CLXXVII.

Quando os olhos emprégo no passado,

De quanto passei me acho arrependido;

Vejo que tudo foi tempo perdido,

Que tudo emprêgo foi mal empregado.

Sempre no mais damnoso mais cuidado;

Tudo o que mais cumpria, mal cumprido;

De desenganos menos advertido

Fui, quando de esperanças mais frustrado.

Os castellos que erguia o pensamento,

No ponto que mais altos os erguia,

Por esse chão os via em hum momento.

Que erradas contas faz a phantasia!

Pois tudo pára em morte, tudo em vento,

Triste o que espera! triste o que confia!

Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II · 第 209 / 391 题