Dobrou o papel, e sobrescriptou: Ill.ᵐᵒ Sr. Frederico Pinto Pereira de
Vasconcellos.
—Agora, disse elle voltado para o religioso que estava rezando, vou fazer
as minhas declarações. Mas é trabalho que requer mais vagar, porque não
desejo que me esqueça nada.
Escreveu seguidamente duas folhas de papel almasso, que tambem tenho
deante dos olhos.
A mesma firmesa de lettra; e uma só entrelinha, apenas.
São, effectivamente, declarações sobre negocios domesticos, menção
de quantias que lhe deviam ou de que era devedor. A sua placidez de
espirito era tamanha, que não se esqueceu de mencionar pormenores sobre a
administração da casa. Refere-se escrupulosamente ás missas que deixou
por dizer, e que quer sejam ditas sem falta. Torna a recommendar as
irmãs, especialisando Maria e Anna, aconselhando aos seus que «vivam bem
e sejam amigos.»
Depois de ter escripto por mais de uma hora, frei Simão sentou-se de
fronte do crucifixo, que tinham posto no oratorio, e assim se conservou
meditando durante toda a noite.
Ao romper da manhã tomou outro caldo, e ajoelhou largo tempo em oração.
—Irmão, disse-lhe o religioso, creio que se avisinha a hora tremenda.
Veja se quer mais alguma cousa de mim.
—Sim, meu padre, quero entregar-lhe as minhas declarações; mas ainda me
falta escrever mais alguma cousa.
Tinha apenas traçado duas linhas, quando a porta se abriu.
Era o momento fatal.
Frei Simão entregou as declarações e a carta ao religioso, a quem abraçou
e beijou a mão.
Depois sahiu serenamente e assim se dirigiu, no meio da escolta de
milicias de Bragança, para o terreiro contiguo, chamado de Santa
Catharina.
Ahi abraçou os seus companheiros de desgraça, pedindo-lhes perdão, e
agradecendo-lhes a sua lealdade. Ao Marques abraçou por duas vezes. Não
chorou. Tornou a abraçar e a oscular o religioso, que lhe havia assistido.
Firmemente foi collocar-se em alvo na linha dos condemnados.
Ouviu-se então a voz de apontar.
Frei Simão, erguendo o braço direito como para deixar o peito bem a
descoberto, gritou:
—Viva Deus! Viva a liberdade! Viva a Rai...
A voz de fogo cortou, nos labios de frei Simão, a sua ultima palavra.
Sete homens cahiram varados pelas balas.
Vizeu estava em festa. A infima plebe dançava á roda dos cadaveres,
tripudiando n’um festim selvagem, que durou todo o dia.
Alguns dos cadaveres ensanguentados foram levados de rojo até ao fosso
onde costumavam lançar os animaes mortos.
O religioso impediu que o de frei Simão tivesse igual destino: elle mesmo
o acompanhou á capella de S. Martinho.
_A Chronica constitucional_, continuando a referir-se ás sentenças do
sanguinario tribunal de Vizeu, noticiava no dia 8 de dezembro a morte de
frei Simão, e no dia 15 renovava o assumpto, dizendo:
«Foi espingardeado a 19 de outubro passado (aliás 17, como se prova
pelas declarações e carta que examinamos) o patriota frei Simão, cuja
severidade de alma e firmesa, no meio dos tormentos que padeceu, chegou a
assombrar os proprios algozes que o condemnaram.»
E era verdade.
O frade constitucional de Cezár morrêra como um heroe, christã e
politicamente encarado.
Sobre este e outros exemplos de grandiosa dedicação architectou a
liberdade a sua conquista.
Esquecel-o é um crime, e comtudo, ás vezes, completamente o esquecemos!