CLXXVI.

Lembranças, que lembrais o bem passado

Para que sinta mais o mal presente,

Deixae-me, se quereis, viver contente,

Morrer não me deixeis em tal estado.

Se de todo, comtudo, está do Fado,

Que eu morra de viver tão descontente,

Venha-me todo o bem por accidente,

E todo o mal me venha por cuidado.

Que muito melhor he perder-se a vida,

Perdendo-se as lembranças da memoria,

Pois fazem tanto damno ao pensamento.

Porque, em fim, nada perde quem perdida

A esperança t[~e]e ja daquella gloria

Que fazia suave o seu tormento.

Obras Completas de Luis de Camões, Tomo II · 第 208 / 391 题