Sem podermos acompanhar o livro altamente instructivo de Gaston
Boissier, nos variados assumptos que elle trata, sem tentarmos resumir
os quadros magistraes da vida da antiguidade que elle traçou, n'essas
paginas tão ricas de informação e tão sobrias de côr, escolhamos, para
d'elles dar conta aos leitores, a quem este genero de trabalho interessa
particularmente, alguns dos seus capitulos mais notaveis.
A biographia de Tertuliano, um apologista do christianismo, que o mundo
moderno conhece apenas de nome, apesar da sua celebridade theologica não
póde, por exemplo, interessar-nos tanto como a _Conversão de Santo
Agostinho_.
Este Santo que conheceu até á saciedade, até á nausea, todas as delicias
da volupia pagã, este joven elegante, que frequentou com tamanha paixão
litteraria as escolas de Carthago, este christão que seguiu com enlevo
as procissões da _Mãe dos Deuses_, e que no theatro devorou avidamente
as peças ligeiras do reportorio antigo--interessa-nos pela violenta
crise mortal que determinou a sua conversão.
Elle mesmo nos confessou em um livro que será sempre avidamente lido
pelos prescrutadores insaciaveis do eterno abysmo humano, todas as
gradações, todos os cambiantes por que passou a sua alma sequiosa do
Infinito e que procurava estancar a sêde que tinha lá dentro de verdade
e de luz, correndo atraz de todas as sensações acres e pungitivas,
sondando com curiosidade inquieta todos os segredos da Paixão e do
Prazer.
Tanto mais meritorio é o sacrificio feito por Santo Agostinho, ao
renunciar ás delicias da litteratura pagã, ás graças da musa classica,
aos encantos da sociedade polida e culta, quanto era sincero e
apaixonado o amor que ella tinha por todos esses prazeres da
intelligencia e dos sentidos.
Admirador de Virgilio, discipulo de Cicero, elle atirou-se porém, com
ardente desejo de achar n'ellas a verdade que lhe fugia, ao estudo das
Escripturas. Ao principio a barbaria christã revoltou o seu puro gosto.
Só mais tarde é que, através da fórma incorrecta d'essas traducções
hebraicas feitas por escrupulosos e ignorantes christãos, elle poude
perceber as correntes puras e limpidas, os mananciaes de vida interior,
as preciosas riquezas d'alma, que jorravam dos livros sagrados, e que
vinham renovar a alma humana, vazar em moldes novos as suas aspirações e
os seus sonhos, crear uma nova fórma de civilisação infinitamente mais
rica e mais complexa do que essa, que a formidavel depravação romana
tinha gasto com os seus excessos orgiacos e os seus monstruosos e nunca
vistos crimes!
Todo o capitulo consagrado a essa bella figura do christianismo
primitivo, a esse grande espirito que tanto concorreu para a organisação
definitiva dos seus dogmas, e em que Gaston Boissier conta as suas
luctas interiores e, finalmente, o triumpho soberbo da sua conversão é
de um interesse palpitante.
Teem sempre actualidade para aquelles que pensam os intimos combates de
uma consciencia sincera.
Aos que fôrem verdadeiramente _homens_ nada do que é humano póde ser
estranho; e onde é que a maravilhosa planta dá a sua flôr mais
desabrochada e mais perfeita do que n'esses typos luminosos, nos quaes o
genio concretisou todos os seus esplendores, a vontade, todas as suas
sublimes energias, a consciencia, todas as suas forças mysteriosas!...
Santo Agostinho é o homem que amou, que aspirou, que conheceu a vida,
que luctou e que venceu por fim, sobrepondo a todas as contingencias da
existencia limitada e mesquinha o que elle na sua alta consciencia
julgou ser a eterna verdade!
Subir tão alto pela acção do seu proprio entendimento é conter dentro de
si, em um momento cuja memoria não mais se anniquilla, fecundando
eternamente outras almas e outras existencias;--aquella porção de
_elemento divino_ que é dado á frágil humanidade realisar e encarnar em
si bem raras vezes.
São estas almas superiores as eternas bemfeitoras da nossa raça
imperfeita, tão grande pelo que sonha, tão mesquinha pelo que consegue
executar.
_As origens da poesia latina christã_, que compõem o livro 4.^o, no
segundo volume, são tambem cheias de interesse e novidade para quem não
está costumado--e quem o está hoje em dia?--a versar tão remotos
assumptos!
A litteratura christã nasceu como já dissemos da mistura que se fez
durante tres seculos da antiguidade profana e do christianismo.
Aos que conhecem e apreciam a litteratura dos grandes seculos da Grecia
e de Roma, deve incontestavelmente parecer mediocre, quasi
insupportavel, essa rude e incorrecta litteratura, onde o melhor era
imitado ainda assim, com inconsciente impudor, dos modelos antigos.
Mas muito embora ella não tenha valor litterario, ninguem póde negar-lhe
um grande valor historico.
O grande abalo moral que o Christianismo imprimira ás almas não tem
comtudo, um éco que lhe corresponda na poesia d'este tempo.
Era muito imperfeito o instrumento d'essa lingua latina em dissolução na
qual tantos povos varios tinham introduzido as suas locuções barbaras, e
que manejada por humildes artifices ignorantes as mais das vezes,
perdera o sabor e a graça ampla e perfeita da aurea latinidade.
Não póde pois ser classificada como uma obra de litteratura, a serie de
escriptos, que essa era,--no entretanto fecunda e na qual se estavam
surdamente e subterraneamente elaborando tantos elementos
novos--produziu e nos legou.
N'esse tempo cumpria-se justamente um dos maiores acontecimentos da
Historia.
O mundo estava sendo revolvido até ás suas entranhas mais profundas.
Havia dramas intimos em cada consciencia, parecidos com esse, de que
Santo Agostinho nos representa o mais elevado typo; havia luctas
dolorosas em cada familia; em uns a sêde do martyrio tinha
voluptuosidades violentas; em outros a plenitude da paz religiosa
attingia uma especie de beatifico esplendor. Que novas sensações de uma
intensidade inultrapassavel conheceram então as almas! Que fontes de
graça mysteriosa jorraram subitamente n'esses renovados corações! Os
crentes elevaram o espirito n'um extase até alli desconhecido. A vida
eterna abria as portas resplandecentes aos sequiosos do eterno _au de
lá_. Jesus Christo mostrava as chagas do seu corpo, e os estygmas do seu
martyrio affrontoso aos que sentiam subir na alma como uma maré
mysteriosa, o novo sentimento do amor, a divina emoção da piedade
fraternal, que subito fizera todos os homens irmãos, e todos os irmãos
soffrendo a partilha angustiosa da mesma agonia!
O Evangelho revelava as suas lendas cheias de graça, as suas parabolas
de idyllica innocencia, as suas lições de simples e ineffavel bondade,
aos saciados de uma civilisação dissoluta e abominavel!
Todos tinham um quinhão n'aquella herança preciosa!
Para todos havia pão e vinho n'aquella ceia symbolica, em que as almas
rejuvenescidas por um sopro de amor commungavam maravilhadas!
Não é, porém, na litteratura, mesmo nos mais rudes ensaios da
litteratura christã do tempo, que este mundo de emoções novas tem o seu
perduravel reflexo.
A alma do povo, na sua fecundidade prodigiosa, desatou-se, abalada por
este impulso que a transfigurava e sacudia, em idéas, em typos, em
imagens, em lendas, que a Arte Christã em todos os seus periodos tem
largamente aproveitado. Em dois seculos, do segundo ao quarto seculo, a
imaginação christã elaborou e amontoou thesouros que enriqueceram o
mundo moderno.
Os evangelhos apocryphos gerados espontaneamente pela alma popular, no
tempo do christianismo primitivo, são os thesouros mais ricos em que
essa imaginação se desentranhou.
A mais doce, a mais imaginosa poesia do christianismo encontra-se alli.
Todas as lendas que fizeram o encanto da nossa infancia, e que
emballaram tambem com o seu rythmo dulcissimo a risonha infancia da alma
moderna, são tiradas d'essa poesia anonyma, em que todas os almas
collaboraram em um enleio religioso, e em uma fé palpitante e
suggestiva, inconsciente dos prodigios que creava.
Essa é que é a verdadeira litteratura christã, aquella em que as forças
espontaneas que geram os mythos e os adornam com todas as flores da mais
variada poesia, se revelam com encantadora eloquencia.
* * * * *
Passando em claro os capitulos consagrados a S. Paulino de Nola, um
santo gaulez que inspira uma sympathia patriotica a Gaston Boissier; o
capitulo que tracta da vida e das obras do poeta Prudencio; e muitos
outros que estão cheios de revelações sobre a quadra que descrevem, e em
que nós os leitores podemos reconstituir com intenso colorido esse
seculo estranho, em que um periodo da Historia da humanidade findava e
outro principia a destacar-se nitidamente--paremos deante do _Livro
quinto_ do 2.^o vol. que tem este titulo que é só por si um regalo para
os _gulosos_ de taes estudos: _A sociedade pagã nos fins do seculo IV_.
Mas percebo agora que cheguei ao fim do espaço de que posso dispôr. E
este capitulo de costumes,--em que uma sociedade aristocrata, culta,
amiga das lettras, fastienta até ao requinte, frivola até á dissipação,
muito occupada de elegancias mundanas, de convenções e de cerimonias,
muito sceptica, separada por um abysmo do mundo moderno cujos
representantes eram justamente os que compunham a seita que ella teimava
a desprezar como plebeia, humilde e ignorante, mesmo depois de fazerem
parte d'ella homens de valor moral de Agostinho,--este capitulo, digo em
que uma sociedade tão parecida com a nossa com os mesmos preconceitos,
com os mesmos vicios, com a mesma despreoccupação do perigo está posta
de pé, com admiravel vigor, precisa de um artigo especial que muito
proximamente lhe consagrarei.