...confia em Deus; que é o mesmo que não fundar em areia
movediça, mas em penha viva: nem defender-te com escudo de
cêra, mas de aço.
Padre Manuel Bernardes—«Luz e calor».
Quando a expedição liberal desembarcou, as tropas miguelistas que tinham
acampado junto a Villa do Conde, calculando que era impossivel a sua
juncção com as do Porto, retiraram sobre a estrada de Amarante; e as que
estavam postadas em Leça, avançaram para a cidade, passaram o Douro de
madrugada, cortaram a ponte, e alojaram-se nas alturas de Villa Nova.
Assim deixaram o campo livre aos recemchegados!
Para responder ao tiroteio que de Villa Nova era dirigido contra a
cidade, algumas embarcações da esquadra de D. Pedro, subindo o Douro,
estacionaram defronte das posições occupadas pelos miguelistas e
obrigaram-n’os a desalojar.
Uma divisão liberal, passando o rio em barcos, foi em perseguição do
inimigo.
Assim tambem perderam os miguelistas uma excellente occasião de
fortificar-se logo em Villa Nova, e o mêdo foi tamanho que Santa Martha,
não se julgando seguro em Grijó, retirou sobre Oliveira de Azemeis.
Frei Simão ficou pairando, com a sua guerrilha, nas visinhanças do Porto,
em cumprimento das ordens do imperador.
Não tinha um momento de descanço. Umas vezes combatia contra as
guerrilhas miguelistas, como aconteceu na tarde de 11 de agosto, em
Avintes, onde perseguiu alguns homens do visconde de Montalegre,
atravessando o rio em seguimento d’elles até ás portas da cidade, em S.
Cosme; outras vezes, como na noite d’esse mesmo dia, em Espinho, batia os
piquetes, de soldados ou de paisanos armados, que pretendiam impedir a
passagem de fornecimentos para o exercito liberal.
A _Chronica constitucional do Porto_ commemorava estes feitos de frei
Simão, noticiando no seu numero correspondente a 14 de agosto:
«Sabemos com certeza que a guerrilha constitucional commandada por frei
Simão, surprehendeu no dia 11 do corrente ás 10 horas da noite, no logar
chamado _Espinho_, uma guarda de 20 paisanos ali postada para impedir o
fornecimento d’esta cidade. A nossa gente lhe matou 4, prendeu 6, e o
resto fugiu dispersado.
«O mesmo commandante perseguiu em Avintes na tarde de 11 alguns ladrões
da força do visconde de Montalegre, e veiu batendo a estrada até ás
portas de S. Cosme n’esta cidade.»
No fim de agosto ainda a guerrilha de frei Simão pairava sobre a margem
esquerda do Douro, vigiando a cidade.
A _Chronica_ de 28 d’esse mez publicava a seguinte informação datada do
dia anterior:
«Hontem pelas nove horas da noite pegou em armas toda a guarnição da
Serra, porque os rebeldes se haviam aproximado das nossas linhas. A
guerrilha de frei Simão retirou algum tanto, porque a força inimiga,
dividida em duas columnas, mostrava apparencias de a querer flanquear.
Em consequencia da parte dada por frei Simão, foram immediatamente
reforçados todos os nossos pontos; a força commandada por frei Simão
matou trez guerrilheiros, e ao romper da manhã o campo estava limpo
de inimigos. Soube-se que a força que está nos Carvalhos consiste em
duas peças de artilheria, alguma cavallaria, parte do regimento 24, e
guerrilhas.»
Frei Simão, impaciente de ir a Cezár, aproveitou a evolução que fôra
obrigado a fazer na noite de 26 de agosto, para affastar-se do Porto.
Salvava-se ao mesmo tempo de ser flanqueado pelas duas columnas inimigas,
e realisava o seu mais ardente desejo.
Muitas vezes tinha elle pensado em que uma bala miguelista o poderia
matar antes de justar contas com os perseguidores da sua familia e de
arrancar Margarida Candida ao carcere conventual de Arouca. Essa ideia
atormentava-o, mas, no momento em que o perigo era imminente, quando
chegava a hora de combater, frei Simão arremessava-se, destemido, contra
os seus adversarios, e o receio da morte apagava-se completamente no seu
espirito.
Os adversarios detestavam-n’o, porque o temiam. Esse representante do
clero liberal, tão valente como guerrilheiro e tão celebrado pela sua já
lendaria dedicação á causa da Rainha e da Carta, irritava os miguelistas
a ponto que julgavam um grande triumpho o poder surprehendel-o e
aniquilal-o.
Frei Simão apenas dispunha de um braço, como sabemos. Mas na destresa da
pontaria não o excediam nem igualavam os melhores atiradores.
Todas estas circumstancias avultavam a lenda da sua heroicidade, e
chamavam sobre elle a attenção e o odio dos adversarios.
Desde o mez de agosto que no Porto deixaram de receber-se noticias de
frei Simão.
O imperador, que de nada se esquecia, pensava algumas vezes no seu famoso
guerrilheiro, e respondia aos que lhe fallavam d’elle:
—Frei Simão deve estar a caminho de Arouca, se já lá não estiver.
Houve quem perguntasse a D. Pedro:
—Mas que razão poderia elle ter para tão aventurosa marcha?