S'este meu pensamento,
Como he doce e suave,
D'alma pudesse vir gritando fóra;
Mostrando seu tormento
Cruel, aspero e grave,
Diante de vós só, minha Senhora;
Pudera ser que agora
O vosso peito duro
Tornára manso e brando.
E então eu, que sempre ando
Passaro solitario, humilde e escuro,
Tornado hum cysne puro,
Brando e sonoro, por o ar voando,
Com canto manifesto
Pintára a minha pena, e o vosso gesto.
Pintára os olhos bellos
Que trazem nas meninas
O menino que os seus nelles cegou;
Os dourados cabellos
Em tranças d'ouro finas,
A quem o sol os raios seus baixou;
A testa que ordenou
Natura tão formosa;
O bem proporcionado
Nariz, lindo, afilado,
Que cada parte t[~e]e da fresca rosa;
A boca graciosa,
Que o querê-la louvar he ja 'scusado.
Emfim, he hum thesouro;
Perolas dentes, e palavras ouro.
Víra-se claramente,
(Oh Dama delicada!)
Qu'em vós s'esmerou mais a natureza.
Mas eu, de gente em gente,
Trouxera trasladada
Em meu tormento vossa gentileza;
E somente a aspereza
De vossa condição,
Senhora, não dissera,
Porque se não soubera
Qu'em vós podia haver algum senão.
E se alguem, com razão,
Porque morres? dissesse, respondêra:
Morro, porque he tão bella,
Qu'inda não sou para morrer por ella.
E quando, por ventura,
Dama, vos offendesse,
Escrevendo de vós o que não sento,
E vossa formosura
Tanto á terra descesse,
Que a alcançasse humano entendimento;
Sería o fundamento
De tudo o qu'eu cantasse,
Todo de puro amor;
Porque o vosso louvor
Em figura de mágoas se mostrasse.
E aonde se julgasse
A causa por o effeito, a minha dor
Diria alli sem medo:
Quem me sentir verá de quem procedo.
Logo então mostraria
Os olhos saudosos,
E o suspirar que traz a alma comsigo;
A fingida alegria;
Os passos vagarosos;
O fallar e esquecer-me do que digo;
Hum pelejar comigo,
E logo desculpar-me;
Hum recear ousando;
Andar meu bem buscando,
E de o poder achar acovardar-me;
E, emfim, averiguar-me
Que o fim de tudo quanto estou fallando,
São lagrimas e amores;
São vossas isenções e minhas dores.
Mas quem terá, Senhora,
Palavras com qu'iguale
Com vossa formosura a minha pena;
E em doce voz de fóra
Aquella gloria falle
Que dentro na minh'alma Amor ordena?
Não póde tão pequena
Fôrça d'engenho humano
Com carga tão pezada,
Se não for ajudada
D'hum piedoso olhar, d'hum doce engano,
Que fazendo-me o dano
Vão deleitoso e a dor tão moderada,
Emfim se convertesse
No gôsto dos louvores qu'escrevesse.
Canção, não digas mais; e se teus versos
Á pena vem pequenos,
Não queirão de ti mais; que dirás menos.