José Maximo

Eu, que esgotei tão cedo, até as fezes,

O calis da amargura;

Eu, vagabundo e pobre, e aos pés calcado

De quanto ha vil no mundo...

Alexandre Herculano—«A tempestade».

José Maximo da Fonseca não se julgou seguro em Hespanha, onde a seita

apostolica, protegida pela Princeza da Beira, poderia perseguil-o, se

descobrisse a sua identidade.

Depois de ter passado enormes trabalhos, dos quaes o menor seria a fome,

metteu-se aos Pyreneos, caminho de França.

Singular apêgo parecia ter á vida este desgraçado homem, a quem ella

pesava como um infortunio irremediavel. Só a esperança alimenta a

existencia dos infelizes, e José Maximo havia perdido a esperança. Por

isso acho eu singularissima a energia com que fugia aos algozes um homem,

que fôra o primeiro algoz de si mesmo.

Em França, como em Hespanha, vivia famintamente do seu officio de

caldeireiro ambulante. Se ganhava dois ou trez _sous_, não ambicionava

mais, e aturdia-se interessando-se pelos acontecimentos politicos que

prefaciaram a queda de Carlos X e o advento de Luiz Filippe ao throno.

José Maximo odiava Carlos X, que fizera correr o sangue do povo, e via no

duque de Orleans o salvador da França constitucional.

A accidentada odyssea d’este principe, que tinha abraçado os principios

de 1789 e applaudido a tomada da Bastilha, o seu alistamento no exercito

republicano, o seu exilio na Suissa, a necessidade de vender os seus

cavallos e de desempenhar o logar de professor de geographia, os seus

longos errores pelo norte da Europa, a sua viagem ao Novo-Mundo, todas as

aventuras politicas d’este principe liberal, que conspirava ao lado dos

constitucionaes e de Lafayette, faziam com que José Maximo encontrasse

affinidades biographicas entre o destino do duque de Orleans e o seu.

A 29 de julho de 1830, José Maximo bandeou-se com o povo, que invadiu

o Louvre e as Tulherias, e que saudou com enthusiasmo a reapparição da

bandeira tricolor, proscripta havia quatorze annos, sobre o zimborio do

palacio real.

Viu o general Lafayette occupar o _Hotel de ville_, convertido em

quartel-general da insurreição.

Quando soube que Carlos X havia retirado as _Ordenanças_ e demittido o

gabinete, sorriu de desdem, repetindo a phrase de Schonen, que desde logo

se tornára celebre: «_Il est trop tard!_»

Parava ás esquinas das ruas de Pariz e commentava com fervorosa adhesão

os pasquins que proclamavam o duque de Orleans como _un roi-citoyen_

escolhido pelo povo e baptisado pela revolução.

Um legitimista, que o ouviu sustentar estes principios democraticos, não

lhe reconheceu a qualidade de extrangeiro, tão bem José Maximo fallava o

francez, mas foi reflexionando comsigo mesmo:

—A canalha quer a Carta, embriagada pelo poderio de fazer e desfazer

reis! O futuro esmagará a canalha.

Estas palavras bem as podia ter pensado algum absolutista portuguez em

1826.

No dia em que o duque de Orleans entrou em Pariz, como logar-tenente

general do reino, o espirito de José Maximo delirou de jubilo quando viu

representado o ideial de uma realeza democratica, meio republica e meio

monarchia, na pessoa de um principe que se apresentava aos seus subditos

como um burguez patriota: de chapeu baixo e rozêta tricolor na botoeira.

Na proclamação em que o duque de Orleans fallou aos habitantes de Pariz

havia uma phrase, que recordava a José Maximo outro ideial já para elle

consagrado pelo sêllo angustioso das suas proprias lagrimas. Era esta:

«_Une Charte será désormais une verité_». Parecia-lhe ser traducção fiel

do grito constitucional que Saldanha tinha levantado no Porto para fazer

jurar a Carta de D. Pedro.

Confundido com a multidão, José Maximo viu o duque de Orleans apparecer

a uma das janellas do Hotel-de-Ville desfraldando a bandeira tricolor.

N’esse momento a monarchia, personificada em Luiz Filippe, recebia da

republica, representada em Lafayette, o baptismo da democracia; surgia,

segundo a propria expressão de Lafayette, um throno popular, em nome da

soberania nacional, rodeado de instituições republicanas.

A onda de liberdade, que inundava a França, chegava até ao coração de

José Maximo.

A fogosa imaginação do infeliz portuguez acreditava mais do que devia na

sinceridade da politica. Elle, um exaltado, enganou-se, o que aconteceu

tambem a Lafayette, porque a monarchia de Julho não foi a melhor das

republicas.

Mas José Maximo, cabeça enthusiastica, ardente de ideiaes generosos, cria

na redempção da França pela liberdade, e na sua influencia como elemento

modificador do velho regimen politico de toda a Europa.

Assim como o ébrio entrevê, atravez dos fumos da embriaguez, as imagens

confusas da vida real, José Maximo, recebendo directamente as impressões

da «grande semana de Julho», enxergava ao longe, perdido nos nevoeiros do

passado, o vulto de D. Anna de Vasconcellos,—a sombra querida que povoava

todo o seu mundo de recordações dolorosas.

Em seguida á tragedia do Cartaxinho, José Maximo, julgando-se

irremediavelmente perdido, apenas pensára em apagar em si mesmo o labéo

de um crime monstruoso, a que involuntariamente se associara. Até a

physionomia desfigurou n’um momento de desespero. Agora, ainda que novos

acontecimentos politicos viessem absolver o criminoso, tudo estava

perdido para o homem que já não poderia voltar sobre o passado.

Dado que chegasse a realisar-se a hypothese de D. Anna de Vasconcellos

resistir á commoção do primeiro momento, elle não ouzaria apparecer-lhe

na hediondez do seu disfarce.

Por isso procurava embriagar-se com o primeiro vinho que encontrava á

mão, e a liberdade era ainda, como sempre fôra, a melhor embriaguez para

um espirito que tanto amava a liberdade.

Proclamado rei Luiz Filippe, a revolução de julho foi como uma corrente

electrica que immediatamente poz em vibração a Belgica, oppremida pela

Hollanda.

A 24 de agosto são destruidos em Bruxellas os preparativos das festas

publicas, que deviam realisar-se em honra do soberano hollandez. Era

o prologo da independencia, o cartel de desafio arremessado por um

povo oppremido contra os seus dominadores. A Belgica sublevava-se para

quebrar o jugo que a prendia á Hollanda; de novo se insurgia, sedenta

de liberdade como no tempo do dominio dos romanos, dos hespanhoes e dos

austriacos.

José Maximo foi attraido por esse sympathico movimento de toda a Belgica;

precisava continuar a embriagar-se politicamente para supportar a vida

com menos enfado.

Não vacillou, pois, um momento.

Com a sua ferramenta de caldeireiro ambulante, metteu-se ao caminho,

dirigindo-se para o norte, procurando a fronteira. Seguindo a estrada

de Lille, ladeada por campos abertos, que de nenhum modo representam

qualquer divisão natural entre os dois paizes, José Maximo, chegado á

fronteira convencional da França e da Belgica, esperou que anoitecesse

para illudir a vigilancia do posto de registo de Hertuin, onde os

passaportes costumavam ser visados. Ao transitar de paiz para paiz,

o pobre foragido precisava recorrer aos processos de que se valem os

contrabandistas e os salteadores, porque nenhum documento legal podia

apresentar para ter direito ao livre transito.

Foi encontrar em Bruxellas um espectaculo mais dramatico ainda do que

aquelle que havia presenceado em Pariz, porque em França, Carlos X tinha

abdicado logo que soube que quinze mil parisienses, commandados pelo

general Pajol, se aproximavam de Rambouillet, mas em Bruxellas, nos

ultimos dias de setembro, quinze mil hollandezes incendiavam a cidade com

balas ardentes e foguetes de Congreve.

E ao chammejar sinistro dos incendios, o povo belga defendia-se

heroicamente, como um leão.

José Maximo largou os seus utensilios de caldeireiro, e pegou n’uma

arma para sustentar a resistencia de um povo escravisado contra as

prepotencias do rei dos Paizes-Baixos.

N’um dos mais calamitosos dias da sublevação, quando Bruxellas parecia

uma fornalha atiçada pelos hollandezes, José Maximo encontrou-se

na barricada da porta de Hal com um voluntario extrangeiro, que

immediatamente reconheceu.

O tiroteio era vivissimo, a lucta desesperada, mas os hollandezes foram

rechaçados, e trataram de vingar-se atirando para dentro da cidade as

bombas incendiarias, os Congreves destruidores.

Na primeira hora de descanço após a refréga, José Maximo chegou-se ao

voluntario, e disse-lhe abruptamente em francez:

—Não esperava vir encontrar aqui outro portuguez a defender, como eu, a

independencia da Belgica!

O voluntario mediu de alto a baixo, com surpresa e desconfiança, José

Maximo, cuja physionomia lhe devia ter produsido repulsão.

—Engana-se! Eu não sou portuguez, respondeu, no mesmo idioma, o

voluntario.

—Prouvera a Deus que me enganasse, replicou José Maximo, porque então

não teriamos occasião de reconhecer-nos um ao outro como victimas de uma

grande fatalidade...

—Senhor! exclamou o voluntario, avançando para José Maximo.

—Francisco Cesario Rodrigues Moacho! bem vês que te conheço. Não receies

atraiçoar-te, porque estamos n’um paiz que ama a liberdade até o ponto

de querer conquistar a sua independencia com as armas na mão. E, quanto

a mim, fica sabendo que nada tens a temer, tambem. Somos dois emigrados,

pelo mesmo motivo...

Rodrigues Moacho ficou surprehendido com as palavras d’esse extranho

homem, que não conhecia.

José Maximo percebeu o que se passava no espirito do antigo presidente da

sociedade dos _Divodignos_.

—Não me conheces, disse elle, e tens razão. Do homem que eu fui não resta

senão a tormentosa memoria de mim proprio. Na matricula da Universidade

chamava-me José Maximo da Fonseca; mas entre a academia talvez que não

esteja ainda apagada a lenda portuense do _Fresca Ribeira_...

—Tu?!

—Eu mesmo.

—Mas essas queimaduras e cicatrizes?!

—São o disfarce de um criminoso ou, antes, a mascara do foragido, porque

Deus sabe se estou innocente.

Rodrigues Moacho ficou horrorisado com a narrativa dos soffrimentos

e trabalhos de José Maximo. Combatendo um ao lado do outro, como

voluntarios, pela independencia da Belgica, a antiga amisade dos dois

academicos de Coimbra renascia e retemperava-se na adversidade de um

destino commum.

O baterem-se pela liberdade, posto que em terra extranha, era para elles

um lenitivo que a coincidencia de se haverem encontrado tornava ainda

maior.

Mas o exercito hollandez, repellido em Bruxellas e outras cidades

do Brabante, havia-se refugiado em Antuerpia, seu ultimo reducto no

territorio belga.

Rodrigues Moacho e José Maximo tiveram, pois, que depôr as armas, ainda

antes do mez de novembro, que foi quando, intervindo a diplomacia, as

potencias tomaram conta da questão e reconheceram, na conferencia de

Londres, a independencia da Belgica.

Não permittiu Rodrigues Moacho que José Maximo continuasse a vestir a

sua blusa de caldeireiro ambulante, e a exercer esta profissão, mas José

Maximo parecia contrariado de ter que obedecer a tão dedicada exigencia.

Juntos davam longos passeios pelo campo, conversando memorias e tristesas

de sua vida commum. Mais de uma vez metteram pela linda estrada que de

Bruxellas vai ao bosque de Soigne e fizeram, sem quasi dar por isso,

um passeio de cinco leguas. Duas suggestões, por igual attractivas, os

chamavam para aquelle sitio: a belleza do bosque, pelo meio do qual

passa a estrada, e a recordação historica da batalha de Waterloo, onde o

colosso napoleonico desabára.

José Maximo, que detestava os tyrannos,—e assim classificava elle

Napoleão—ligava, comtudo, ao vencido de Waterloo uma saudosa memoria da

sua propria existencia: o _napoleão de oiro_, que frei Simão lhe havia

dado, que elle conservára nas maiores privações, e que offerecêra aos

seus dedicados hospedeiros de Hespanha.

Um velho camponez explicou aos dois portuguezes, n’um d’esses passeios,

que a batalha não terminára precisamente ali, em Waterloo, aldea onde

estivera o quartel-general inglez, mas á distancia pouco mais ou menos de

uma milha, em Haiesainte.

—Aqui ou ali, pouco importa, respondeu José Maximo, o que é certo é que

este ceu viu despenhar-se o monstro, que devorava nações e despedaçava

exercitos. Napoleão cahiu porque acima da sua ambição pessoal não havia

um ideial de justiça, um principio de philosophia social. Os principios

triumpham sempre; é questão de tempo. Os homens succedem-se, e passam.

Por muitas vezes Rodrigues Moacho notára que José Maximo parecia

constrangido com a cordeal hospedagem, que lhe dava; e até o ouvira

referir se vagamente a sahir da Belgica.

—Mas onde queres tu ir? perguntava-lhe, admirado, o ex-presidente da

sociedade dos _Divodignos_.

—Eu sei lá! Pergunta tu á folha sêca, que o vento despegou da arvore,

onde ella irá parar! Não sabe!

E encolhia melancolicamente os hombros.

Na primavera de 1831 chegou á Europa a noticia da revolução do Brazil e

da abdicação de D. Pedro.

Este acontecimento pareceu produzir uma grande impressão no espirito de

José Maximo.

Um dia, Rodrigues Moacho, ao accordar pela manhã, deu pela falta do

amigo. Não o encontrou, mas achou uma carta, que explicava a sua ausencia:

«Meu querido Moacho.

«Deste-me, durante muito tempo, uma cordealissima hospedagem,

de que eu conservarei gratidão eterna. Mas não era digno de um

homem consciencioso e válido viver indefinidamente dos favores

da amisade. Parto, sem saber para onde. Voltando á miseria em

que vivia antes de te encontrar, continuo a justa expiação dos

meus erros passados.

A guerrilha de Frei Simão: romance historico · 第 57 / 71 题