O comboio levava-me, rapido, ferozmente rapido. Levava-me para longe do
meu ninho, dos meus filhos, de tudo que me faz a vida consolada e boa,
de tudo que me dá força para o trabalho, para a lucta, de tudo que enche
de bençãos a minha existencia laboriosa e triste...
Á paizagem arida, pedregosa, da Extremadura hespanhola succedia um
scenario mais animado, mais caracteristico. Aldêas que desde os tempos
hispano-arabes se conservam na mesma immobilidade barbara, sinos altos
de egrejas gothicas, perfis apenas entrevistos de velhos conventos,
ninhos de cegonhas nas arvores que pareciam correr commigo, sombrias
manchas de arvoredo que o vento torcia em attitudes de desesperada
supplica...
A grandeza alpestre dos Pyrenéos e a França, a França emfim!... Oh! que
jubilo estranho e mysterioso se mesclou então com a saudade que me ia
alanceando e cortando as raizes da alma!
A França! Como eu tinha levado annos a amar e a sonhar esse paiz entre
todos aureolado aos meus olhos da luz que vem de cima!
Outras que para lá partem levam projectos de requintada elegancia para
pôr em pratica. Irão ao Redfern, o alfaiate afamado da rua Rivoli, que
veste tão primorosamente as francezas de alto cothurno; irão ao Worth,
popularisado pelos romances modernos; á Laferrière, que veste as
actrizes de mais fama; ao Felix, que principescas encommendas acabam de
singularisar; comprarão na Virot o ultimo modelo de chapéo; receberão
_chez_ Lenthéric _des conseils de beauté_, que elle dá carissimos, _pela
hora da morte_, segundo a expressiva phrase portugueza, e que de resto
tão pouco aproveitam a quem os recebe; interrogarão anciosas a elegancia
avulsa da parisiense que passa, pedindo-lhe o segredo, que só ella tem,
de andar por sobre o solo molhado ou enlameado, sem macular de leve a
fimbria, gentilmente arregaçada, do seu simples, gracioso e bem posto
vestido escuro, que se amolda sobre um espartilho de mestra, com a
nobreza com que sobre o corpo de uma estatueta de Tanagra se amolda a
roupagem de linhas magistraes que o envolve sem encobril-o; o segredo de
collocar sobre a sua fina cabeça pequenina, lindamente penteada, ou
antes, lindamente despenteada, um minusculo chapéo, similhante a uma
borboleta ou a uma flôr, que o vento parece querer levar, e que não leva
nunca...
O Paris que as attrahe é o Paris da moda, da elegancia, do _chic_, do
_concours hippique_, da _avenue des Acacias_, do _vernissage_ e dos
pequenos theatros gaiatos. O Paris que as attrahe é o dos figurinos, das
lojas de modas, dos ourives da rua de _la Paix_, dos frequentadores do
_boulevard des Italiens_ e da _Madeleine_.
O Paris que, na velocidade vertiginosa, quasi tragica do _expresso_,
surgia ante meus olhos, era um Paris phantastico, _unreal_, feito,
construido, cimentado com o genio dos seus grandes artistas, dos seus
grandes poetas, dos seus historiadores, dos seus moralistas, dos seus
sabios, dos seus criticos, dos seus dramaturgos, dos seus romancistas
geniaes!
A França, a que minha alma aspirava, como aspira ás paizagens desoladas
da Palestina a alma dos grandes ascetas do christianismo, como aspiram á
mystica e penetrante atmosphera de Bayreuth os fanaticos da religião
wagneriana, era a França que desde Jean Goujon até Rodin, e desde o
Poussin até Puvis de Chavannes, e desde Froissart até Michelet, e desde
Mme. Laffayette até Georges Sand, e desde Balzac até Zola, e desde
Pascal até Renan--um, o catholico que se inclina sobre o abysmo da
duvida, outro, o sceptico que tem a uncção evangelista de um santo... e
desde Montaigne até Anatole France, e desde Racine até Bourget... os
finos psychologos do eterno feminino--e desde Ronsard até Victor Hugo, e
desde Marot até Verlaine, e desde a grande renascença do seculo XVI até
ao magnifico movimento do romantismo, têem enchido o mundo da arte, e da
poesia, e da realidade, e da ficção, de obras primas sem conta e sem
medida!...
De pequena tinham-me ensinado essa lingua tão clara, que milhares de
artistas forjaram, bateram, cinzelaram, incrustaram de pedrarias
coruscantes, esmaltaram de riquissimas côres, metal precioso feito de
todos os metaes, e que tem qualidades de flexibilidade, de elegancia, de
sonoridade, de harmonia, de colorido, e de pujança absolutamente
incomparaveis e inimitaveis... De pequena tinham-me mettido nas mãos as
obras primas dos seus genios mais brilhantes, e eu sentia-me no intimo
da minha alma mais franceza ás vezes do que propriamente peninsular.
Ah! mas que melancholico foi o despertar do meu ambicioso, do meu doido
sonho!...
Atravessei, com uma rapidez que me deixou confusa e palpitante, o Paris
da minha evocação de vidente; estavam mortos os amigos que me tinham
alimentado com a medula do seu cerebro, ou com o leite da sua poesia, e,
vivos que fossem, alli perto d'elles, na atmosphera em que elles tinham
respirado, nas ruas em que elles tinham morado, no scenario que elles
enchiam do seu nome é que eu, pela primeira vez, ia sentil-os longe,
muito longe de mim, na incommensuravel distancia moral, que a
proximidade physica revelava de repente ao meu chimerico espirito de
sonhadora!
......................................................................
Senti então o que nunca julguei que sentiria n'esse paiz que eu reputava
positivamente a patria do meu espirito! Senti uma nostalgia tão
violenta, tão dolorosa, que pensei morrer d'ella! Uma especie de
desaggregação intellectual, que deve ter nome na pathologia do cerebro,
mas que eu não sei scientificamente classificar--o que de resto não
admira nada!
Esqueci-me do que aprendera, fiquei-me em uma especie de assombro mudo,
em que a saudade de Portugal punha uma nota alanceadora, torturante.
O que os livros me tinham revelado foi como que varrido da minha
memoria; os sonhos que eu tinha edificado sobre a minha vinda a Paris,
desmoronaram-se em uma especie de estranho cataclysmo, e percorri a
linda capital da Europa civilisada, não como uma pessoa que de antemão,
e por muito os ter visto descriptos, conhecesse os seus encantos, as
suas bellezas soberanas, os filtros subtis que do seu _pavé de bois_ se
exhalam de envolta com o cheiro penetrante da terra sempre humida e
sempre regada, a festa perenne das suas ruas e avenidas onde a miseria
não vem pôr a sua mancha livida, onde perpassa uma multidão sempre
garrida e sempre feliz, a perfeição nos seus theatros, a perversa poesia
das suas canções _fim de seculo_, a tenra verdura das suas arvores, tão
bem cuidadas que parece que de manhã cedo as lava todos os dias, a
esponja e sabonete, um exercito de invisiveis jardineiros, a lindeza da
sua luz que á tarde se faz de um cinzento roseo como o das paizagens de
Corot, tão inexprimivelmente bellas... mas como um ser inteiramente novo
às impressões da vida extra-civilisada e que d'ella recebesse uma
especie de choque _estupidificante_!
Através de tudo, o que eu sentia vivo, absorvente como um _cauchemar_,
era a saudade do meu paiz, da minha Lisboa das sete collinas, construida
em amphitheatro, sobre o Tejo amplo e azul, da bonhomia d'este nosso
viver um pouco provinciano, pacato apesar do ridiculo de parodia
involuntaria que ás vezes o desfigura e o desnacionalisa, da
familiaridade com que todos nos conhecemos, nos amamos através do
_debique_ permanente, em que andamos uns a respeito dos outros, da
tranquillidade um tanto adormecida do nosso espirito, do amor da casa
que distingue todo o bom lisboeta, da ausencia de ambição que,
exceptuando as alturas procellosas da politica, imprime o seu cunho
esterilisador, mas calmante, em todas as nossas almas serenas...
A lingua então, a musica da lingua patria, fazia-me uma falta dolorosa.
Tinha sêde de ouvir falar portuguez!
E preferia aos divertimentos que a engenhosa amabilidade do meu querido
hospedeiro me proporcionava, e ás excursões artisticas em que elle era
um _cicerone_ incomparavel, instruidissimo, _raffiné_, cheio de idéas
originaes e suggestivas, as tranquillas e doces noites passadas em
Neuilly, na luz discreta da lampada Carcel, que um quebra-luz côr de
rosa fazia mais acariciadora e mais suave, e onde a familia
adoravelmente intelligente, e inolvidavel para mim, de um escriptor
portuguez, que é um artista da mais pura raça intellectual e da mais
ampla envergadura de engenho, me fazia uma especie de pequenina patria.
Alli a conversa tinha o tom preguiçoso da nossa conversa, os gostos
combinavam-se com os meus gostos, os nossos geitos especiaes de
portuguezas manifestavam-se a cada instante, e o que a graça feminil de
umas combinada com o genio nervoso e original de outros podiam dar de
delicioso ao meu espirito, harmonisavam-se para me fazer esquecer a
patria, os filhos, os outros amigos ausentes!
Nem sabem--n'esse ideal cantinho do mundo onde vivem, um pouco alheados
da civilisação babylonica que os aperta, os cinge e os invade ás
vezes--elle, o artista laborioso e apaixonado mettido no seu trabalho
austero e impeccavel, como um monge na sua cella estreita, ellas, as
duas encantadoras irmãs, envoltas na grinalda viva de lindissimas flôres
humanas, que são para uma _tudo_, e quasi tudo para o coração
instinctivamente maternal da outra,--nem sabem o bem que me fizeram
n'uma d'estas crises absurdas que só os nervosos conhecem e das quaes o
mundo estupidamente ri!
Foi ahi sobretudo que eu, curada d'aquella violenta nostalgia que
ameaçava inutilisar inteiramente o resultado moral da minha viagem,
_reaprendi_ a gosar Paris, não já o meu Paris ideal, especie de
babylonia construida em nuvens, mas o Paris verdadeiro, o Paris real,
tal como elle lentamente me foi sendo revelado pelo intelligente
_cicerone_ que eu tive a fortuna de ter no meu divagar de _touriste_.