D. Pedro respondeu laconicamente:

—Um juramento...

O que é certo é que, na _Chronica constitucional do Porto_, se fez um

longo silencio sobre o destino de frei Simão no decurso de agosto a

setembro.

Mas nós, que temos presentes os autos de summario e a respectiva devassa

rapidamente instaurados mais tarde contra frei Simão, e que podêmos,

por outras noticias fidedignas, corrigir o que ha de invenção facciosa

n’esses documentos judiciaes, vamos encontrar a guerrilha no dia 8 de

setembro em caminho de Cezár.

Não podêmos comtudo explicar a demora da marcha, a não ser pelas

difficuldades do transito provenientes do encontro e das escaramuças com

numerosas guerrilhas miguelistas.

Diz a devassa que frei Simão tinha sahido do Porto na noite de sete de

setembro. Não é exacto. O silencio da _Chronica constitucional_ abona

a negativa. Frei Simão não tornou a entrar na cidade, o que seria

contradictorio com os fins da sua missão. Tambem diz a devassa que a

guerrilha se compunha de cêrca de quarenta homens. Pode ser que tivesse

augmentado em numero pela adhesão de alguns voluntarios, mas quando sahiu

do Porto não excedia vinte homens.

O que é certo, porém, é que frei Simão, com a sua gente, appareceu em

Cezár no dia 8 de setembro pela manhã.

Toda a guerrilha, incluindo o commandante, vestia jaqueta de policia,

como então se dizia, com boné listado de azul e branco.

Pelo que respeitava á sua pessoa, parecia a frei Simão que o uniforme

militar era mais decente do que o habito arregaçado, a calça justa, as

botas de montar, a banda e a espada á cinta, o bacamarte a tiracol com

que ordinariamente os frades miguelistas se exhibiam no commando das suas

respectivas guerrilhas.

Frei Simão apenas trazia, como distinctivo do estado ecclesiastico, a

cruz peitoral entalada entre a camisa e a jaqueta.

A devassa, no seu proposito de aggravar as responsabilidades de frei

Simão, diz que elle entrára em Cezár dando tiros, matando, incendiando.

Não foi assim.

Logo que chegou, o frade deu voz de descanço á guerrilha, e foi, elle só,

bater á porta do Passal.

Alguns timidos camponezes, que se metteram em casa cheios de medo quando

avistaram o frade do Outeiro á frente de um bando de homens armados,

julgaram que era chegado o seu ultimo momento.

Mas, depois que elle passou, espreitaram-n’o com olhos de lynce, não sem

alegre surpresa por a guerrilha não ter incommodado ninguem.

Viram-n’o dirigir-se ao Passal, e conjecturaram que o abbade e o

coadjuctor seriam, por sua categoria, as primeiras victimas da vingança

de frei Simão.

O povo, tendo sempre ouvido dizer a Ignacio da Fonseca e outros

absolutistas que o frade era maçon, julgava-o inimigo irreconciliavel do

throno e do altar.

Frei Simão, sem fazer reparo nas flores e estatuetas do jardim, subiu a

escada de pedra e entrou na Residencia, não como um adversario, mas como

um pacifico e agradecido amigo.

Padre Antonio Pinheiro não estava. Tinha ido a Oliveira de Azemeis

confessar, por dedicação, um velho entrévado, antigo parochiano de Cezár,

que mudára de terra, e não quizera mudar de confessor. Mas o abbade

Moreira Maia, que era, como sabemos, um miguelista tolerante, e que por

padre Antonio havia sido informado de tudo o que se passára com frei

Simão, recebeu delicada e bondosamente essa inesperada visita.

—Não quiz passar aqui, disse-lhe o frade, sem vir agradecer o

hospitaleiro acolhimento com que o padre coadjuctor me deu asylo, quando

d’elle careci. Agradeço em primeiro logar ao sr. abbade, porque estive

sob o seu tecto, e á sombra da sua tolerancia; mas desejo mais uma vez

testemunhar a minha gratidão áquelle que, na ausencia do sr. abbade, tão

bem comprehendeu e honrou a hospitalidade christã.

O abbade explicou o motivo da excepcional ausencia de padre Antonio; e

frei Simão mostrou sincero sentimento de o não poder vêr e abraçar.

—Vossa Reverencia, apostrophou, de golpe, Moreira Maia, veio só?! Não vê

que soou a terrivel hora de uma guerra fratricida, e que, portanto, se

expõe a novos e grandes perigos?!

—Vejo, respondeu o frade, mas tenho plena confiança na minha guerrilha.

—É pois certo o que constava! Vossa Reverencia vem a Cezár em som de

guerra!? Vae então correr sangue! Oh! que desgraça! que desgraça!

—Os meus homens estão acolá em descanço, com as suas armas ensarilhadas,

respondeu frei Simão indicando o sitio onde a guerrilha fizera alto. Bem

vê Vossa Senhoria que não tenho pressa de fazer correr sangue, comquanto

tenha fome e sêde de justiça.

—Mas, por Deus! sr. frei Simão, se as minhas supplicas podem valer de

alguma cousa, supplico-lhe que seja generoso e magnanimo. O sangue não

remedeia as desgraças consumadas, antes as aggrava, porque atiça os odios

e clama vingança.

—Vossa Senhoria, que sempre tem sido tolerante, e cujo coração padre

Antonio conhecia melhor do que eu quando me offereceu segura hospedagem,

afere os sentimentos alheios pelos proprios, e não poderá comprehender,

por isso, quanto os meus adversarios teem ferido, esmagado o meu coração,

quanto as minhas desgraças, devidas a elles, e as de toda a minha familia

me teem feito soffrer ha tão longo tempo!

—Pelo amor de Deus! sr. frei Simão! lembre-se de que Jesus Christo

perdoou aos deicidas que o crucificaram. Tem soffrido, é certo, não o

negarei eu, mas pague-se da sua desgraça deixando que os outros, errantes

agora e foragidos, soffram igual tormento. Não exagere a sua desforra,

não appelle para o morticinio.

—Vossa Senhoria sabe que eu não sou uma féra, mas esperei, soffrendo,

a hora da justiça, da justiça apenas, sr. abbade, e essa hora acaba de

soar. Acceitarei as resoluções da Providencia. Foi Deus que assim o quiz.

Os designios da Providencia acceitam-se, não se discutem. Esteja Vossa

Senhoria tranquillo. Eu vou ali ao Outeiro vêr minhas irmãs, que não

sabem o que é feito de mim.

—Só isso? perguntou o abbade tremulo de commoção.

N’este momento, frei Simão viu a cabeça branca de Gertrudes Magna

espreitando avidamente a meio do corredor!

—Venha cá, disse-lhe o frade, venha cá, santa e boa mulher, a quem devo

muita dedicação. É digna do virtuoso sobrinho que tem,—concluiu frei

Simão voltando-se para o abbade e abraçando a velha. Mais uma vez, ao sr.

abbade, a padre Antonio, a esta boa creatura renovo a expressão de um

eterno reconhecimento.

E sahiu, saudando respeitosamente o abbade.

Gertrudes Magna, petrificada a meio da porta do corredor, exclamou

soluçando:

—Deus tenha piedade d’elle, que grandes perigos anda correndo!

—Nem eu sei, replicou commovido o parocho, como elle poude chegar até

aqui são e salvo!

—E logo o meu padre não estar cá hoje! Bem dizia elle que não tornava a

vêr o sr. frei Simão! Tambem me parece agora que padre Antonio dizia a

verdade!

O frade foi d’ali direito, com a sua guerrilha, a casa de Ignacio da

Fonseca. Dispoz em cordão os guerrilheiros, e elle mesmo quiz bater á

porta. Ninguem veio abrir. Tornou a bater. O mesmo silencio.

—Ou abrem ou metto a porta dentro! gritou, com colera, frei Simão.

Então, um criado, tremendo como varas verdes, veio abrir. Era o Manel

Zarôlho.

Frei Simão, acompanhado apenas por dois homens, entrou altivamente.

—Dize a teu amo, ordenou elle ao Zarôlho, que lhe quero fallar.

—Meu amo, respondeu muito gago o criado, não está em casa.

—Veremos isso, respondeu frei Simão entrando.

E começou a revistar minuciosamente a casa.

N’um dos quartos interiores encontrou a mulher de Ignacio da Fonseca, que

estava de joelhos, com os olhos fechados, rezando deante de um oratorio.

—Não tenha Vossa Mercê receio, disse-lhe o frade. Devo suppol-a isenta de

toda a culpa. Ninguem ousará maltratal-a. Mas seu marido onde está?

—Meu marido, respondeu a pávida mulher, abrindo a custo os olhos, meu

marido fugiu de casa.

—Ah! fugiu! Era a consciencia do crime! Elle bem sabe que na casa do

Outeiro ha uma pobre creatura, que lhe não tinha feito mal nenhum, e a

quem elle condemnou a um soffrimento atroz.

—Meu Deus! meu Deus!

—Se seu marido temesse Deus, não haveria feito o que fez. Fugiu? Pois

bem, a justiça de Deus o alcançará onde quer que elle esteja.

Frei Simão continuou a revistar todos os compartimentos do predio.

Ignacio da Fonseca não apparecia; devia effectivamente ter fugido.

Voltando ao quarto onde a dona da casa estava ainda ajoelhada, o frade

disse-lhe com intimativa:

—Senhora, os seus criados não lhe fazem falta, e eu preciso augmentar a

minha guerrilha. Leval-os-hei comigo. Devem estar bem armados. E a vida

de Vossa Mercê responderá pela segurança da familia do Outeiro. Ella

por ella. Tendo fugido o dono da casa, não são precisos aqui os criados,

porque não ha quem os dirija. E na ociosidade poderiam lembrar-se de

praticar algum maleficio. Previno assim novas calamidades. Para o serviço

de Vossa Mercê cá ficam as suas criadas, que devem chegar. Dito isto,

pode Vossa Mercê ficar tranquilla, porque não correrá risco algum, se a

minha infeliz familia não fôr aggravada.

Os criados de Ignacio da Fonseca não offereceram resistencia a entrar

no meio da guerrilha. O frade distribuiu-lhes as armas e petrechos que

encontrou na busca a toda a casa.

—O que tentar fugir, disse elle mandando marchar a guerrilha para o

Outeiro, será fusilado como desertor.

De todos os criados, o que mais tremia era o Manel Zarôlho.

Frei Simão pouco se demorou no Outeiro.

Anninhas, que se alvoroçou ao vêl-o, sentiu-se mais convulsa, mas o frade

procurou aquietal-a dizendo-lhe que a liberdade triumphava, e que o

futuro compensaria todos os trabalhos e desgostos do passado.

Era um meio indirecto de lhe dar uma vaga sensação de esperança.

D. Maria Albina informou á puridade o irmão de que Anninhas continuava

no mesmo estado, umas vezes peior, outras melhor, mas sempre concentrada

e melancolica, fallando pouco. Tinha dias em que o tremor quasi cessava.

Mas n’aquelles em que recrudescia, D. Anna passava muito mal as noites,

apenas dormia somnos curtos, queixando-se de calor excessivo.

Desde que ella tornára a vêr o frade, quando fugiu da cadeia, a doença

entrára n’um periodo irregular, caprichoso, que principalmente parecia

depender das modalidades psychicas, e das variações da atmosphera e da

temperatura.

Não era já a marcha franca da paralysia agitante, mas uma irritabilidade

nervosa, extremamente susceptivel, que mantinha, comtudo, visiveis

affinidades com essa terrivel enfermidade no seu mais exacto diagnostico.

Frei Simão disséra a D. Maria Albina:

—Aqui só a inesperada apparição de José Maximo nos podia valer.

—E o mano não sabe nada a esse respeito?

—Nada! respondeu com funda tristeza frei Simão.

Sahindo do Outeiro, o frade disse ás irmãs, principalmente a D. Anna, que

estivessem tranquillas, porque ninguem as incommodaria, e accrescentou,

mostrando-se alegre e confiante, que não tardariam muito os dias felizes

da victoria e da paz.

Anninhas ouviu-o sem parecer acredital-o.

E frei Simão sahiu com o coração amargurado por comprehender a impressão

que as suas palavras deixáram no espirito da irmã.

Poz em marcha a guerrilha, e abalou com ella, internando-se no pinhal.

A breve trecho mandou fazer alto.

Ordenou aos criados de Ignacio da Fonseca que dessem quatro passos á

frente.

—Quero saber, intimou elle, quem foi que poz aquelle maldito papel na

janella do Outeiro.

Fez-se um silencio profundo. O Manel Zarôlho batia o queixo n’uma sezão

de mêdo, quasi terror.

—Foste tu, poltrão? perguntou o frade.

—Fui eu, meu senhor, por ordem de meu amo.

O Marques ia a metter a arma á cara.

—Não quero que o mates! gritou o frade. Não faltarão balas para elle. Não

ha maior castigo para os poltrões do que prolongar-lhes a tortura do mêdo.

E, voltando-se para os fieis camaradas que o tinham acompanhado desde o

Porto, disse:

—Muita vigilancia com este canalha, e com os outros. Vamos acampar aqui,

porque eu quero observar se, suppondo-me já longe, ha novidade em Cezár.

Receiava o frade de alguma represalia contra as irmãs.

Estabelecidas sentinellas no improvisado acampamento, frei Simão

adormeceu. Estava fatigado physica e moralmente.

Dormiu cêrca de trez horas, e foi accordado á voz de alarme pelas

sentinellas, que tinham avistado um forte destacamento de milicias.

O frade ergueu-se de um salto, esfregou os olhos, cresceu na grandeza do

seu vulto, como se o odio o agigantasse.

Dispoz a guerrilha em linhas de atiradores. Na frente, os criados de

Ignacio da Fonseca. O Zarôlho, mettido na fileira, batia os joelhos um

contra o outro, tremendo de medo.

—Cara p’ra frente, cobarde! gritou-lhe frei Simão.

O Zé de Oliveira, que tinha boa vista, disse ao commandante:

—É um destacamento de milicias da Feira, que vem de Oliveira d’Azemeis.

E era. Tendo chegado a esta villa a noticia da aproximação da guerrilha,

o destacamento de milicias da Feira, que ali estava, sahiu em marcha

forçada á procura de frei Simão. Assim conseguiu vencer cêrca de trez

leguas em pouco mais de duas horas.

Ignacio da Fonseca, que por cautela se tinha ausentado para Oliveira

d’Azemeis, quando soube o motivo por que sahia o destacamento, resolveu

acompanhal-o. Julgava facil o destroço da guerrilha, e não quiz perder

por isso o ensejo de completar a sua vingança.

—Olha! exclamou um dos criados do Fonseca, o nosso amo tambem lá vem!

—Tambem?! rugiu frei Simão. Fogo, rapazes! fogo!

O destacamento respondeu logo á fusilaria.

O frade obrava prodigios de valor, commandando a guerrilha, e carregando

elle proprio, apezar de quasi lhe faltar o braço esquerdo, a sua

espingarda.

Logo aos primeiros tiros, o Marques, como o Zarôlho recuasse, empurrou-o

para a frente com um pontapé.

O tiroteio foi cerrado, vivo.

A primeira linha da guerrilha tinha cahido quasi toda. O Zarôlho ficára

de costas com uma bala no peito.

—Que o diabo te leve! praguejou o Marques.

Frei Simão disse:

—Foi a justiça de Deus!...

Como a fusilaria começasse a afroxar por parte do destacamento, o frade

comprehendeu que lhe tinha causado grandes perdas.

—Avancemos, rapazes! gritou elle.

E a guerrilha, enthusiasmada, avançou carregando.

O resto do destacamento, muito dizimado, recuou.

Frei Simão estimulava os seus guerrilheiros gritando e correndo:

—A elles, rapazes! a elles!

Os milicianos começaram a dispersar-se, fugindo. O fogo da guerrilha

perseguia-os; varria-os a saraivada das balas. Na debandada, alguns dos

milicianos cahiam, outros fugiam á morte com desesperada velocidade.

Quando o terreno ficou varrido, frei Simão foi reconhecer os cadaveres e

apossar-se das armas que jaziam com elles.

—Olá! apostrophou o Marques, que grande patife aqui está dormindo a sua

somneca!

Era Ignacio da Fonseca, que tinha o craneo esmigalhado.

—Justiça completa! exclamou frei Simão. Deus fez justiça completa, e nós

combatemos honradamente em campo aberto.

Quedou-se o frade, encostado á espingarda, a olhar para o morto.

Um turbilhão de pensamentos remoinhava no espirito de frei Simão.

—A pobre Anninhas, pensava elle, estava vingada. Fôra a Providencia,

parecia, que preparára aquelle desenlace. Ignacio da Fonseca, o auctor do

bilhete, ali estava morto, a pequena distancia do Zarôlho, que fôra pôr

na janella esse maldito papel. Como a mão poderosa do destino combinára

os acontecimentos, de modo que fosse feita justiça simultanea e completa!

Os outros criados de Ignacio da Fonseca, que tantas vezes, por ordem de

seu amo, tinham vexado a familia do Outeiro, ali tinham tambem morrido, á

voz do chefe d’essa familia, varados talvez pelas balas do proprio amo!

Frei Simão mandou tocar a descanço. Mas elle não descançou, esteve

recordando todas as extranhas circumstancias, todas as notaveis

coincidencias d’aquelle rapido combate.

A guerrilha de Frei Simão: romance historico · 第 61 / 71 题