ODE II.

Tão suave, tão fresca e tão formosa,

Nunca no ceo sahio

A Aurora no princípio do verão,

Ás flores dando a graça costumada,

Como a formosa mansa fera, quando

Hum pensamento vivo m'inspirou,

Por quem me desconheço.

Bonina pudibunda, ou fresca rosa,

Nunca no campo abrio,

Quando os raios do sol no Touro estão,

De côres differentes esmaltada,

Como esta flor, que os olhos inclinando,

O soffrimento triste costumou

Á pena que padeço.

Ligeira, bella Nympha, linda, irosa,

Não creio que seguio

Satyro, cujo brando coração

D'amores commovesse fera irada,

Qu'assi fosse fugindo e desprezando

Este tormento, donde Amor mostrou

Tão próspero comêço.

Nunca, emfim, cousa bella e rigorosa

Natura produzio,

Qu'iguale aquella fórma e condição,

Que as dores em que vivo estima em nada.

Mas com tão doce gesto, irado e brando,

O sentimento, e a vida m'enlevou,

Que a pena lhe agradeço.

Bem cuidei d'exaltar em verso, ou prosa,

Aquillo que a alma vio

Entre a doce dureza e mansidão,

Primores de belleza desusada;

Mas quando quiz voar ao ceo cantando,

Entendimento e engenho me cegou

Luz de tão alto preço.

Naquella alta pureza deleitosa

Que ao mundo s'encobrio;

E nos olhos Angelicos, que são

Senhores desta vida destinada;

E naquelles cabellos, que soltando

Ao manso vento, a vida me enredou,

M'alegro e m'entristeço.

Saudade e suspeita perigosa,

Que Amor constituio

Por castigo daquelles que se vão;

Temores, penas d'alma desprezada,

Fera esquivança, que me vai tirando

O mantimento que me sustentou,

A tudo me offereço.

Amor isento a huns olhos m'entregou,

Nos quaes a Deos conheço.

Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II · 第 372 / 391 题