III

O methodo de Gaston de Boissier é, com algumas modificações secundarias,

o methodo de Taine.

Para penetrar uma sociedade, o erudito escriptor estudou a sua

litteratura. Para comprehender bem a litteratura de um dado periodo elle

procura conhecer e investigar cuidadosamente a vida dos seus

escriptores. Cada typo representativo--_representative man_, dizem os

inglezes--dá-lhe o segredo das idéas, dos sentimentos que predominavam

em uma determinada época.

Assim para dar a conhecer aos seus leitores a alta sociedade romana do

quarto seculo, Gaston Boissier vae lêr e faz-nos lêr a nós as cartas de

Aurelio Symmachus--personagem de que muitos dos seus leitores e dos

leitores benevolos d'este estudo, encurralados na extrema especialisação

da educação moderna, nunca de certo ouviram falar.

Todos sabem, que as cartas de Plinio, o moço, e as cartas de Cicero

lançam uma grande luz sobre a sociedade da sua época, e concorreram como

documentos admiraveis para que a moderna critica, tão erudita e tão

comprehensiva, reconstituisse através d'ellas a alma da Antiguidade.

Pois Gaston Boissier pede ás cartas muito menos caracteristicas de

Symmachus o mesmo impagavel serviço.

N'aquelle tempo, tão proximo da hora em que Alarico viria bater ás

portas de Roma, ninguem percebe a imminencia do perigo que ameaçava a

sociedade antiga.

Symmachus occupa-se muito pouco dos negocios publicos; acha-os, ou

«nullos ou de pequena importancia.»

Quem lê as correspondencias, aliás adoraveis dos grandes amadores da

_epistolographia_ no seculo XVIII, tambem não percebe n'ellas o minimo

rebate dos perigos que ameaçam o regimen que ia esboroar-se em sangue e

em violencias tremendas. Nem o proprio Voltaire, tão agudo de

intelligencia, tão perspicaz, tão penetrante, e que tão activamente

collaborára na propaganda a que se deveu a Revolução, percebe levemente

a responsabilidade que assumia, e as tempestades que elle creára com a

sua palavra de fogo.

Nas vesperas das grandes crises que iam transfigurar o mundo, occupam-se

todos de galantarias, de ditos graciosos, de versinhos bem feitos, de

anecdotas de velado escandalo, de intrigas de amor ou de ambição.

Quem presente sequer que Danton vai trovejar e que Robespierre vai

sorrir sinistramente e que d'esse trovão e d'esse sorriso vai surgir um

mundo novo?

Tambem hoje, um seculo depois da Revolução, quando, feitas todas as

conquistas politicas, a alma inquieta, e nunca satisfeita, do homem

reclama imperiosamente a solução prompta, radical do terrivel problema

da miseria--quem é que percebe nos salões de Paris, de Londres, de

Nova-York e de Berlim que a terrivel liquidação está a chegar, e que uma

era tenebrosa de anarchia e de lagrimas, de ruinas e sangue espera

porventura os que teimarem em viver muito?

É da lei das sociedades não perceberem nunca claramente as

transformações que se estão elaborando no proprio seio d'ellas.

* * * * *

Como quer que seja, a verdade é que o grande senhor romano, cujas cartas

nos interessam n'este momento, se não preoccupa absolutamente nada com

os negocios do Imperio. Comquanto no seu tempo o Senado seja ainda um

corpo importante, elle perdeu comtudo o seu antigo esplendor.

Os Senadores deixaram de ser grandes e poderosos magistrados, mas

conservam-se uma classe activa, eminentemente aristocratica, impondo, ja

se vê, a moda e dominando os costumes.

É justamente a transformação que se opera na aristocracia europêa, entre

o fim do seculo XVII e o principio do seculo XVIII. Occupam grandes

cargos honorarios na côrte imperial, como os fidalgos francezes de que

nos fala Saint-Simon--e dominam--o que tambem frequentemente lhes

succedia a elles--na administração interna das provincias romanas.

Um dos encargos e das honras, que estes ultimos teem e conservam

zelosamente, consiste no caro privilegio de dar jogos publicos ao povo.

O _pão_ e _espectaculos_, de que fala Juvenal, continuam a ser até á

final dissolução do Imperio, as unicas necessidades da plebe romana.

Muitas cartas de Symmachus, que era conservador das tradições antigas,

tratam exclusivamente de encommendas de feras e de animaes, feitas aos

amigos que elle tinha em todo o mundo.

Na occasião de investir da pretura o seu filho primogenito gastou elle

uma somma equivalente a dois milhões de francos.

Para todos os lados manda emissarios encarregados de lhe trazerem

artistas de merito, bichos raros, ornamentos estranhos, sumptuosos e

imprevistos, com que elle possa deslumbrar os olhos da plebe e manter a

sua popularidade.

N'este ponto não podemos accrescentar que o mundo moderno tenha

similhanças com a sociedade antiga. Entre as nossas eleições

constitucionaes e estas festas populares com que se comprava o affecto

do povo, a differença não é realmente tão pequena como isso.

Os modestos banquetes, com que entre nós o eleito obsequeia os seus

eleitores não se parecem lá muito com esses prodigiosos espectaculos em

que sómente para lhe agradarem a elle, ao povo-rei, senadores como

Symmachus mandavam vir ursos do norte, leões da Africa, cães da Escocia,

crocodilos do Nilo,--d'esse _verde_ Nilo, de que Cleopatra fôra a

serpente lasciva,--cavallos de Hespanha, comicos da Grecia, gladiadores

saxões, mimicos, cocheiros, de Byzancio, o inferno!... Todo o mundo,

então conhecido, contribuia para o prazer cruel d'esse povo insolente!

Eis um traço de costumes que demonstra, mais que mil dissertações a

distancia moral que nos separa dos homens d'esse tempo, ainda mesmo dos

melhores:

Symmachus, para essa festa monumental, mandára vir como gladiadores os

prisioneiros saxonios, raça valente, sobre a qual contava para o pleno

successo do espectaculo. Pois na vespera vinte e nove d'esses homens de

bravo coração, não querendo servir para os prazeres do povo romano,

estrangularam-se uns aos outros, no carcere em que os guardavam.

Symmachus, que era um bom homem, um homem culto, que conhecia a

philosophia e a litteratura antiga, que sabia, emfim, tudo que sabia o

seu tempo, longe de perceber a selvagem grandeza d'este acto heroico,

enfureceu-se contra os desgraçados, e exclamou de muito boa fé: «Não

quero que me falem mais d'esses miseraveis, que são ainda mais perversos

que _Spartacus_.»

E esta exclamação de ingenua crueldade, vale mais que uma longa analyse

do caracter e da sensibilidade antigos.

* * * * *

O modo externo de viver em Roma differe pouco do já conhecido pelas

Cartas de Plinio. As regras de civilidade social têem-se, porém,

complicado ainda mais. O tempo nas altas classes passa-se a fazer e a

receber visitas, a assistir a cerimonias mundanas, taes como casamentos,

investidura da tunica viril, conselhos de familia, etc., etc.

A paixão das lettras é universal na sociedade elegante--tal como no

nosso seculo XVIII. Os grandes e graves personagens do tempo passam a

vida a trocar entre si versinhos mais ou menos chôchos e a

cumprimentarem-se com effusão pelos seus talentos litterarios.

Roma acolhe os litteratos estrangeiros sob o reinado de Theodosio, como

o fazia no tempo de Trajano. Os mais illustres escrevem e applaudem quem

escreve, e, como no tempo dos Medicis em Florença--os quaes, já se

entende, tratavam de imitar a antiguidade--ha banquetes em que se leva a

noite a discutir doutamente theorias scientificas e litterarias.

A classe alta possue grandes riquezas. O nosso Symmachus, um dos menos

ricos, tem tres casas em Roma e quinze _villas_ nas mais bellas regiões

da Italia. Não se excede em luxo, em graça voluptuosa, em douta cultura,

em elegancia magnifica, a vida d'essa classe privilegiada, cujos avós

tinham conquistado o mundo e que tratava agora de lhe gosar em paz as

infinitas delicias.

* * * * *

Não se imagine, porém, que só a sociedade pagã estava contaminada d'este

egoismo, d'esta preguiça epicurista, d'esta artistica e sumptuosa

indolencia. S. Jeronymo, que tambem, antes de convertido, tinha

saboreado o gosto d'esta vida ostentosa e anesthesiante, que tambem

conversára com as mulheres de espirito, lêra avidamente os deliciosos

poetas pagãos, bebêra emfim até á embriaguez essas «delicias de Roma»

contra as quaes se revoltava depois, é o proprio que nos conta o modo

porque os ociosos e os ricos de _ambos os cultos_ passavam a existencia.

«Em que se passa o tempo na grande cidade? pergunta elle, em uma das

suas cartas. Em ver e ser visto, em receber visitas e fazêl-as. Em

louvar os presentes, e dizer mal dos ausentes. Começa a conversação e

não ha meios de acabar.

«Contam-se historias escandalosas. Morde-se e é-se mordido. Dilacera-se

quem não está, e adula-se quem ouve.»

Não parece a descripção de uma sala do nosso tempo?

Querem vêr agora o retrato de um abbade da Regencia?

«Levanta-se muito cedo e regula desde logo a ordem das suas visitas.

Procura o caminho mais curto, e vai surprehender, ao sahir do leito as

damas que pretende visitar. Repara, porventura, em uma almofada, em uma

toalha elegante, em algum objecto d'esta ordem. Apalpa-o, admira-o,

lamenta-se de não possuir nada egual, e tanto faz, que acaba por

conseguir que lhe façam presente d'elle.

«Onde quer que a gente vá, é a primeira pessoa que encontra; sabe todas

as noticias; corre a divulgal-as antes de ninguem; inventa-as quando lhe

faltam verdadeiras, e, em todo o caso, aformosêa-as com incidentes novos

em cada vez que as conta.»

Pois este abbadesinho galante, este joven padre parasita e lisongeiro,

não é tal da Regencia como eu lhes disse. É de Roma no tempo de S.

Jeronymo e é elle quem o descreve, com este ironico vigor, com esta

agudeza espirituosa em uma das suas _Epistolas_!

* * * * *

A differença exterior entre esta civilisação e a nossa é bem grande; os

caracteres divergem extraordinariamente em resultado da distancia que

vai da moral antiga á moral moderna; o elemento da _caridade_, essa base

fundamental do christianismo, ainda apezar de enunciado e de prégado

pelos seus apostolos não penetrára profundamente nas almas, que a

religião antiga affeiçoára e modelára--mas apesar de tudo isso, quantos

quadros d'esse tempo que parecem copiados do tempo actual; quantas

figuras d'essa época que vemos reproduzidas na nossa; quantas paixões

então dominantes, que a moral da egreja, que o sentimento religioso mais

desenvolvido e mais educado, que a philosophia moderna mais piedosa e

mais humana, não conseguiram ainda amordaçar.

Como essa sociedade que tripudiava no luxo colossal e na ostentosa e

deslumbrante magnificencia--esquecida ou despreoccupada dos perigos que

a ameaçavam,--assim a nossa sociedade de hoje, tendo attingido um gráu

de civilisação e de riqueza material differente, mas não inferior ás de

Roma, se estonteia no gozo egoista de todos os prazeres, e no estadear

cynico de todos os vicios, sem presentir que uma seita, tão tenaz como a

christã, e menos pacifica e menos espiritualista do que ella, tão capaz

de abnegações heroicas e de sacrificios sublimes, e não tendo como ella

o seu fim exclusivo no Reino dos Céos, no Reino que não é d'este mundo,

avança subterraneamente, recrutando-se nas minas onde não ha luz, nas

fabricas onde não ha Deus, nas officinas onde o trabalho é uma

ignominia, nas trapeiras miseraveis onde as creanças agonisam com fome

entre as blasphemias desesperadas dos pais, nas enxovias immundas onde o

ar falta e onde a desesperança brama sinistramente--e se prepara

energica e sombria para o definitivo assalto que ha de render a velha

sociedade apodrecida!

O que queriam--não esses christãos degenerados e contagiados pelo

paganismo de que fala com amargo despreso S. Jeronymo--mas os grandes

christãos que sacrificavam e oravam nas catacumbas, que morriam nos

amphiteatros e que escreviam com o sangue do coração os seus rudes

hymnos de adoração e de fé?

Queriam o desmoronamento total d'esse imperio que era a somma do todas

as iniquidades pagãs, que era a escravidão do miseravel e a apotheose do

mau rico!

O que quer hoje o socialismo triumphante?

A morte d'esta sociedade, cujo esplendor maravilhoso se faz com o

sangue, e as lagrimas do miseravel, do, como nunca, miseravel

proletario!

Não é verdade que esta similhança basta para dar ao livro um intenso e

profundo interesse?

Pelo mundo fóra · 第 20 / 52 题