D. Maria Henriqueta mandou dizer ao pai que a fosse buscar.

José Bernardo foi; teve a filha alguns dias, poucos, em sua companhia, e

resolveu transferil-a para o convento de Santa Clara no Porto.

Do Outeiral, D. Maria Henriqueta escreveu para Cezár contando o que se

tinha passado, e dando interessantes pormenores sobre a triste existencia

de Margarida Candida no mosteiro de Arouca.

Referia que a infelicissima freira lhe tinha dito em segredo:

—Se algum dia a liberdade me puder abrir as portas d’este mosteiro,

correrei a Aveiro para ir dizer a Joaquim Maria, sobre a lage da sua

sepultura, que o amo na morte com a mesma dedicação e lealdade com que o

amei em vida.

Frei Simão leu isto, e commoveu-se.

—Pois esteja Margarida Candida certa, exclamou elle, de que ha de cumprir

a sua vontade, porque eu mesmo lhe abrirei as portas do mosteiro. Assim o

prometti a Joaquim Maria; assim o farei.

José Bernardo mandou o filho Antonio acompanhar ao Porto D. Maria

Henriqueta, que, para completar a sua educação, entrou no convento de

Santa Clara[2].

Ignacio da Fonseca replicou ao corregedor:

—O que se faz em Arouca importa-me menos do que o que se passa em Cezár,

onde vivo e tenho propriedades, e onde, portanto, a minha vida e haveres

correm grande risco, vista a impunidade de que frei Simão de Vasconcellos

está gozando com verdadeiro escandalo de todos os fieis vassalos d’el-rei

nosso senhor.

—Pois vá Vossa Mercê socegado, disse Mourão Guedes, que eu mesmo me

encarregarei da prisão do frade.

—Essa resposta agrada-me. Sr. corregedor, diziam os antigos portuguezes

que quem o seu inimigo poupa, nas mãos lhe morre. Recebo as ordens de

Vossa Senhoria.

Mourão Guedes conhecia de sobra o frade do Outeiro para não reputar facil

a tarefa de prendel-o. Acautelou-se, pois, requisitando, para ir a Cezár,

uma partida de tropa de linha. E, tomada esta precaução, sahiu um dia da

Villa da Feira com destino á casa do Outeiro.

Fez cercar o edificio, e passou-lhe busca. Frei Simão não estava, por

mero acaso, porque o frade olhava pouco á sua segurança individual.

As irmãs ficaram muito assustadas com a presença do corregedor e da

tropa. Quando frei Simão recolheu a casa, pediram-lhe, exoraram-n’o a que

tivesse mais cuidado em si. O frade ria do mallogro casual da busca, mas,

a instancias das irmãs, e para tranquillisal-as, prometteu lhes que d’ali

em deante tomaria maior cautela.

Mourão Guedes não gostou nada de ter espantado inutilmente a caça. Era

de suppôr que, depois d’aquelle mau exito, frei Simão se preparasse

para baldar uma nova tentativa de captura. Ou se entrincheiraria para

resistir, hypothese consoante á sua tradição de valor, ou se homisiaria,

o que daria em resultado o comico mallogro de uma segunda tentativa.

Reflectindo, achou que era melhor renovar a diligencia, mas abster-se

elle proprio de tomar parte n’ella.

Chamou, portanto, ao seu gabinete o major do regimento de milicias da

Villa, João Francisco Pinheiro, e encarregou-o de ir a Cezár, com um

batalhão do seu regimento, capturar o frade.

—Se frei Simão não apparecer, disse Mourão Guedes ao major, é preciso

cobrir a infelicidade da sortida apprehendendo os papeis politicos e

causando a maior somma de prejuisos, que fôr possivel.

O major entendeu, e marchou com o batalhão para Cezár.

A unica prevenção de frei Simão de Vasconcellos limitava-se a pernoitar

na habitação do caseiro, proxima ao solar.

O batalhão, que tinha sahido da Villa da Feira durante a noite, cercou ao

romper da manhã a casa do Outeiro.

Frei Simão viu a tropa, pegou na escopeta, e preparou-se para sahir.

—Que faz Vossa Reverencia? perguntou-lhe, muito afflicto, o caseiro.

—Pensas então que me hei de deixar apanhar como um coelho na tóca?

replicou o frade aperrando a arma.

—Mas podem matal-o, senhor!

—Tudo leva as mesmas voltas. Elles, depois de terem dado busca a toda a

casa, procurar-me-hão em todas as dependencias da quinta, e achar-me-hão

aqui. Isto não falha. Ora da prisão á forca não dista mais d’um passo.

Sei o tempo em que vivo, e a gente com que estou. Vou fugir, para

salvar a vida. Se me matarem, tanto monta que seja hoje como ámanhã.

Elles juraram-me pela pelle. Encommendo a minha alma a Deus, que espero

perdoará os meus peccados.

E abriu a porta. Dados alguns passos, encontrou dois milicianos, dos que

constituiam o cordão do cêrco, e que se abrigavam, escondidos, detraz de

um pequeno muro.

—Quem se mexer, morre! gritou frei Simão, mettendo a arma á cara.

Os dois milicianos ficaram tomados de assombro deante do frade, cujo

valor conheciam. Frei Simão passou por entre elles, empurrando-os com

violencia; e, saltando rapidamente o muro, desappareceu.

Quando os milicianos se recobraram do assombro d’aquella resistencia

heroica, já se não via o frade. Ouviram-se ainda alguns tiros, disparados

pelos soldados, mas foram perdidos.

O major Pinheiro ficou desesperado com a fuga de frei Simão, que o

batalhão perseguiu, mas não encontrou.

Tratou, ao menos, de cumprir a segunda parte do programma.

Todos os objectos de valor, incluindo as alfaias da capella, e o proprio

calix de que frei Simão se servia quando dizia missa, foram carregados

n’um carro, e conduzidos para S. João da Madeira.

N’um armario encontraram os soldados alguns pergaminhos de familia e

titulos antigos, a que o major não reconheceu interesse politico. Por

isso, limitou-se a mandal-os queimar n’uma grande fogueira, que se

accendeu no pateo da casa.

Os absolutistas de Cezár enraiveceram-se com o desastre d’esta segunda

expedição. Ignacio da Fonseca foi ao Porto pedir ás justiças que

promovessem uma terceira diligencia, que, por mais apertada, pozesse

termo ás zombarias de frei Simão.

D’ali a dias, o corregedor Mourão Guedes recebia na Villa da Feira ordem

para colhêr ás mãos o frade de Cezár, _vivo ou morto_. Era quasi uma

censura á inefficacia da sua perseguição.

Estava-se em maio de 1829, no auge das represalias sangrentas. Um forte

destacamento de policia do Porto foi mandado expressamente á Villa da

Feira para proceder á captura de frei Simão de accordo com uma companhia

de milicianos.

O frade, sempre destemido, estava em casa no momento em que a policia e

os milicianos a rodeáram.

Vendo-os, saltou por uma janella para fugir. Uma cadellinha, muito sua

predilecta, saltou após o dono. O frade, que vestia uma jaqueta de cotim

azul e branco e levava uma arma na mão, deitou a correr. Os soldados

fizeram sobre elle varios tiros, mas nenhum o tinha ainda alcançado. Na

Serenada, uma das balas matou a cadella. Então frei Simão, indignado,

voltou-se para traz, apontou a espingarda, e desfechou. Redobraram

os tiros dos perseguidores, mas o frade, fugindo sempre, chegou a

Villarinho. Ahi um dos tiros alcançou-o pelas costas. Frei Simão tentou

proseguir na carreira, mas as forças faltaram-lhe. Estava ferido.

Encostou-se a uma arvore para não cahir: o sangue repuxava a jorros da

ferida, escorrendo pela jaqueta.

Foi-lhe dada voz de prisão.

O commandante do destacamento, que era um official de milicianos, mandou

procurar um carro para conduzir o preso á Villa da Feira.

N’este momento appareceram, correndo em grande afflição, D. Maria Albina

e o criado Francisco Marques.

Foi o Marques quem alvitrou ao commandante que, transportado em braços o

ferido até á casa do Outeiro, poderia um carro da casa ir leval-o á Villa

da Feira.

Assim se resolveu. Pelo caminho, frei Simão ia perdendo muito sangue.

Quando o ferido chegou ao Outeiro, onde as outras irmãs o receberam

chorando angustiosamente, e emquanto se apparelhava o carro, frei Simão

pediu um confessor. Julgava-se em artigos de morte.

—Deixemo-nos de historias! respondeu desabridamente o commandante.

O frade replicou com extranha energia:

—Se me não derem um padre, confessar-me-hei a uma pedra.

O official encolheu os hombros, e disse:

—Isso de pressa, que não ha tempo a perder.

Sahiram um criado e dois milicianos á procura do primeiro padre, que

apparecesse.

Nem o abbade nem o padre Antonio Pinheiro estavam em casa. Apenas

appareceu o padre José Pedro, da Herdade, que era um dos adversarios

politicos de frei Simão.

Os milicianos, apenas o viram, intimaram-n’o a acompanhal-os.

Frei Simão, quando o viu entrar, tornou a dizer:

—Se me não dessem um padre, confessar-me-hia a uma pedra.

Queria decerto significar, com a repetição da phrase, que não via no

adventicio o adversario, mas unicamente o sacerdote.

A confissão foi interrompida, porque, sendo muito abundante a

hemorrhagia, frei Simão teve uma demorada syncope.

—Sr. official, disse D. Maria Albina ao commandante, meu irmão, n’este

estado, vai morrer pelo caminho.

—Mas eu tenho instrucções para o levar vivo ou morto.

—Morto de pouco pode servir á justiça, que o mandou prender, respondeu D.

Maria Albina.

—Tambem é verdade... disse o official. Vou mandar uma ordenança á Villa a

pedir instrucções.

Foi a ordenança e, passadas algumas horas, voltou com um officio em que o

corregedor Mourão Guedes dizia ao commandante que guardasse bem o preso

até ao dia seguinte, porque o doutor Pedro José Corrêa Ribeiro iria logo

pela manhã a Cezár para informar do estado de frei Simão.

Durante a noite, o frade, recostado n’uma cadeira, por não poder

conservar-se deitado no leito, agitava-se em dolorosas convulsões, e

tinha vomitos de sangue.

A ferida, que, junto á columna vertebral, atravessava a região superior

do thorax, sangrava copiosamente. A clavicula esquerda estava quebrada, e

o braço paralysado.

Frei Simão disse a D. Maria Albina:

—Não me satisfez a confissão, que fiz ao padre José Pedro. Peço á mana

que mande chamar o abbade ou o padre Antonio Pinheiro. E diga-lhes que

tragam os sacramentos, que me quero preparar para morrer.

O abbade Moreira Maia tinha ido n’esse dia pela manhã para Oliveira de

Azemeis. Foi o padre Antonio Pinheiro que levou o viatico a frei Simão.

Padre Antonio entrou muito pallido. Ordenou aos soldados que se

affastassem, emquanto ouvia de confissão o ferido. Ajoelhou-se, muito

trémulo, junto á cadeira de frei Simão, e inclinou o ouvido á bôca do

frade.

A confissão não durou mais de vinte minutos.

Em seguida, padre Antonio ministrou a communhão ao ferido.

Frei Simão disse-lhe com voz sumida pelo cansaço:

—Muito obrigado, sr. padre Antonio.

Na physionomia de padre Antonio Pinheiro lia-se, n’esse momento, um mixto

de consoladora surpresa e de compaixão dolorida, que lhe dulcificava a

pallidez da commoção.

As irmãs do frade velaram toda a noite junto á cadeira do ferido, que já

consideravam moribundo. Frei Simão arquejava, com os olhos fechados. O

sangue manchava as compressas, logo que eram postas com mais dedicação do

que sciencia pelas pobres senhoras.

Alta noite, o frade poude reconhecer a voz de Anninhas como sendo de uma

das pessoas que velavam a seu lado.

Moveu, com difficuldade, o braço direito, unico que lhe restava illeso, e

tocou com os dedos, muito ao de leve, a cabeça da irmã.

—Minha pobre Anninhas! disse elle anciadamente. Minha pobre Anninhas!

E cahiu por algum tempo em maior e mais atormentada prostração.

Padre Antonio Pinheiro, entrando na abbadia de Cezár, ia tão pensativo,

que Gertrudes Magna não ouzou perguntar-lhe logo se o frade do Outeiro já

tinha morrido.

O padre recolheu-se ao seu quarto, e fechou-se por dentro.

A tia foi algumas vezes espreital-o pela fechadura da porta: ouvia-o

rezar, se era que não estava fallando só.

Á hora da ceia, Gertrudes Magna atreveu-se a chamar o sobrinho.

—Não queres hoje cear, Antonio? perguntou ella.

O padre abriu a porta, procurou ageitar um sorriso, que nasceu triste, e

respondeu:

—Não, minha tia; quero apenas um copo d’agua.

A velha deu alguns passos no corredor, mas voltou atraz e perguntou:

—O que me dizes tu de frei Simão? Corre por ahi que já morreu...

—Não tinha morrido quando eu de lá vim, mas está para isso.

—Acaba o seu tormento. Deus o vae julgar.

—A justiça de Deus, replicou o padre, é menos cega que a dos homens. Não

fallemos de frei Simão, não falle d’elle, minha tia, sobretudo para

fazer côro com a demencia das paixões politicas.

Padre Antonio estava visivelmente impressionado pela confissão do frade.

Mas não nos é dado saber ao certo os motivos da sua commoção: só elle os

conhecia, e não os podia revelar.

Logo pela manhã chegou a Cezár o doutor Corrêa Ribeiro, que a muito custo

poude suspender a hemorrhagia.

Declarou elle por escripto que frei Simão não se encontraria em estado de

ser transferido para a Villa da Feira antes de trez dias, pelo menos. A

sua vida corria imminente perigo.

A pedido das irmãs do ferido, o doutor Corrêa Ribeiro ficou em Cezár.

E ao cabo de alguns dias, mais de trez, elle proprio e D. Maria Albina

acompanharam o carro de bois em que o frade foi condusido á cadea da

Villa.

A guerrilha de Frei Simão: romance historico · 第 44 / 71 题