ODE I.

Detem hum pouco, Musa, o largo pranto

Que Amor te abre do peito;

E vestida de rico e ledo manto,

Demos honra e respeito

Áquella, cujo objeito

Todo o mundo allumia,

Trocando a noite escura em claro dia.

O Delia, que a pezar da nevoa grossa,

Co'os teus raios de prata

A noite escura fazes que não possa

Encontrar o que trata,

E o que n'alma retrata

Amor por teu divino

Raio, por qu'endoudeço e desatino:

Tu, que de formosissimas estrellas

Corôas e rodeias

Tua candida fronte e faces bellas;

E os campos formoseias

Co'as rosas que semeias,

Co'as boninas que gera

O teu celeste humor na primavera:

Para ti guarda o sítio fresco d'Ilio

Suas sombras formosas;

Para ti o Erymantho e o lindo Pylio

As mais purpureas rosas;

E as drogas mais cheirosas

Desse nosso Oriente

Guarda a felice Arabia mais contente.

De qual panthera, ou tigre, ou leopardo

As asperas entranhas

Não temêrão teu fero e agudo dardo,

Quando por as montanhas

Mais remotas e estranhas

Ligeira atravessavas,

Tão formosa que a Amor d'amor matavas?

Pois, Delia, do teu ceo vendo estás quantos

Furtos de purídades,

Suspiros, mágoas, ais, musicas, prantos,

As conformes vontades,

Humas por saudades,

Outras por crus indicios

Fazem das proprias vidas sacrificios:

Ja veio Endymião por estes montes

O ceo, suspenso, olhando,

E teu nome, co'os olhos feitos fontes,

Em vão sempre chamando,

Pedindo (suspirando)

Mercês á tua beldade,

Sem que ache em ti hum'hora piedade.

Por ti feito pastor de branco gado

Nas selvas solitarias,

Só de seu pensamento acompanhado,

Conversa as alimarias,

De todo Amor contrárias,

Mas não como ti duras,

Onde lamenta e chora desventuras.

Das castas virgens sempre os altos gritos,

Clara Lucina, ouviste,

Renovando-lhe as fôrças e os espritos:

Mas os daquelle triste,

Ja nunca consentiste

Ouvi-los hum momento,

Para ser menos grave o seu tormento.

Não fujas, não de mi! Ah não t'escondas

D'hum tão fiel amante!

Ólha como suspirão estas ondas,

E como o velho Atlante

O seu collo arrogante

Move piedosamente,

Ouvindo a minha voz fraca e doente.

Triste de mi! Qu'alcanço por queixar-me,

Pois minhas queixas digo

A quem ja ergueo a mão para matar-me,

Como a cruel imigo?

Mas eu meu fado sigo,

Que a isto me destina,

E qu'isto só pretende e só m'ensina.

Oh quanto ha ja que o Ceo me desengana!

Mas eu sempre porfio

Cada vez mais na minha teima insana.

Tendo livre alvedrio,

Não fujo o desvario;

Porque este em que me vejo

Engana co'a esperança o meu desejo.

Oh quanto melhor fôra que dormissem

Hum somno perennal

Estes meus olhos tristes, e não vissem

A causa de seu mal

Fugir, a hum tempo tal,

Mais que d'antes proterva,

Mais cruel que ursa, mais fugaz que cerva!

Ai de mi, que me abrazo em fogo vivo,

Com mil mortes ao lado;

E quando morro mais, então mais vivo!

Porque t[~e]e ordenado

Meu infelice fado,

Que quando me convida

A morte, para a morte tenha vida.

Secreta noite amiga, a que obedeço,

Estas rosas (por quanto

Meus queixumes me ouviste) te offereço,

E este fresco amaranto,

Humido ja do pranto,

E lagrimas da esposa

Do cioso Titão, branca e formosa.

Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II · 第 371 / 391 题