Rodrigues Moacho exclamou ao lêr esta inesperada carta:
—Sempre digno, até mesmo nas mais temerarias resoluções. Loucura da
honra, a sua!
Moacho, que nunca mais sahira da Belgica, não tornou a vêr José Maximo da
Fonseca.
D. Pedro desembarcou em Cherbourg a 12 de junho. Mas o brigue francez,
que conduzia a rainha de Portugal para a Europa, teve mais demorada
viagem, só a 11 de julho aportou a Brest.
Era a segunda vez que essa linda princesinha, ainda na infancia, sahia do
Brazil, onde nascêra, para vir correr aventuras politicas no Velho Mundo.
Em 1828 partira do Rio de Janeiro destinada a educar-se na côrte de seu
avô em Vienna até que chegasse á idade de desposar o infante D. Miguel.
Em Gibraltar, o marquez de Barbacena, que acompanhava a jovem rainha,
sabendo da usurpação realisada pelo infante em Portugal, mudou de rumo e
levou D. Maria da Gloria para Londres.
Na côrte de Jorge IV, aquella linda menina, que contava apenas nove
annos, foi recebida com honras reaes, mas nada tão falso e illusorio como
essas honras, porque a filha de D. Pedro IV começou por onde alguns reis
teem acabado: perdeu a corôa, de que o tio se apossára.
Em agosto de 1829 D. Maria voltava para o Brazil, acompanhada pela
princesa de Beauharnais, que ia ser sua madrasta.
Agora, dois annos depois, voltava á Europa como filha de um principe
desthronado, sendo ella mesma desthronada tambem.
D. Pedro, que de Cherbourg tinha ido para Londres, tornou a França, ao
encontro da filha.
Celebrava-se em Pariz o primeiro anniversario da revolução de Julho. Os
animos estavam ainda muito agitados, os legitimistas não tinham perdido
occasião de provocar tumultos, mas as festas do anniversario deram aos
parisienses um espectaculo alegre, que é a coisa que elles mais apreciam.
Ao lado de Luiz Filippe apparecêra n’esses dias festivos o desthronado
imperador do Brazil: D. Pedro atirava o seu chapeu ao ar, quando ouvia
vivas aos polacos, que a Russia estava absorvendo pela força, e apertava,
como Luiz Filippe, a mão ás deputações de operarios.
José Maximo da Fonseca viu isto, esta confraternisação de dois
reis democratas com o sentimento popular, e tambem atirou ao ar
enthusiasticamente o seu velho chapeu de caldeireiro ambulante, á
semelhança do que tinha feito no Porto nos dias felizes de 1820.
D. Pedro voltou, com D. Maria da Gloria, a Londres, e ahi, sob o tecto de
um _hotel_, essa jovem, mas desditosa rainha, recebeu das mãos dos seus
partidarios emigrados a offerenda de um sceptro de oiro, quando era certo
que ninguem n’essa hora era menos rainha do que ella.
José Maximo, em Pariz, evitava os emigrados portuguezes, alguns dos quaes
reconhecêra.
Á volta da Belgica, como antes, vivia só, no seu humilde mistér de
caldeireiro, não se aproximando de ninguem.
Era, como elle tinha dito a Rodrigues Moacho, a fôlha sêca varrida pelo
vendaval.
Em agosto, D. Pedro, sempre a braços com as incertesas e fluctuações da
sua complicada situação, voltou a Pariz.
Luiz Filippe fez honra aos seus hospedes e offereceu-lhes o castello de
Meudon, pondo á disposição da familia de D. Pedro cavallos e carruagens,
e ás suas ordens uma guarda de capitão.
A nove kilometros de Pariz, perto da margem esquerda do Senna, Meudon,
com o seu outeiro, o seu castello e o seu bosque, é um sitio delicioso,
que os parisienses adoram, especialmente os namorados e os poetas.
D. Maria II parecia uma fadasinha, branca e loira, destinada a povoar
harmoniosamente aquelle bosque encantado, onde os castanheiros e os
carvalhos deixavam cahir a doce sombra dos dias calmosos do estio.
Tinha então apenas onze annos, mas era um formoso esboceto de mulher:
carnação feita de leite e rosas, olhos castanhos e vivos, cabeça altiva,
bôca a que o beiço grosso dos Braganças não prejudicava a graça nem a
firmesa.
Apezar de creança, havia na sua plastica a redondez de formas que
desabrocham correctas, e no seu porte um cunho de reflexiva e consciente
nobresa, que ia bem a uma princesa desthronada em plena infancia.
José Maximo, sempre solitario, galgava de proposito a estrada de Meudon
para vêr a jovem rainha de Portugal. Algumas vezes encontrou no caminho,
á ida ou á volta, o cura Dupanloup, um padre de cerca de trinta annos,
novo mas virtuoso e illustrado, que D. Pedro havia escolhido para
director espiritual de sua filha[6]. E José Maximo ia pensando comsigo
mesmo:
—Que este padre consiga firmar no coração da pequenina rainha as raizes
da fé christã, porque ella, que parece ter nascido para soffrer, precisa
encontrar no naufragio da sua mallograda realesa alguma tabua de
salvação,—a melhor.
José Maximo sabia já as horas a que a rainha de Portugal costumava
passeiar de carruagem em Meudon, quasi sempre acompanhada pela sua
preceptora D. Leonor da Camara.
Um dia, em pleno outomno, a receita do caldeireiro ambulante excedeu o
orçamento ordinario: ganhou mais alguns _sous_ do que o costume. Correu
a comprar um ramo de margaritas, atou-o com uma pequena fita azul, e
caminhou para Meudon.
Era a hora em que a rainha passeiava no bosque, cujas folhas o outomno
começava a varejar.
José Maximo aproximou-se da caléça, estendeu o braço direito, offereceu o
ramo.
A jovem princesa teve um momento de hesitação, mas D. Leonor da Camara
disse-lhe que acceitasse o _bouquet_.
A carruagem continuou rodando, e José Maximo seguiu-a com os olhos,
pensando, não já na rainha, mas em D. Anna de Vasconcellos, que a rainha
tanto lhe fazia lembrar na côr das faces e na dignidade graciosa do porte.
Em fevereiro de 1832, D. Pedro partiu de Belle-Isle com a expedição para
os Açores.
José Maximo ficou.
—Eu associei-me a um crime—raciocinava elle—em nome da liberdade do meu
paiz; deshonrei-a e deshonrei-me. Acceito o horror da expiação, e a
consciencia não me accusa de cobardia, porque ainda não vai longe o tempo
em que senti assobiar as balas dos hollandezes n’uma terra extranha. Um
soldado deve poder combater de rosto descoberto, e eu tenho vergonha de
mim proprio. Se algum dia a saudade da patria apertar tanto comigo que
lhe não possa resistir, entrarei no meu paiz com o mesmo disfarce com que
fui obrigado a sahir de lá. Sou um anonymo; envileci o meu nome. Já não
sou ninguem.