O methodo de Gaston de Boissier é, com algumas modificações secundarias,
o methodo de Taine.
Para penetrar uma sociedade, o erudito escriptor estudou a sua
litteratura. Para comprehender bem a litteratura de um dado periodo elle
procura conhecer e investigar cuidadosamente a vida dos seus
escriptores. Cada typo representativo--_representative man_, dizem os
inglezes--dá-lhe o segredo das idéas, dos sentimentos que predominavam
em uma determinada época.
Assim para dar a conhecer aos seus leitores a alta sociedade romana do
quarto seculo, Gaston Boissier vae lêr e faz-nos lêr a nós as cartas de
Aurelio Symmachus--personagem de que muitos dos seus leitores e dos
leitores benevolos d'este estudo, encurralados na extrema especialisação
da educação moderna, nunca de certo ouviram falar.
Todos sabem, que as cartas de Plinio, o moço, e as cartas de Cicero
lançam uma grande luz sobre a sociedade da sua época, e concorreram como
documentos admiraveis para que a moderna critica, tão erudita e tão
comprehensiva, reconstituisse através d'ellas a alma da Antiguidade.
Pois Gaston Boissier pede ás cartas muito menos caracteristicas de
Symmachus o mesmo impagavel serviço.
N'aquelle tempo, tão proximo da hora em que Alarico viria bater ás
portas de Roma, ninguem percebe a imminencia do perigo que ameaçava a
sociedade antiga.
Symmachus occupa-se muito pouco dos negocios publicos; acha-os, ou
«nullos ou de pequena importancia.»
Quem lê as correspondencias, aliás adoraveis dos grandes amadores da
_epistolographia_ no seculo XVIII, tambem não percebe n'ellas o minimo
rebate dos perigos que ameaçam o regimen que ia esboroar-se em sangue e
em violencias tremendas. Nem o proprio Voltaire, tão agudo de
intelligencia, tão perspicaz, tão penetrante, e que tão activamente
collaborára na propaganda a que se deveu a Revolução, percebe levemente
a responsabilidade que assumia, e as tempestades que elle creára com a
sua palavra de fogo.
Nas vesperas das grandes crises que iam transfigurar o mundo, occupam-se
todos de galantarias, de ditos graciosos, de versinhos bem feitos, de
anecdotas de velado escandalo, de intrigas de amor ou de ambição.
Quem presente sequer que Danton vai trovejar e que Robespierre vai
sorrir sinistramente e que d'esse trovão e d'esse sorriso vai surgir um
mundo novo?
Tambem hoje, um seculo depois da Revolução, quando, feitas todas as
conquistas politicas, a alma inquieta, e nunca satisfeita, do homem
reclama imperiosamente a solução prompta, radical do terrivel problema
da miseria--quem é que percebe nos salões de Paris, de Londres, de
Nova-York e de Berlim que a terrivel liquidação está a chegar, e que uma
era tenebrosa de anarchia e de lagrimas, de ruinas e sangue espera
porventura os que teimarem em viver muito?
É da lei das sociedades não perceberem nunca claramente as
transformações que se estão elaborando no proprio seio d'ellas.
* * * * *
Como quer que seja, a verdade é que o grande senhor romano, cujas cartas
nos interessam n'este momento, se não preoccupa absolutamente nada com
os negocios do Imperio. Comquanto no seu tempo o Senado seja ainda um
corpo importante, elle perdeu comtudo o seu antigo esplendor.
Os Senadores deixaram de ser grandes e poderosos magistrados, mas
conservam-se uma classe activa, eminentemente aristocratica, impondo, ja
se vê, a moda e dominando os costumes.
É justamente a transformação que se opera na aristocracia europêa, entre
o fim do seculo XVII e o principio do seculo XVIII. Occupam grandes
cargos honorarios na côrte imperial, como os fidalgos francezes de que
nos fala Saint-Simon--e dominam--o que tambem frequentemente lhes
succedia a elles--na administração interna das provincias romanas.
Um dos encargos e das honras, que estes ultimos teem e conservam
zelosamente, consiste no caro privilegio de dar jogos publicos ao povo.
O _pão_ e _espectaculos_, de que fala Juvenal, continuam a ser até á
final dissolução do Imperio, as unicas necessidades da plebe romana.
Muitas cartas de Symmachus, que era conservador das tradições antigas,
tratam exclusivamente de encommendas de feras e de animaes, feitas aos
amigos que elle tinha em todo o mundo.
Na occasião de investir da pretura o seu filho primogenito gastou elle
uma somma equivalente a dois milhões de francos.
Para todos os lados manda emissarios encarregados de lhe trazerem
artistas de merito, bichos raros, ornamentos estranhos, sumptuosos e
imprevistos, com que elle possa deslumbrar os olhos da plebe e manter a
sua popularidade.
N'este ponto não podemos accrescentar que o mundo moderno tenha
similhanças com a sociedade antiga. Entre as nossas eleições
constitucionaes e estas festas populares com que se comprava o affecto
do povo, a differença não é realmente tão pequena como isso.
Os modestos banquetes, com que entre nós o eleito obsequeia os seus
eleitores não se parecem lá muito com esses prodigiosos espectaculos em
que sómente para lhe agradarem a elle, ao povo-rei, senadores como
Symmachus mandavam vir ursos do norte, leões da Africa, cães da Escocia,
crocodilos do Nilo,--d'esse _verde_ Nilo, de que Cleopatra fôra a
serpente lasciva,--cavallos de Hespanha, comicos da Grecia, gladiadores
saxões, mimicos, cocheiros, de Byzancio, o inferno!... Todo o mundo,
então conhecido, contribuia para o prazer cruel d'esse povo insolente!
Eis um traço de costumes que demonstra, mais que mil dissertações a
distancia moral que nos separa dos homens d'esse tempo, ainda mesmo dos
melhores:
Symmachus, para essa festa monumental, mandára vir como gladiadores os
prisioneiros saxonios, raça valente, sobre a qual contava para o pleno
successo do espectaculo. Pois na vespera vinte e nove d'esses homens de
bravo coração, não querendo servir para os prazeres do povo romano,
estrangularam-se uns aos outros, no carcere em que os guardavam.
Symmachus, que era um bom homem, um homem culto, que conhecia a
philosophia e a litteratura antiga, que sabia, emfim, tudo que sabia o
seu tempo, longe de perceber a selvagem grandeza d'este acto heroico,
enfureceu-se contra os desgraçados, e exclamou de muito boa fé: «Não
quero que me falem mais d'esses miseraveis, que são ainda mais perversos
que _Spartacus_.»
E esta exclamação de ingenua crueldade, vale mais que uma longa analyse
do caracter e da sensibilidade antigos.
* * * * *
O modo externo de viver em Roma differe pouco do já conhecido pelas
Cartas de Plinio. As regras de civilidade social têem-se, porém,
complicado ainda mais. O tempo nas altas classes passa-se a fazer e a
receber visitas, a assistir a cerimonias mundanas, taes como casamentos,
investidura da tunica viril, conselhos de familia, etc., etc.
A paixão das lettras é universal na sociedade elegante--tal como no
nosso seculo XVIII. Os grandes e graves personagens do tempo passam a
vida a trocar entre si versinhos mais ou menos chôchos e a
cumprimentarem-se com effusão pelos seus talentos litterarios.
Roma acolhe os litteratos estrangeiros sob o reinado de Theodosio, como
o fazia no tempo de Trajano. Os mais illustres escrevem e applaudem quem
escreve, e, como no tempo dos Medicis em Florença--os quaes, já se
entende, tratavam de imitar a antiguidade--ha banquetes em que se leva a
noite a discutir doutamente theorias scientificas e litterarias.
A classe alta possue grandes riquezas. O nosso Symmachus, um dos menos
ricos, tem tres casas em Roma e quinze _villas_ nas mais bellas regiões
da Italia. Não se excede em luxo, em graça voluptuosa, em douta cultura,
em elegancia magnifica, a vida d'essa classe privilegiada, cujos avós
tinham conquistado o mundo e que tratava agora de lhe gosar em paz as
infinitas delicias.
* * * * *
Não se imagine, porém, que só a sociedade pagã estava contaminada d'este
egoismo, d'esta preguiça epicurista, d'esta artistica e sumptuosa
indolencia. S. Jeronymo, que tambem, antes de convertido, tinha
saboreado o gosto d'esta vida ostentosa e anesthesiante, que tambem
conversára com as mulheres de espirito, lêra avidamente os deliciosos
poetas pagãos, bebêra emfim até á embriaguez essas «delicias de Roma»
contra as quaes se revoltava depois, é o proprio que nos conta o modo
porque os ociosos e os ricos de _ambos os cultos_ passavam a existencia.
«Em que se passa o tempo na grande cidade? pergunta elle, em uma das
suas cartas. Em ver e ser visto, em receber visitas e fazêl-as. Em
louvar os presentes, e dizer mal dos ausentes. Começa a conversação e
não ha meios de acabar.
«Contam-se historias escandalosas. Morde-se e é-se mordido. Dilacera-se
quem não está, e adula-se quem ouve.»
Não parece a descripção de uma sala do nosso tempo?
Querem vêr agora o retrato de um abbade da Regencia?
«Levanta-se muito cedo e regula desde logo a ordem das suas visitas.
Procura o caminho mais curto, e vai surprehender, ao sahir do leito as
damas que pretende visitar. Repara, porventura, em uma almofada, em uma
toalha elegante, em algum objecto d'esta ordem. Apalpa-o, admira-o,
lamenta-se de não possuir nada egual, e tanto faz, que acaba por
conseguir que lhe façam presente d'elle.
«Onde quer que a gente vá, é a primeira pessoa que encontra; sabe todas
as noticias; corre a divulgal-as antes de ninguem; inventa-as quando lhe
faltam verdadeiras, e, em todo o caso, aformosêa-as com incidentes novos
em cada vez que as conta.»
Pois este abbadesinho galante, este joven padre parasita e lisongeiro,
não é tal da Regencia como eu lhes disse. É de Roma no tempo de S.
Jeronymo e é elle quem o descreve, com este ironico vigor, com esta
agudeza espirituosa em uma das suas _Epistolas_!
* * * * *
A differença exterior entre esta civilisação e a nossa é bem grande; os
caracteres divergem extraordinariamente em resultado da distancia que
vai da moral antiga á moral moderna; o elemento da _caridade_, essa base
fundamental do christianismo, ainda apezar de enunciado e de prégado
pelos seus apostolos não penetrára profundamente nas almas, que a
religião antiga affeiçoára e modelára--mas apesar de tudo isso, quantos
quadros d'esse tempo que parecem copiados do tempo actual; quantas
figuras d'essa época que vemos reproduzidas na nossa; quantas paixões
então dominantes, que a moral da egreja, que o sentimento religioso mais
desenvolvido e mais educado, que a philosophia moderna mais piedosa e
mais humana, não conseguiram ainda amordaçar.
Como essa sociedade que tripudiava no luxo colossal e na ostentosa e
deslumbrante magnificencia--esquecida ou despreoccupada dos perigos que
a ameaçavam,--assim a nossa sociedade de hoje, tendo attingido um gráu
de civilisação e de riqueza material differente, mas não inferior ás de
Roma, se estonteia no gozo egoista de todos os prazeres, e no estadear
cynico de todos os vicios, sem presentir que uma seita, tão tenaz como a
christã, e menos pacifica e menos espiritualista do que ella, tão capaz
de abnegações heroicas e de sacrificios sublimes, e não tendo como ella
o seu fim exclusivo no Reino dos Céos, no Reino que não é d'este mundo,
avança subterraneamente, recrutando-se nas minas onde não ha luz, nas
fabricas onde não ha Deus, nas officinas onde o trabalho é uma
ignominia, nas trapeiras miseraveis onde as creanças agonisam com fome
entre as blasphemias desesperadas dos pais, nas enxovias immundas onde o
ar falta e onde a desesperança brama sinistramente--e se prepara
energica e sombria para o definitivo assalto que ha de render a velha
sociedade apodrecida!
O que queriam--não esses christãos degenerados e contagiados pelo
paganismo de que fala com amargo despreso S. Jeronymo--mas os grandes
christãos que sacrificavam e oravam nas catacumbas, que morriam nos
amphiteatros e que escreviam com o sangue do coração os seus rudes
hymnos de adoração e de fé?
Queriam o desmoronamento total d'esse imperio que era a somma do todas
as iniquidades pagãs, que era a escravidão do miseravel e a apotheose do
mau rico!
O que quer hoje o socialismo triumphante?
A morte d'esta sociedade, cujo esplendor maravilhoso se faz com o
sangue, e as lagrimas do miseravel, do, como nunca, miseravel
proletario!
Não é verdade que esta similhança basta para dar ao livro um intenso e
profundo interesse?