PELO MUNDO FÓRA

LISBOA

Livraria de Antonio Maria Pereira--editor

_50, 52--Rua Augusta--52, 54_

1896

LISBOA

Typographia e Stereotypia Moderna

_II--Apostolos--II_

1896

I

Não ha de certo ninguem, por pouco imaginativo e pouco phantasista que

seja, que não tenha architectado um complicadissimo e alegre sonho

dando-lhe por base o _prazer das viagens_. Aos homens é o interesse de

visitar cousas novas, de experimentar sensações mais vivas, que os

attrahe e chama; ás mulheres é o amor do desconhecido que lhes irrita a

insaciavel curiosidade.

Imaginamos todos que a ventura está justamente... onde nós não estamos.

E que seria facil conquistal-a, indo em demanda d'ella um pouco longe,

em um logar d'onde ella nos sorri, d'onde ella nos acena, cariciosa...

traiçoeira.

Eu cedi tambem á estranha, á irresistivel suggestão. Fui-me por esse

mundo fóra em busca do pomo d'ouro, que tantas vezes se parece com

aquelle fructo colhido em terras da Palestina--mimo e velludo por fóra,

cinzas escuras no interior.

Era bem natural que, para mim tão profundamente modelada pelo espirito

da França, o primeiro objectivo fosse a terra onde a civilisação

franco-latina se resume em synthese deslumbradora.

Chamava-me Paris. E Paris não era, já se vê, a cidade luxuosa e alegre

do _boulevard_, a cidade da permanente festa, do prazer que se elabora

de todos os requintes de uma decadencia, da phrenetica aspiração ao gozo

material da vida.

Paris era a terra sagrada d'onde brotára para a especie humana a

primeira scentelha da Liberdade.

Paris era a patria, pelo menos moral--d'aquelles espiritos de que a

minha alma colhêra, n'um vago extase fecundante, a flôr maravilhosa e

inspiradora.

Todos os que eu intellectualmente mais amára tinham ido alli receber a

consagração suprema da gloria ou da desgraça, ás vezes de ambas ellas.

Eram, no grande seculo classico, Pascal, Racine e Molière; eram, na

soberba Renascença franceza, Rabelais e Montaigne; eram depois, n'esse

seculo XVIII hoje tão calumniado, mas sempre tão grande, e que tão

indomitas energias acordara na alma do homem, Rousseau com a sua morbida

sensibilidade de ambicioso e de revoltado, que nós hoje comprehendemos

tão bem; era Voltaire, a sã ironia hoje desdenhada, mas que tão benefica

acção exerceu na treva do espirito humano; era Diderot, o profundo

precursor de todas as modernas theorias criticas, o homem que no seu

tempo moveu maior numero de idéas novas e suggestivas; era a pleiade

formidavel e fascinante da Revolução, a que na minha mocidade me dera

sensações de tão absoluto assombro, a que, desde Turgot e Mirabeau até

Robespierre, refizera em novos moldes o mundo moral e o mundo politico;

era, na cumiada mais alta e mais luminosa da montanha da Historia, essa

grande figura immortal, o Alexandre do seculo XIX, o heroe de Homero, o

phrenetico conquistador, que empobreceu talvez a França, que dizimou as

populações e crucificou as mães e as noivas, que sangrou do seu melhor

sangue as nações e as raças, mas que imprimiu na sua patria o cunho

epico, inapagavel, inolvidavel, com que ella ainda hoje espanta e

assombra o espirito dos estrangeiros! Parece dos tempos lendarios e é de

hontem esse homem soberbo e fatal--em cujo olhar profundo ha

reverberações do Olympo, e cuja fronte pensativa fez parar embevecidos,

silenciosos, os mais impassiveis e os mais frivolos--cuja figura nós

topamos a cada passo na Capital do Mundo.

Modernamente, quantos outros me chamavam, ainda mais queridos ao meu

coração, ainda mais intimamente e estreitamente identificados com todas

as recordações mais doces da minha vida intellectual... Era Michelet, o

poderoso encanto allucinante; era Balzac, a vida intensa que pullula em

creações immortaes; era Renan, a graça emballadora, ondeante e morbida,

que anesthesia e faz sonhar; e Taine, o vigor soberbo da idéa servido

por um temperamento possante de artista e de poeta, um Spinosa que

tivesse o pincel do Veronez para traduzir as visões do seu pensamento

altissimo; era Musset, o divino; era Sand, e Sainte Beuve, e Hugo, e

Lamartine: e cada um me attrahia por um lado ou por muitos lados da sua

sensibilidade e do seu genio, e cada um me dizia a palavra magica que

faz parar, suspenso, embevecido, um espirito de poeta e de artista,

humilde embora...

Eram mais, eram muitos mais, todos lidos, todos decorados com

enternecimento e apaixonado enlevo. Eram os que eu sempre amei desde que

abri os olhos d'alma, e a quem devo os prazeres mais ardentes, mais

refinados ou mais subtis da minha vida interior.

Todos alli me chamavam--côro de mortos que eu tinha a louca illusão de

encontrar ainda. Parecia-me que o sorriso aberto e expansivo do pae

Dumas havia de accentuar-se sympathicamente ao encarar com o meu

assombro extatico; que a voz mordente de Voltaire se amolleceria para

acolher em mim a mais fervente enthusiasta do espirito francez; que

Beaumarchais me contaria, entre risonho e caustico, uma nova travessura

de _Figaro_, uma nova paixão de _Cherubin_; que Molière, descendo do seu

pedestal marmoreo, me diria ao ouvido uma d'aquellas profundas reflexões

satyricas que elle não poupára ás _bas-bleus_ do seu tempo!

Para mim confundiam-se n'um cahos allucinante as épocas, os seculos, os

periodos historicos.

O meu humilde espirito colhêra apaixonadamente scentelhas soltas de

todos esses espiritos; a minha memoria guardava reverente, em relicario

precioso, perfumes vagos de todas essas essencias raras! Amara-os tanto!

Sonhara-os tanto! O scenario onde elles se tinham movido interessava-me

tão profundamente!

Oh! Balzac ia decerto contar-me a historia, para elle _real_, das suas

elegantes e pallidas heroinas; elle que era forte e bom, compadecido da

minha pequenez, não duvidaria apresentar-me a esse mundo mais humano,

mais verdadeiro que o outro em que tanto á vontade sabia mover-se.

A viscondessa de Beauseant, a espirituosa e aristocratica rainha do

_faubourg_, aquella que amára tanto um portuguez, e que tivera no seu

abandono uma dignidade tão gentil e uma attitude de tão romanesco

encanto, ao vêr-me patrocinada pelo seu grande artista, far-me-hia o que

fez a Eugenio de Rastignac: proteger-me-hia, introduzir-me-hia,

carinhosa e maternal, no circulo estreito, exclusivo, selecto onde

viviam as suas eguaes.

Então, n'este ponto do meu sonho galopante, mais rapido que o trem que

me levava, mais vertiginoso que o scenario mudavel que me envolvia, eu

deixava o mundo da realidade sempre limitado, sempre condicional e

sempre estreito, por outro amplissimo, fascinador e deslumbrante.

A multidão prestigiosa das figuras de Balzac cercava-me n'uma especie de

circulo encantado. Todo o sortilegio poderoso com que esse grande

artista--o Napoleão da litteratura--actuou sobre o nosso tempo, descia

sobre o meu cerebro, excitava-o, estimulava-o perigosamente.

Todos os meus gostos de observadora achavam alli a sua satisfação plena.

Esquecia, n'esse mundo de tão frisante _realidade_, de tão intensa vida,

tudo que o mundo actual tem de nauseante e de triste...

De resto, Nucigen, o formidavel banqueiro da _Comedia humana_, é bem

mais assustador que Reinach e que todos os judeus modernos da Columna da

Bolsa; Vautrin tem um porte épico de criminoso que deixa a perder de

vista Cornelio Herz, ou Arton; de Marsay, esse personagem que é de

Balzac como Hamlet é de Shakespeare, como Tartufo é de Molière, como D.

Juan é de Byron, é um politico, um diplomata, um perverso das altas

cumiadas sociaes, bem superior a Rouvier, a Clemenceau, aos pobres

pygmeus da terceira Republica; Lousteau, Claude Vignon, Emilio Blondet,

Nathan, os principes do jornalismo, os grandes criticos e os

manipuladores de _successos_ ou de derrotas litterarias, não podem

realmente comparar-se ao sr. Mayer, ao sr. Magnard, ao proprio sr.

Rochefort.

E que pleiade encantadora de artistas e de sabios! Que lindas figuras

luminosas de pintores, de esculptores, de romancistas, de pensadores!

D'Arthez! Joseph Bridau! Camille Maupin! Leon Giraud! Fulgence Ridal!

Em Miguel Christien transparece a integridade rigida, a consciencia

admiravel, a fogosa independencia de Armand Carrel; em D'Arthez a bella

alma, a vida modesta e simples, a magnificencia intellectual de um

Berryer...

E todos desfilavam ante os meus olhos offuscados, os cinzeladores da

palavra, os manejadores soberbos ou do escalpello que abre as entranhas

humanas para extrahir d'ellas o segredo da vida, ou do pincel que rasga

janellas de luz para o azul, para o Ideal! Os mestres da sciencia e da

arte, os grandes typos que constituiram essa sociedade imaginaria da

obra de Balzac, reflexo idealisado da outra que elle frequentava e

conheceu tambem.

Ao pé d'esse agrupamento sublime de figuras que o genio creou, e que

illuminam o talento, a gloria, a ambição ou a desventura, que ora se

contorcem como os personagens que Miguel Angelo pintou nos seus frescos

soberbos, sob o influxo de uma dôr tremenda, ora sorriem olympicamente,

como os retratos do Ticiano, surge uma legião adoravel de mulheres, em

quem a graça indefinivel da parisiense se allia ao eterno mysterio da

poesia feminina, mulheres que se vestem como duquezas modernas, e

sorriem, enygmaticas e suggestivas, como a Monna Lisa, eternamente

indecifravel, do pintor florentino.

Mulheres que sabem _ouvir_, que sabem comprehender, e julgar, e

consolar, e amar; mulheres que, sendo perversas, teem o encanto

diabolico da princeza de Cadignan e de Mme. Marneffe, e que, sendo

puras, se chamam Henriette de Morsauf, Duqueza de Langeais; mulheres que

são ao mesmo tempo imaginarias e reaes; que ficaram representando na

historia um papel preponderante e caracteristico, como as inspiradoras

da Renascença italiana, como as amigas gregas de Socrates e de Platão.

Pelo mundo fóra · 第 6 / 52 题