Chronica_, despertou o brio dos

conjurados, e por diligencias de Antonio Pinto Pereira de Vasconcellos,

que com zelo incançavel fez deliberar o resto dos amigos apalavrados, no

mesmo dia se dirigiram á cadea, soltaram o preso, e concluiram depois o

acto solemne da acclamação da senhora D. Maria II.»

Antonio Pinto Pereira de Vasconcellos era, como se sabe, o irmão mais

novo de frei Simão. Mas um documento de familia diz-nos que o pae, apesar

de velho e doente, tambem se associou á conspiração planeada pelo filho

mais novo.

«O capitão-mór fugiu—prosegue a _Chronica_—com os abbades de Santa

Eulalia e S. Salvador, bem como as freiras do convento, excepto quatro.

D’estas tem voltado algumas, sabendo que reina a boa ordem, e que não

se commettem as violencias com que o partido da usurpação intimida os

povos, fazendo-lhes crer que as vinganças e a desordem é ao que aspiram

os constitucionaes.»

Margarida Candida foi das freiras que fugiram, e não voltaram.

Teve razão, porque a hydra do absolutismo não ficára ainda esmagada em

Arouca.

O capitão-mór fugitivo requisitou forças que fossem prender José Bernardo

Pereira de Vasconcellos e seu filho Antonio, motivo por que ambos

emigraram para o Porto.

A dentro das trincheiras liberaes, no Porto, Antonio Pinto, no empenho de

fazer triumphar a causa que lhe tinha victimado dois irmãos, tomou sobre

si a tarefa de organisar um batalhão de voluntarios de Arouca, que se lhe

foram reunir.

Saibamos o destino de Margarida Candida, depois que fugiu do mosteiro.

Restaurada a liberdade, appareceu em Aveiro uma senhora vestida de preto,

e acompanhada por uma criada, sua unica familia. Alugou casa n’aquella

cidade, e ali se domiciliou. Todos os dias, pela manhã, visitava a egreja

de Santo Antonio, e orava longo tempo ajoelhada sobre a sepultura de

Joaquim Maria de Vasconcellos.

Esta senhora era a sobrinha de André Pinto.

O tio vivia ainda, mas estava refugiado em Hespanha, temendo-se

principalmente dos seus adversarios politicos de Traz-os-Montes.

Constava que tinha feito testamento deixando a pessoas extranhas algumas

propriedades que tinham escapado á voragem de grandes despesas politicas.

Mas, vindo a morrer em Hespanha, não se lhe encontrou o testamento, pelo

que Margarida Candida se habilitou á herança.

Em Aveiro suppunha-se que a familia Vasconcellos de Cezár tinha

estipulado a Margarida Candida uma mesada, que ella receberia em quanto

os tribunaes a não reconheceram como herdeira do tio.

Ninguem revelou a D. Anna de Vasconcellos o fim tragico de frei Simão,

mas é de suppôr que ella suspeitasse o que tinha acontecido, porque os

seus padecimentos aggravaram-se desde 1833.

A enfermidade de que soffria pareceu retomar o seu antigo curso,

por algum tempo interrompido, ou pelo menos attenuado. Sobreveio a

difficuldade dos movimentos, a atrophia gordurosa dos musculos, a

inercia, a cerrada tristesa que obscurecia o espirito, mas o tremor

nervoso tinha diminuido.

Quando, porem, o periodo terminal da paralysia agitante tendia a

accentuar-se, uma doença intercorrente, em 1837, apressou a morte.

A guerrilha de Frei Simão: romance historico · 第 66 / 71 题