Os fusilamentos de Vizeu

A guerra assoladora, a guerra infausta.

Pᵉ. José Agostinho de Macedo—«Newton».

O desejo de frei Simão era, atravez de todos os perigos e contrariedades,

marchar logo sobre Arouca.

Mas, dentro do termo da Villa da Feira, tinham-se levantado guerrilhas

miguelistas, que todos os dias iam engrossando, e que importava bater.

Assim lh’o representaram alguns influentes constitucionaes, que

enthusiasmados com a derrota inflingida aos milicianos, correram a pedir

auxilio ao frade libertador.

Uma d’essas guerrilhas era de Santo Izidoro de Romariz, e frei Simão voou

ao seu encontro.

Depois de uma ligeira escaramuça de meia hora, a guerrilha miguelista foi

destroçada, os chefes fugiram.

A fim de evitar que reapparecessem no dia seguinte, o frade quiz dar-lhes

caça.

Informaram-n’o de que um dos chefes, o mais perigoso, tinha ido

esconder-se na casa do Boiz.

Frei Simão dirigiu-se ali, e encontrou, dominadas de grande terror,

muitas senhoras que se haviam refugiado n’aquella casa.

—Estejam Vossas Mercês tranquillas, disse-lhes gentilmente o frade, que

nós não vimos a perseguir as damas, mas apenas a saldar contas com os

nossos adversarios, que nos perseguem a ferro e fogo. A melhor defesa do

sexo feminino é a sua propria debilidade: respeitamol-a, como devemos.

E, n’um rasgo de cavalheirismo medieval, desandou pela porta fóra sem

querer effectuar a busca.

—Rapazes! disse frei Simão aos seus guerrilheiros, eu sei o que é a

angustia d’uma mulher attribulada. D’isso tenho exemplo na minha propria

familia. Aqui está a razão por que não teimei em entrar na casa do

Boiz. Se ali encontrassemos um marido, um filho, um irmão de qualquer

d’aquellas pobres mulheres, matal-a-iamos de desgosto. Achei, pois,

que o melhor era não procurar, por tal preço, inimigos nossos, que não

deixaremos de encontrar em barda com as armas na mão, sejam esses mesmos

ou sejam outros.

Os liberaes de Cezár, que aliás não eram muitos, enthusiasmados com a

victoria de frei Simão, e considerando-a já um definitivo triumpho,

tiveram a sua hora de embriaguez politica, depois que o frade se ausentou.

Incendiaram e saquearam algumas propriedades, de preferencia as dos mais

encarniçados adversarios de frei Simão. Eram movidos pelo desejo de

vingal-o, e á sua familia.

A devassa imputa pessoalmente ao frade todas essas represalias, chegando

a dizer que elle, em Cezár, _lançou por terra uma imagem de Christo,

quebrando-lhe um braço_. Esta nota tornava-se precisa no processo para

fazer acreditar que frei Simão era effectivamente pedreiro-livre.

Não apparece na devassa noticia do combate em que a guerrilha venceu

as milicias, junto a Cezár. Percebe-se. Os miguelistas occultaram o

desastre, por ter sido completo e esmagador; mas afeiaram o procedimento

do frade para o condemnar em saldo de contas.

Todavia um homem de pé descalço foi, a correr, levar a noticia da

victoria de frei Simão ao alferes commandante da guarda da Farrapa, e

dizer-lhe que o frade, depois de alguma demora, mettera pela estrada da

Venda da Serra.

O alferes tratou logo de levantar as suas ordenanças, enviando ao mesmo

tempo o alviçareiro a Arouca com aviso ao capitão-mór para que lhe

acudisse com reforço.

Foi no sitio do Soutello que o alferes alcançou o frade, cerca das trez

horas da tarde. Travou-se encarniçado combate, que frei Simão demorou

propositadamente até ao escurecer, com o fim de aproveitar a noite para

seguir caminho de Arouca.

Effectivamente, só ao lusco-fusco foi que o frade se retirou sobre o rio

Arda, que atravessou a vau, dirigindo-se pela serra de S. Martinho ao

monte da Corugeira.

A esse tempo chegava, em reforço, o capitão-mór de Arouca, que a

guerrilha recebeu com uma descarga. Diz a devassa que n’essa occasião,

respondendo as ordenanças com muita fusilaria, frei Simão fôra ferido.

Não é exacto. O frade passou incolume, seguindo em direcção a Arouca, a

coberto dos montes e da escuridão da noite. Descendo pela serra da Mó,

foi, muito fatigado pelos trabalhos d’aquelle dia, pernoitar na casa da

sua familia, no Outeiral.

Frei Simão suppoz que as ordenanças lhe teriam perdido o rasto, e que

ninguem saberia da sua chegada ao Outeiral: planeava, pois, dar ao romper

da manhã um assalto ao convento, aproveitando a ausencia das ordenanças.

José Bernardo de Vasconcellos, quando viu o filho entrar na quinta, com a

guerrilha, cheios de fadiga, derreados de cansaço, teve uma exclamação de

profundo desalento:

—Ah! meu filho, que te vens metter no meio dos nossos inimigos!

Frei Simão sorriu e disse:

—Quiz a todo o custo chegar a Arouca, porque tenho a cumprir um

juramento, e receei que o tempo me faltasse. O tempo ou a vida...

Mas ainda de madrugada já a quinta do Outeiral estava cercada por todas

quantas ordenanças poderam reunir-se.

Não obstante, frei Simão deu ordem á guerrilha para que forçasse a

passagem.

Pediu-lhe o pae que tal não fizesse.

—Meu querido pae, respondeu frei Simão, aqui não ha outra cousa a fazer.

As ordenanças apontaram armas contra a guerrilha, quando a viram assomar

audazmente ao portão da quinta.

Soou a primeira descarga, e o fumo ennovelou-se no ar toldando, como uma

grande e espessa nuvem, o azul purissimo da manhã.

Frei Simão, respondendo ao fogo, poude fazer recuar um troço das

ordenanças, e abrir caminho.

Debaixo de uma chuva de balas, dirigiu-se para a serra da Freita, onde

queria tomar posição.

Mas as ordenanças perseguiram-n’o em tanto numero e com tanto desespero,

que a guerrilha se desconcertou: uns fugiram para a banda de Alvarenga;

outros, com frei Simão, foram correndo sobre S. Pedro do Sul pela serra

de Bustello e Cabreiros.

Sempre perseguido, cada vez com maior encarniçamento, frei Simão julgou

que poderia desnortear as ordenanças escondendo-se para deixal-as passar.

Diz Soriano que o frade se metteu n’um côrrego da ribeira de Raques.[7]

Era, diz a devassa, um barrôco da ribeira de Adaufe.

O ardil não dera o resultado que frei Simão esperava. As ordenanças

descobriram o escondrijo e atacaram-n’o.

O frade conhecia toda a desvantagem da sua posição, logo que o ardil

falhasse.

Mas não desanimou. Estimulou, com energicas palavras, a coragem dos

guerrilheiros, e organisou de prompto a defesa.

O resto da guerrilha bateu-se com assombrosa bravura, apesar de muito

castigado pelo fogo dos miguelistas.

Foi longo e renhido o combate, e as munições de frei Simão eram já

escassas.

A devassa, para engrandecer a victoria, diz que os guerrilheiros presos

eram vinte e um, e que tinham os boldriés ainda municiados de cartuxame.

Seria preciso não conhecer frei Simão para acreditar que elle não

luctasse até esgotar as suas munições.

Francisco Marques disse ao frade:

—Sr. frei Simão, eu vou atar o lenço na espingarda para acabarmos com

isto, que já não pode durar muito.

—Não! nunca! replicou, indómito, o frade. A inimigos encarniçados não se

pede paz. Quando se nos acabar o ultimo cartuxo, que nos matem ou que nos

prendam, pouco importa. Tanto monta morrer hoje como amanhã.

E até gastar o ultimo cartuxo, a guerrilha de frei Simão sustentou, com

heroico denodo, o tiroteio.

A derrota estava prevista; era certa.

As ordenanças cercáram a guerrilha, cada vez mais redusida pelo

morticinio.

Eram onze horas da manhã.

Frei Simão e seis dos seus valorosos companheiros foram presos,

condusidos a Arouca, onde entraram ao som festivo dos sinos do mosteiro,

que repicavam em triumpho.

As freiras, engalanadas com laços de fita escarlate, davam vivas a D.

Miguel I, nas janellas do edificio.

Na cella da abbadeça houve beberete de vinho fino do Porto, esponjado em

pão de ló de S. Bernardo, guloseima lendaria n’aquelle mosteiro.

Margarida Candida chorava, abraçada a um crucifixo, na hora em que o

frade de Cezár, irmão de Joaquim Maria, passava, entre as ordenanças,

caminho da cadeia.

Frei Simão, na attitude de um vencido que tem a consciencia de haver

cumprido o seu dever, atravessava por entre a multidão, que o cobria de

injurias, sem baixar a cabeça nem o olhar.

Mas ao passar em frente do mosteiro, a cabeça descahiu-lhe, o olhar

rastejou no solo.

Uma onda de tristesa inundou-lhe o forte coração. Tudo estava perdido.

Ia morrer, sem ter cumprido o seu juramento, realisado o seu ideial.

Via a Terra Promettida, sem poder entrar os seus muros, transpôr as

suas portas. E, de subito, lembrou-se da inexplicavel melancolia que o

acommetteu, annos antes, a ultima vez que ali estivera. «Era um aviso de

Deus!» pensou o frade.

As madres, parecendo-lhes que frei Simão ia succumbido, esganiçaram-se em

redobrados gritos de alegria, vivas a D. Miguel I, ao corregedor, e ás

ordenanças, que tambem festejavam com palmas.

Após curta demora em Arouca, foram os presos condusidos a Lamego, e d’ahi

para Vizeu, onde entraram no dia 19 de setembro, atravessando por entre

os apupos, os insultos, as pragas da multidão, que enchia as ruas.

Frei Simão e os seus companheiros tinham feito toda a jornada a pé,

com inquebrantavel coragem. Caminhavam para a morte com a firmesa de

verdadeiros heroes.

Em Vizeu estava funccionando o _tribunal de terror_, a commissão mixta,

composta de trez magistrados civis e de quatro vogaes militares, que os

ia julgar e que, fatalmente, os condemnaria.

Este sanguinario tribunal já havia mostrado o seu implacavel rigor na

sentença que, em agosto, pronunciára contra trez sacerdotes liberaes.

Eram elles os padres Lauriano Antonio Pinto de Noronha, Caetano José

Pinheiro e Antonio Alberto Pereira Pinto Monte-Roio, que foram presos

quando navegavam Douro abaixo com o proposito de reunir-se á expedição

libertadora no Porto.

Ia tambem com elles frei Joaquim dos Santos Pereira, mas esse, por haver

sido ferido gravemente no peito com uma bala, não foi logo julgado, e

assim logrou salvar a vida, porque o tratamento não tinha ainda acabado

quando a liberdade triumphou[8].

Menos felizes, os seus trez companheiros foram arcabusados no Campo da

Ribeira em Vizeu, no dia 23 de agosto.

Só em dezembro, a _Chronica constitucional do Porto_ tinha noticia

relativa ás primeiras victimas d’aquelle tribunal de terror.

No numero do dia 3 dizia o orgão official do governo de D. Pedro:

«Já se contam trez individuos espingardeados por estes monstros. As

primeiras victimas, segundo nos consta, foram trez clerigos; esses

apregoados defensores do altar e throno folgam de banhar as mãos no

sangue dos ministros da Religião, quando estes fieis á legitima Rainha,

e inimigos do perjurio e da usurpação, recusam tornar-se cumplices do

crime de seus algozes!»

Frei Simão, cuja importancia politica era maior que a dos outros

ecclesiasticos até ahi julgados pelo tribunal de Vizeu, sabia que seria

condemnado á morte, mas essa certesa em nada lhe quebrantava a hombridade

de caracter, que sempre conservou.

—Para mim, rejeitaria a generosidade dos usurpadores, se elles podessem

ser generosos alguma vez, dizia frei Simão; mas só eu devo ser

responsavel pelo levantamento da minha guerrilha, e pelos seus actos.

Repugna, por inverosimil, a affirmação da devassa quando diz que frei

Simão declarou ter acompanhado a guerrilha forçadamente.

Ao contrario, elle procurava salvar da morte os seus homens de armas,

inculcar-se como unico e verdadeiro culpado.

De nada valeu, porém, essa nobre tentativa.

No dia 16 de outubro reuniu-se a commissão mixta, e summariamente

condemnou á morte, dentro de vinte e quatro horas, frei Simão de

Vasconcellos com os seus seis companheiros de guerrilha.

Eram elles:

Antonio Joaquim, natural da cidade do Porto, furriel do batalhão de

caçadores n.º 12.

Joaquim Gonçalves, natural da freguesia de Casaes, concelho e comarca de

Penafiel, soldado do mesmo batalhão.

Francisco José Marques, natural do logar e freguezia de Sanfins, comarca

da Villa da Feira, soldado do batalhão da Serra, organisado no Porto.

José de Oliveira, natural do logar de S. Geão, freguesia do Souto,

lavrador, soldado do batalhão de Villa Nova, organisado no Porto.

Joaquim José da Silva, natural do Porto, freguesia de Santo Ildefonso,

soldado de caçadores 2.

Luiz Ferreira da Costa Sant’Anna, natural de Ranhados, proximo a Vizeu,

residente no Porto, e hortelão dos Loyos.

Frei Simão julgava que eram esses os seus unicos guerrilheiros que

tinham sobrevivido ao combate na ribeira de Adaufe; mas um d’elles, José

Ferreira, natural de S. Martinho de Argoncelhe, termo e comarca da Villa

da Feira, podera escapar-se no caminho, sendo, porém, recapturado pelos

miguelistas, e tambem, mais tarde, condemnado á morte.

Immediatamente á leitura da sentença, frei Simão e os seis guerrilheiros

foram introdusidos no _oratorio_ em uma das aulas nos claustros do

Seminario.

O frade, muito sereno, pediu que lhe mandassem um confessor, papel e

tinta.

Confessou-se ao religioso que lhe enviaram, e que, depois da confissão,

se lhe mostrou muito affeiçoado.

Em seguida tomou apenas um caldo, e sentou-se a escrever tranquillamente.

Começou por uma carta a seu irmão Frederico Pinto.

Tenho-a deante dos olhos: a lettra é firme, clara; nem uma entrelinha.

Diz assim:

«Vizeu em o Oratorio, 16 de outubro

Mano do C. Ámanhan vão pôr termo aos meus trabalhos, estimarei

seja o ultimo sangue que se verta: por outra via te escrevi

que creio ahi te será entregue, pessoalmente. Peço-te me

ajustes contas com todos os acredores, e me desencarregues a

minha alma: visitas á Mana, pequenos e mais familia e que me

encommendem a minha alma ao Creador; peço-te se o meu sangue te

servir de alguma cousa ajudes as Manas com especialidade Maria

e Anna que muito tem soffrido. Adeus. Este religioso a quem sou

muito devedor fica com as minhas declarações que te enviará ou

ás Manas de ellas ter resposta. (_Sic._) Adeus. Teu mano affectivo

A guerrilha de Frei Simão: romance historico · 第 63 / 71 题