CANÇÃO VI.

Com força desusada

Aquenta o fogo eterno

Huma Ilha nas partes do Oriente,

D'estranhos habitada,

Aonde o duro inverno

Os campos reverdece alegremente.

A Lusitana gente

Por armas sanguinosas

T[~e]e della o senhorio.

Cercada está d'hum rio

De maritimas ágoas saudosas.

Das hervas qu'aqui nascem,

Os gados juntamente e os olhos pascem.

Aqui minha ventura

Quiz que huma grande parte

Da vida, qu'eu não tinha, se passasse;

Para que a sepultura

Nas mãos do fero Marte

De sangue e de lembranças matizasse.

Se Amor determinasse

Que a trôco desta vida,

De mi qualquer memoria

Ficasse como historia,

Que d'huns formosos olhos fosse lida;

A vida e a alegria

Por tão doce memoria trocaria.

Mas este fingimento,

Por minha dura sórte,

Com falsas esperanças me convida.

Não cuide o pensamento

Que póde achar na morte

O que não pôde achar tão longa vida.

Está ja tão perdida

A minha confiança,

Que de desesperado,

Em ver meu triste estado,

Tambem da morte perco a esperança.

Mas oh! que s'algum dia

Desesperar pudesse, viveria.

De quanto tenho visto

Ja agora não m'espanto,

Que até desesperar se me defende.

Outrem foi causa disto,

Pois eu nunca fui tanto

Que causasse este fogo que m'encende.

Se cuidão que m'offende

Temor d'esquecimento,

Oxalá meu perigo

Me fôra tão amigo,

Que algum temor deixára ao pensamento!

Quem vio tamanho enleio,

Que houvesse ahi'sperança sem receio?

Quem t[~e]e que perder possa,

Só póde recear.

Mas triste quem não póde ja perder!

Senhora, a culpa he vossa,

Que para me matar

Bastára hum'hora só de vos não ver.

Puzestes-me em poder

De falsas esperanças:

E do que mais m'espanto,

Que nunca vali tanto,

Que visse tanto bem, como esquivanças.

Valia tão pequena

Não póde merecer tão doce pena.

Houve-se Amor comigo

Tão brando, ou pouco irado,

Quanto agora em meus males se conhece.

Que não ha mor castigo

Para quem t[~e]e errado,

Que negar-lhe o castigo que merece.

Da sórte que acontece

Ao misero doente,

Da cura despedido,

Que o Medico advertido

Tudo quanto deseja lhe consente;

O Amor me consentia

Esperanças, desejos e ousadia.

E agora venho a dar

Conta do bem passado

A esta triste vida e longa ausencia.

Quem póde imaginar

Qu'houvesse em mi peccado

Digno d'huma tão grave penitencia?

Olhae que he consciencia

Por tão pequeno êrro,

Senhora, tanta pena.

Não vêdes que he onzena?

Mas se tão longo e misero destêrro

Vos dá contentamento,

Nunca m'acabe nelle o meu tormento.

Rio formoso e claro,

E vós, ó arvoredos,

Que os justos vencedores coroais,

E ao cultor avaro,

Continuamente ledos,

D'hum tronco só diversos fructos dais;

Assi nunca sintais

Do tempo injúria alg[~u]a,

Qu'em vós achem abrigo

As mágoas que aqui digo,

Em quanto der o sol virtude á l[~u]a;

Porque de gente em gente

Saibão que ja não mata a vida ausente.

Canção, neste destêrro viverás,

Voz nua e descoberta,

Até que o tempo em ecco te converta.

Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II · 第 358 / 391 题