Raiou a epocha dos caceteiros, dos delatores, das alçadas
sanguinarias, das forcas, dos degredos, aos gritos do «rei
chegou».
Silva Gayo—«Mario».
Ignacio da Fonseca foi á Villa da Feira dizer ao corregedor da comarca,
Francisco Monteiro Mourão Guedes de Carvalho, que se o senhor D. Miguel
era, desde o ultimo dia de junho, rei de Portugal, por vontade de clero,
nobreza e povo, como se provára pelo voto unanime das côrtes geraes dos
trez estados do reino, justo parecia que os mais encarniçados adversarios
da politica triumphante não campeassem em plena liberdade vexando os
vassalos fieis e dedicados.
—Por que me diz Vossa Mercê isso? perguntou Mourão Guedes.
—Porque frei Simão de Vasconcellos passeia livremente por Cezár, de arma
ao hombro, pondo em risco a tranquillidade dos seus visinhos.
—Ainda não é tarde, replicou o corregedor, para justarmos contas com
os nossos adversarios, que não são poucos. Não se vae a Roma n’um dia,
mas, caminhando sempre, lá se chega. Vossa Mercê sabe que a familia
Vasconcellos já começou a experimentar a acção da justiça.
—Se Vossa Senhoria se refere ao supposto sequestro feito na quinta do
Outeiral, em Arouca, dir-lhe-hei que decerto José Bernardo se ficou a
rir, por isso que lhe foi attendida a reclamação relativa a alimentos.
—Mas a propriedade ficou sequestrada, e alvoroçado, pelo facto do
sequestro, o espirito publico d’aquella villa contra a familia de José
Bernardo, que ali suppunham superior ao alcance de qualquer represalia.
Tanto assim foi que José Bernardo já retirou do mosteiro de Arouca uma
filha, que lá estava a educar, reconhecendo d’esse modo que lhe era
hostil o animo das pessoas gradas da villa, incluindo as freiras.
Effectivamente, tinha sido assim.
Depois do sequestro, as freiras de Arouca, vendo a familia de José
Bernardo razoirada ao nivel commum de todas as outras familias
perseguidas por liberaes, perderam o respeito á filha do fidalgo do
Outeiral a quem não poupavam allusões pungentes e irritantes.